Flavio Paiva

Deu vontade de colocar a pedra-de-peixe no aquário. Curiosidade ornamental. Fotografei. Da imagem do fóssil caririense foram surgindo representações zodiacais e divinais pelos vestígios arquetípicos do meu infinito interior, como um sýmbolon religando sensibilidades ubíquas e atemporais: um mesmo peixe dividido em duas bandas passíveis de se complementarem exatamente. Assim, de um lado vivendo e de outro gerindo a vida, vou me reconhecendo entre o que penso e o que faço, entre o que sou e o que compartilho nesse incitante processo não-linear e sem finalização que é a vida. Eis a minha senha. Pode entrar.

 
 
 

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Vergonha do Brasil? (Jornal O POVO, Vida & Arte, 12/07/2017)

Vergonha do Brasil?
Artigo publicado no Jornal O POVO, Caderno Vida & Arte, pág.4
Quarta-feira, 12 de julho de 2017 - Fortaleza, Ceará, Brasil

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FAC-SÍMILE

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Não, não tenho vergonha do Brasil, mesmo abatido com essa situação turva que o país atravessa. A realidade dolorida, açoitada e sem panos mornos por que passamos não deve ser motivo para um andar cabisbaixo. Seguir de cabeça erguida e fazendo o que se acredita é uma maneira de fazer política.

Deixar tudo invadir o nosso plano psicológico e não saber o que fazer com a dor resultante do esfaqueamento público dos organismos democráticos é entrar no jogo das mazelas sob as regras dos que as promovem. Esse me parece o pior caminho, por levar sempre a lugares em que não há saídas.

Claro que com esses mortos-vivos no controle, a imagem do Brasil está péssima. É muito triste para quem não se vê com força para afastá-los do poder. A derrota nesse sentido não é vergonhosa. Perder faz parte da vida. Quem luta do jeito que dá para livrar o país dessa praga de maus políticos não tem razão para se avergonhar.

O cenário é tão confuso e tão complexo que, embora diante das mais escabrosas revelações de corrupção, os retumbantes protestos contra esse mal social praticamente sumiram das ruas e das redes sociais. As bandeiras dos manifestantes de 2013 estão quietas, como se os que as agitavam estivessem contentes com a volta dos infortúnios às classes populares; e os estandartes dos que chegaram ao poder em nome do povo, agora só tremulassem em favor de velhos discursos e novas eleições.

Direta e indiretamente, quem está ajudando a construir o grande acordo para salvar lideranças envolvidas em corrupção, sejam de direita ou de esquerda, é que deveria estar com vergonha de si e do Brasil que estão forjando com suas cumplicidades oportunistas. Esses que se sujeitam aos indivíduos astutos em luta pelo poder já não parecem achar que a corrupção seja um problema-alvo.

A principal resposta a essa grilagem das instituições é evitar as armadilhas da contraviolência, negar o seu significado de vitória e não entrar na onda de se envergonhar do Brasil. Não dá para achar que é inútil o sofrimento da expressiva parcela da população que é vítima desses bandos e sua venenosa contaminação da sanidade cidadã; gente impactada com a dificuldade de enxergar perspectivas no mínimo razoáveis para o curto prazo da vida republicana.

O dilema que se impõe à sociedade brasileira não é entre ganhar ou perder, mas entre como tomar pé das coisas e como lutar. A superficialidade heroica, sobretudo do ativismo digital, tende a ser confundida com bravura e acaba servindo ao sistema de segregação das pessoas e dos grupos sociais que precisam estar juntos diante de circunstâncias tão perturbadoras.

Os esforços para o redirecionamento da ação política em favor dos interesses da coletividade não terão êxito se tivermos vergonha do que está acontecendo. É de cabeça erguida que precisamos seguir firmes no enfrentamento desse ultraje. O mundo todo sabe que estamos em situação de assalto.

A novelização dos escândalos deixa muitos desses políticos excitados. Dizem que estes chegam a ter orgasmos sadomasoquistas. Presos em um dia, soltos em outro, ora tomando rasteira de um, ora dando rasteira em outro, descobrindo novas trapaças em um dia e sendo reincidente em outro, o certo é que essa jogatina está indo longe demais.

 

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