Flavio Paiva

Deu vontade de colocar a pedra-de-peixe no aquário. Curiosidade ornamental. Fotografei. Da imagem do fóssil caririense foram surgindo representações zodiacais e divinais pelos vestígios arquetípicos do meu infinito interior, como um sýmbolon religando sensibilidades ubíquas e atemporais: um mesmo peixe dividido em duas bandas passíveis de se complementarem exatamente. Assim, de um lado vivendo e de outro gerindo a vida, vou me reconhecendo entre o que penso e o que faço, entre o que sou e o que compartilho nesse incitante processo não-linear e sem finalização que é a vida. Eis a minha senha. Pode entrar.

 
 
 

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O bom vizinho (RIvista do Mino nº 184, pág. 18, jul2017)

O bom vizinho
Artigo publicado na RIVISTA do MINO nº184 (Editora Riso), p. 18
Edição de julho de 2017 - Fortaleza, Ceará, Brasil

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O avanço nos bairros das grandes cidades e nos municípios interioranos por parte das grandes cadeias nacionais e internacionais do varejo, decorrente da ampliação do mercado nordestino provocada pelas políticas de acesso ao consumo nas duas últimas décadas, sufocou os supermercados locais, os pequenos comércios, as mercearias e os fornecedores que tinham vínculos diretos de vizinhança com a população.

No Ceará, esse processo de ocupação encontrou resistência em uma rede local de supermercados que tem como principal escudo um conceito de marketing nascido na organicidade do próprio negócio: Pinheiro Supermercado, O Bom Vizinho. Com essa filosofia de “parceiro da comunidade”, o negócio não sucumbiu aos ataques externos e segue desafiando a crise instalada no País, amparado pela força dos vínculos.

A saga do Bom Vizinho lembra a da aldeia gaulesa, do personagem Asterix (Uderzo e Goscinny), que por volta do ano 50 a.C. não se deixou invadir pelo Império Romano. Os habitantes daquele pequeno território, protagonistas dessa história em quadrinhos francesa, tinham uma poção mágica que lhes dava poderes e habilidades especiais. No mundo real competitivo e sem druidas, o Supermercado Pinheiro, além de muito trabalho, contou com a poção mágica da sua mensagem comercial.

Enquanto a sociedade passa pelas provações desagregadoras do individualismo, da falta de segurança e de perspectivas, que muitas vezes causam desconexões entre vizinhos, essa empresa cearense sustenta a sua convicção fortalecedora do espírito de ser-de-um-lugar, da convivência, da sensação de proximidade. Assim, promove a cultura do contato e estimula laços comunitários.

Mais do que ofertar produtos e serviços inerentes à sua atividade empresarial, o Bom Vizinho desenvolve ações que se estendem desde a adoção de praças até a organização de passeios ciclísticos, passando por manutenção de ciclovias, aulas de ginástica, cursos de culinária, encontros para adoção de animais, apoio a entidades filantrópicas e programas de exibição de filmes para estudantes das comunidades onde mantém lojas com salas de cinema.

O relacionamento comercial do Supermercado Pinheiro parte de algo muito sofisticado, que é a ideia de ser em comum, de reconhecimento presencial, de ser parte de um campo de sentido, um amplo lugar de identificação, seja um bairro ou uma cidade do interior. Ser vizinho é reconhecer que há um outro ao lado e, principalmente, que há uma vida individual e coletiva a ser cuidada.

A força do senso de vizinhança no slogan O Bom Vizinho é alimentada e retroalimentada pela própria história da organização, nascida em 1979, como Mercearia União, no bairro Pan Americano, em Fortaleza. A própria palavra “união” já trazia o sentido congregador, de coexistência. Quando o fundador Joaquim Honório Alves abriu o comércio da Vila Manoel Sátiro, já ampliou o horizonte de mercearia para mercadinho.

Em 1991, os filhos Honório e Bosco assumem o comando do negócio e passam a trabalhar com o padrão de supermercado, preservando do pai a consciência do valor dos vínculos na relação com o entorno. E com o espírito do Bom Vizinho foram abrindo lojas nos bairros da Maraponga, Mondubim, Messejana e na Av. Washington Soares. A expansão para o interior (Quixadá, Sobral, Itapipoca, Limoeiro do Norte e Aracati) também ocorreu na dinâmica de quem acolhe e é acolhido.

A concorrência de ocasião, os apelos de venda, os modismos e as crises passam e a comunidade fica. E com ela permanece o desejo de laços regulares e do atendimento empático de suas necessidades. A ideia de vizinhança está associada a uma visão que se tem de si mesmo. Só no bairro é possível perguntar cotidianamente pelas lembranças uns dos outros e agir efetivamente sobre o espaço. Pelo que observo, é por acreditar nisso que se faz o êxito do Bom Vizinho.

 

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