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América Olga Ribeiro |
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O América não se limita às faixas sonoras de um círculo de vinil. Ele faz parte de uma idéia que procura estimular a discussão da nossa realidade e seus paradigmas. Propõe construir ao invés de resgatar. Prefere pensar, e não repensar, consciente de que, para tudo isso, é fundamental a compreensão do processo histórico gerador da identidade das misturas. A pesquisa do Projeto América foi iniciada em 86 pelo jornalista Flávio Paiva que buscou na música latino-americana uma lógica para o sentimento moreno necessário à valorização das pessoas originárias do continente e daquelas que, por força do poder colonial, foram postas ou nasceram no "Novo Mundo". |
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| Repertório | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Continente encontrado Sangue Latino Abre La Ventana Mãe Preta Podres Poderes | Personaje X Soy loco por ti América In Memoriam Soy Pueblo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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A cantora cearense Olga Ribeiro levou seu trabalho para ser mostrado durante o Fórum Global das Organizações Não Governamentais (ONGs) durante a conferência Eco-92, no Rio de Janeiro. A iniciativa foi do Instituto Brasileiro de Análise Sócio-Econômica - IBASE, através do Centro Radiofônico de Informação e Assessoria - CRIA, que patrocinou uma tiragem de mil fitas cassete de seu trabalho "América" para ser distribuido/vendido exclusivamente durante a convenção. O IBASE está com um stand no Fórum Global das ONGs. Em LP, "América" tem previsão para ser lançado em julho próximo e está sendo prensado com apoio da Caixa Econômica Federal. Olga Ribeiro gravou este trabalho de dezembro de 91 a maio último em estúdios brasilienses e cearenses tendo como tema-base o questionamento em torno dos 500 anos de descoberta e colonização européia das Américas. O disco foi produzido pela própria cantora cearense e o jornalista Flávio Paiva. O show de lançamento deve acontecer logo na sequência. Olga gravou ao todo nove composições onde a América e o espírito latino traçam um perfil conceitual do continente e de seus povos. Cada lado (da fita ou do disco) foi dividido em rota 1 e rota 2. "O Continente Encontrado" (Tarcísio José de Lima/ Flávio Paiva) dá início a rota 1 dando mais ênfase aos sons acústicos de flautas, violões e percussões, onde até mesmo o sintetizador de Duda Di Cavalcanti foi programado com timbres de órgão de tubo, cordas e zampoã. "Sangue Latino" (João Ricardo/ Paulinho Mendonça), antigo sucesso do trio Secos & Molhados, é a primeira das seis regravações do trabalho. Aqui, o tecladista e marido da cantora arquitetou um arranjo baseado na tecnologia dos sintetizadores, sequenciadores e bateria eletrônica com um resultado apenas interessante. "Abre la Ventana" é uma composição do chileno Victor Jara, assassinado pela ditadura de Pinochet. Mostra um arranjo complexo e bem definido, com destaque para a percussão do maranhense Papete entre o latino e o baião. A primeira das duas canções de autores não brasileiros. A rota 1 segue com "Mãe Preta" (Piratini/ Caco Velho), uma composição descoberta a partir da pesquisa 'O Negro na Música Brasileira' do musicólogo e colecionador cearense Cristiano Câmara. Representa o aldo da cultura negra do disco, onde arranjo mostra instrumentos de origem branca - com destaque para o oboé. A primeira rota se encerra com a regravação de "Podres Poderes" - sucesso de Caetano Veloso em 84 - novamente marcado por sintetizadores e uma flauta. Para dar início a rota 2, Olga escalou o cubano Juan Carlos Pérez para dueto em sua "Personaje X" - um 'son', estilo típico das terras de Fidel. Pérez viria gravar sua parte mas o boicote em torno de Cuba o impediu e ele acabou mandando, pelo Vôo da Solidariedade, uma fita de estúdio com sua voz e violão. A mixagem final deu resultado bem satisfatórios. "Soy Loco por ti América" (Gilberto Gil/ Capinam) perdeu seu jeitão dançante para dar mais foco a mensagem no arranjo livre de violões (Marcos Maia e Tarcísio José de Lima). "In Memoriam" (Eugênio Matos) cantada pelo casal Eugênio e Olga é uma melodia sofisticada, com apuro instrumental idem. É uma das canções-chave do trabalho. A rota 2 e, portanto, o disco/fita encerra com "Soy Pueblo", um poema de Pablo Neruda musicado pelo cearense Calé Alencar que recebeu arranjo de Liduíno Pitombeira. Todo o trabalho remete diretamente a música latina universitária de protesto que teve seu auge durante as ditaduras da América Central e do Sul nos anos 70. O molho negro, dançante, 'caliente', propositalmente deixado de lado para enfatizar a mensagem, faz falta. Festa não significa apenas alienação. Festa também pode ser sinônimo de questionamento, de protesto. 'Você nunca dançou com ódio de verdade!' (L.A.F.)
