Flavio Paiva

Deu vontade de colocar a pedra-de-peixe no aquário. Curiosidade ornamental. Fotografei. Da imagem do fóssil caririense foram surgindo representações zodiacais e divinais pelos vestígios arquetípicos do meu infinito interior, como um sýmbolon religando sensibilidades ubíquas e atemporais: um mesmo peixe dividido em duas bandas passíveis de se complementarem exatamente. Assim, de um lado vivendo e de outro gerindo a vida, vou me reconhecendo entre o que penso e o que faço, entre o que sou e o que compartilho nesse incitante processo não-linear e sem finalização que é a vida. Eis a minha senha. Pode entrar.

 
 
 

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Afeto para dormir (RIvista do Mino nº 187, pág. 18, out2017)

Afeto para dormir
Artigo publicado na RIVISTA do MINO nº187 (Editora Riso), p. 18
Edição de outubro de 2017 - Fortaleza, Ceará, Brasil

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Um dos momentos mais sublimes na relação com a infância é a hora de colocar o bebê para dormir. É intraduzível a sensação que mães, pais, babás, cuidadores e educadores têm ao embalar as crianças que amam durante a passagem da vigília para o sono.

Na minha experiência paterna descobri que a poesia e a música, talvez por serem tão próximas em ritmos e metáforas, quando juntas e integradas ao prazer de ninar, perenizam facilmente esses instantes de emoções e sentimentos movidos a laços encantadores e afetuosos.

Dormir bem reflete no bom humor, no temperamento equilibrado, na disposição física e na sensação de segurança que a criança precisa ter, a fim de desenvolver plenamente os sentidos, o pensamento, os atributos de sociabilidade e a capacidade de sonhar e realizar.

Valorizar o sono tranquilo e reparador dos nossos filhos, como diz a oração do anjo da guarda, é possibilitar que eles desfragmentem o cérebro, limpem a mente e se livrem das sujeiras sensoriais acumuladas na vida cotidiana.

Dormir é fundamental, sobretudo para os bebês. Tirar uma soneca após o almoço ou depois dos lanches da manhã e da tarde, como algo relacionado à rotina da casa, à praxe das creches ou às atividades da educação infantil, é um hábito que merece ser cultivado desde a barriga da mãe.

Os poemas circulares e os acalantos instrumentais que reuni no livro-cd Afeto (Cortez Editora), com ilustrações de Janaína Tokitaka e piano de Eugênio Matos, formam um conjunto de expressões transbordantes, inspiradas em tudo o que senti e aprendi ao lado dos meus filhos, em muitas circunstâncias adormecendo com eles.

Cada adulto deve utilizar essa obra como melhor entender na relação com as crianças que cuida. No entanto, como autor, sinto-me encorajado a sugerir alguns pontos de partida para os usos do Afeto, seja no colo, na rede, no berço, na cama ou passeando no carrinho de bebê.

É importante mostrar ao bebê as ilustrações, como elas giram e como, no entorno delas, giram as palavras. É bom que a criança tenha uma intimidade com o livro, que pegue nele, que o abrace. Livro de criança é mesmo amassado. Escolher uma das dez músicas e colocar para repetir me parece outro passo favorável a um bom ninar com música e poesia.

Poemas circulares possibilitam que sejam lidos e lidos, como um carrossel de palavras. A repetição dos versos que passam por si mesmos transforma as palavras em balanço de aconchego e em imagens mentais. No decorrer dos anos, essas palavras vão se revelando em significados e nelas a criança pode encontrar sempre novidades imaginárias.

Quando a criança adormece e o adulto para de ler, é melhor apagar primeiro as luzes para depois ir baixando o volume da música até desligar. O ritual de dormir transmite uma mensagem de presença e de que há um horário voltado para o relaxante prazer de dormir. Ter uma música tema para cada pessoa que vai ninar facilita ao bebê saber quem está ali ao lado, sem precisar abrir os olhos.

Os poemas associados respectivamente às músicas são melhor sentidos quando lidos pausadamente, com serenidade, voz suave e afetuosa, como se a entonação fosse um veículo trafegando na paisagem dos sons. Se for possível, isso deve ser feito sempre em torno da mesma hora. Assim como o sono da noite, cada soneca, em hora e lugar diferente, pode ter a sua própria música e poema.

Nas circunstâncias em que o repertório for escutado integralmente, cabe a brincadeira de realçar a quem e a quê cada música faz lembrar. A leitura do Afeto pode começar em qualquer idade, embora quando iniciada desde a barriga da mãe ela pode contribuir para uma sequência mais gradual e sossegada na trajetória de relação sensível com o meio na formação do ser pessoa.

 

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