Flavio Paiva

Deu vontade de colocar a pedra-de-peixe no aquário. Curiosidade ornamental. Fotografei. Da imagem do fóssil caririense foram surgindo representações zodiacais e divinais pelos vestígios arquetípicos do meu infinito interior, como um sýmbolon religando sensibilidades ubíquas e atemporais: um mesmo peixe dividido em duas bandas passíveis de se complementarem exatamente. Assim, de um lado vivendo e de outro gerindo a vida, vou me reconhecendo entre o que penso e o que faço, entre o que sou e o que compartilho nesse incitante processo não-linear e sem finalização que é a vida. Eis a minha senha. Pode entrar.

 
 
 

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A alegoria moral de J.E. Bologna (Jornal O POVO, Vida & Arte, 08/11/2017)

A alegoria moral de J.E. Bologna
Artigo publicado no Jornal O POVO, Caderno Vida & Arte, pág.4
Quarta-feira, 08 de novembro de 2017 - Fortaleza, Ceará, Brasil


FAC-SÍMILE

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No extravagante momento político por que passa o Brasil – quando se sedimenta a ética do ódio –, é difícil imaginar se até mesmo a ficção pode superar o realismo grosseiro de uma sociedade refém dos próprios representantes que elegeu; um povo que viu a esperança revolucionária cometer suicídio em pleno voo e que vê no crescimento da revolta um convite à violência como método de fuga rumo ao autoengano.

A perspectiva embaçada dessa conjuntura levou o psicólogo e escritor paulista José Ernesto Bologna, 68, a desafiar a realidade com um drama psicológico e social permeado de suspense e situações de conflitos éticos, no qual faz uma inversão dos fatos, colocando um mau político para vivenciar a angústia da impotência, como refém da sociedade em um cativeiro fora do alcance de influência do parlamentar.

Nas páginas do livro O Deputado ou o Cinismo (Edições de Janeiro, 2017) o personagem Vulto e sua assistente Conzenza realizam um experimento por meio do qual procuram compreender o cenário mental do deputado e seu pacto de proteção recíproca com outras figuras da República, num esforço de levá-lo à consciência da gravidade da tragédia e da comédia que ardilosamente estão cometendo.

Em texto nervoso, poético e filosófico, o autor testa a pedagogia do medo como recurso para o personagem Vulto conseguir pelo menos um arrependimento do Deputado. O parlamentar algemado tem a chance de libertação desde que consiga destrancar uma caixa cuja única chave está dentro dela mesma. Em seu vicioso raciocínio, o Deputado não se dá conta de que o valor do seu resgate é moral e não financeiro, e procura a solução pela via do suborno.

Nesse duelo entre a razão cínica e a razão ética, Conzenza, cuja tarefa é possibilitar a ligação entre o pensamento, a fala e os atos, deduz que o Brasil não terá avanços econômico e moral sem um basta violento à agressão produzida pelo cinismo. As sessões com o Deputado vão sinalizando para a possibilidade de o parlamentar ser um sociopata perfeito, aquele que já nem consegue ter noção da mentira em que se transformou.

A patologia moral desse político o torna mais do que um cínico, algo a um só tempo real e mentiroso, condição que compromete o experimento em seu propósito de evitar que a insensatez empurre o Vulto ao ódio com justificativa racional. Mas, destituído de senso crítico, o Deputado só consegue enxergar naquela situação a ação de um idealista inútil que age isoladamente.

Acontece que o Vulto representa um estado de perturbação justiceira incorporado por um imenso grupo de pessoas reticentes por fora e furiosas por dentro, gente que vem acumulando raiva com a degradação do País provocada pelo comportamento ardiloso e vil do Deputado. Mesmo assim ele apela para um poema no qual é o voo que inventa as asas, na tentativa de que o parlamentar perceba que sua condenação pode ser também uma oportunidade.

A alegoria moral e poética de J.E. Bologna se abre para que o leitor sinta a seu modo o que se passa, conforme o grau de indignação e proximidade com o texto. A desconfortável permanência da espera pelo pior – quando o cinismo destrói a linguagem como agente condutor de confiança – anuncia que é pelo final que tudo pode começar.

 

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