Diário do Nordeste, Fortaleza, 05/04/92 O primeiro show do lançamento acontecerá em Brasília - cidade que adotou há que adotou há quatro anos, ao lado do marido e músico Eugênio Matos, na sede da Caixa Econômica Federal, instituição que aprovou o projeto do disco e entrou com apoio cultural na produção. Seus planos incluem também um show em São Paulo, no Memorial da América Latina. Posteriormente, ela deve fazer o lançamento em Fortaleza, ainda sem data marcada. A pretensão é lançá-lo em outros países. O caminho escohido por Olguinha para gravar o disco reflete sua experiência em participações de trabalhos de outros cantores e compositores. Ela poderia muito bem colher composições de diversos autores, inéditas ou não, músicas que defendeu em festivais e 'montar' seu primeiro disco. "Senti necessidade de fazer uma coisa consistente, que eu acreditasse nela... um trabalho forte", revela a cantora. "Um disco é até fácil de fazer. É como um filho. Mas... e depois? Divulgar, levá-lo às pessoas, impor meu nome através dele?", reflete conscientemente. Olga pensava em fazer um disco que fosse fruto de um trabalho de pesquisa, muito estudo e bem acabado. A questão mercadológica passou ao largo. A escolha do tema foi providencial, mas poderia ter sido oportunista se tivesse encaminhado para o simples oba-oba festeiro. Olga preferiu o lado oposto. Ela buscou uma síntese de concepções do pensamento latino-americano consciente dos cinco séculos de exploração, ainda sem prazo para se extinguir. Foi a Cuba e pinçou uma música de Juan Carlos Perez ("Personaje X"), que faz participação especial. Também colheu das feiras livres de Juazeiro do Norte, sul do Ceará, região do Cariri, "O Viajante", de domínio público e que integra o repertório do rabequeiro Cego Oliveira - figura folclórica da região. "No disco, eu tento contemporaneizar esses elementos estéticos, sem folclorizar ou propor resgates. Nada de discursos maniqueístas. Busco revelar um sentimento universal na leitura lítero-musical", confessa. O disco abre com "Pase el Agua" (domínio público), tema dos trovadores ibéricos do período pré-navegações, que marca o início a ponte musical de cinco milênios, contando com a participação especial do grupo de música antiga Syntagma. Completada a ponte o clássico hino "Soy Loco por ti América" (Gil/ Capinam), que finaliza "América". Olguinha iniciou sua carreira cantando em festivais no final nos 70 e início dos 80. Suas primeiras experiências datam do período que era estudante do colégio Julia Jorge, integrante da rede CNEC, e participava dos Festivais Cenecistas da Canção. "Sempre levava primeiro ou segundo lugar e/ou melhor intérprete", ironiza a cantora. Foi através desses e outros festivais (Ibeu etc) que entrou em contato com músicos de sua geração, dos quais destaca a turma do grupo Bodega. Foi integrante do grupo Latim em Pó nos seus primórdios, bem como da performática Banda Pré-Histórica das Moças Donzelas - composta de cantoras e atrizes. Nessa época, já era reconhecida como uma das melhores novas vozes femininas cearenses. O que a levou a novos convites para disputar festivais defendendo canções como "Jobiniana" (Mário Tadeu / Fernando Neri), que levou ao segundo lugar no Festival Universitário, em 86. Sua próxima experiência foi como integrante do Quarteton, ao lado de Eugênio Leandro, Tarcísio José de Lima e Nara Vasconcelos. Com o Quarteton, Olga realizou turnê pelos Estados Unidos em 87. De volta a Fortaleza, fez algumas apresentações individuais, dos quais destaca o show do Dia Internacional da Mulher, no Teatro José de Alencar, em março de 88, ao lado de Zezé Motta e uma grande lista de cantoras cearenses. Passou também a trabalhar com uma banda de baile, a Banda Nova, ao lado de nomes como Tarcísio Sardinha, Aroldo Araújo, Zé do Norte e Luizinho Duarte. "Meu trabalho atual é somatório de tudo que me aconteceu antes", diz. Deixou Fortaleza logo após o casamento com o músico Eugênio Matos (ex-integrante do grupo Officina). Ele foi a Brasília para expandir seus estudos em música. "Brasília fundamentou em mim essa história de 'viver' música. A cidade fornece dia-a-dia elementos fortes para a gente 'pensar' música", confessa. O disco "América" foi gravado entre estúdios na Capital Federal e Fortaleza. Eugênio assina os arranjos das quatro faixas produzidas em Brasília - "Sangue Latino" dos Secos & Molhados, "Podres Poderes" de Caetano Veloso, "In Memorian" do próprio Eugênio, e a citada "O Viajante". Em estúdios cearenses, Olguinha contou com arranjos e direção musical de Liduíno Pitombeira e Tarcísio José de Lima - seu antigo companheiro de Quarteton - nas oito músicas restantes. Ontem se encerraram as fases de gravação das últimas faixas, quando a cantora recebeu o percussionista maranhense Papete para fazer sua parte nas últimas faixas. Impossibilitado de vir a Fortaleza como previsto, o cubano Juan Carlos Perez enviou uma fita com sua participação especial. De início, "América" deve sair somente em vinil. Para um futuro próximo, a cantora pretende editar também em cassete e 'compact-disc', já que tudo foi gravado em sistema DAT, pensando na versão digital, como ela mesmo salientou. Dentro do esquema divulgação do trabalho, Olga conta com a contribuição do jornal alternativo "Viva América" - editado pelo jornalista Flávio Paiva (Caixa Postal 12.091 - CEP 60.021). "Temos contatos com diversos institutos e entidades culturais não-governamentais, com o objetivo de lançar o disco em outros países da América", revela.
O Povo, Fortaleza, quinta-feira, 30/01/92 Na data de resgate, faz questão de frisar Olguinha que, apesar dos 25 anos, já é uma veterana do circuito de shows e festivais. A seleção musical reúne autores do porte de Caetano Veloso, Victor Jara, Gilberto Gil, Capinan, o cubano Juan Carlos Pérez, que participa da faixa "Personaje X" - cuja letra questiona o comportamento daqueles que tanto "discutem" mas que pouco fazem de concreto pelo fortalecimento da dignidade cultural nos países latino-americanos. A sublinhar toda essa visão crítica, "América" destaca a presença de autores cearenses como Abidoral Jamacaru, Tarcísio José de Lima e Flávio Paiva. Foi um disco maturado e pensado, afirma a intérprete que mora em Brasília com o marido Eugênio Matos, onde parte das gravações foram feitas. A outra no estúdio Pró-Áudio, aqui em Fortaleza. Olga Ribeiro, Olguinha, é uma das vozes mais conhecidas do movimento artístico cearense. Ela começou a atuar ainda ao tempo do colegial. Com vocação para teatro, ela passou a integrar grupos artísticos, até formar ao lado de Tarcísio José de Lima, Eugênio Leandro e Nara Vasconcelos, o Quart'eton. Com ele foi indicada para representar o Nordeste brasileiro em excursão por vários Estados norte-americanos. Ao retornar resolveu dar um tempo em tudo e ir para Brasília, para estudar música, Psicologia e Filosofia. (NL) |
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