500 anos depois
Por Ciro Gomes
Navegam até nossos dias os sons das quilhas colombianas a romper as profundezas abissais dos mares rumo ao desconhecido, numa aventura marcada por toda sorte de perigos e peripécias, até o grito de "terra à vista" naquele 12 de outubro de 1492.
Cinco séculos depois, o mundo ainda polemiza acerca do grande feito do navegador genovês, suas ambições, seus méritos, suas desditas.
Haveria nele mais que intuição e sorte ao drapejar a bujarrona da "Santa Maria" ao sopro incerto dos ventos mediterrâneos e seguir, no negrume impenetrável da noite oceânica, a orientação do cintilar intimista das estrelas?
A discussão chega ao destempo. O que conta é o resultado daquela audaciosa aventura marinha que divisou na madrugada antilhana o primeiro horizonte do Novo Mundo, San Salvador, nas Bahamas, a que Colombo chamou de Guanaani.
Sucederam-se outros viajores, entre eles Américo Vespúcio, de cujo nome seria indevidamente batizada terra que Colombo revelara.
Chegaram espanhóis e portugueses, saxões e franceses, também os batavos e tantas outras gentes, com espírito aventuroso de pioneiros, a valentia ambiciosa de conquistadores, alguns apenas para saquear, outros para ficar em definitivo e construir aqui seu novo lar, o mundo americano pelo qual optaram.
Um dia, nos porões dos navios, vieram os negros para os canaviais do Brasil e de Cuba, os algodoais da Louisiana, para as minas do Peru e do México, escravizados pelos que precisavam de mais braços para entrar na posse das múltiplas riquezas desse imenso território onde floreciam civilizações nativas de grande esplendor.
Astecas, Maias e Incas e povos mais primitivos como se os Tupis-Guaranis do espaço geográfico brasileiro, foram sendo esmagados e absorvidos pelo invasor mais forte. Dessa misturação de raças e culturas, forjou-se a América, falando espanhol, português, inglês, francês, em meio a tantos dialetos a sinalizar as origens de cada uma das muitas nações que compunham todas as áreas pré-colombianas.
Esta América que está na poesia libertária de Castro Alves, de Neruda, de Walt Whitman, ou de Guillén, na literatura de Gabriel Garcia Marquez, Jorge Amado ou John Steinbeck, contando a saga dos sem terra em sua luta por um pedaço de chão para garantir-lhes o direito de viver, esta América de José de Marti, do Zumbi dos Palmares, de Bolivar e do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, de todos quantos lutaram e morreram pela liberdade, esta América presente na bem-aventurança do samba, do merengue, ou na doce ternura do "blue", nas nostálgicas notas do tango, esta América de mil ritmos, está sintetizada nas duas faces deste disco de Olga Ribeiro, cantando os sentimentos de todos os povos que habitam o Continente de Colombo.
Somos a fusão de muitos sangues e a soma de culturas diversificadas, o transbordamento dos anseios e sonhos de povos jovens a forcejar por um espaço e mais digno no contexto da sociedade universal contemporânea. Somos a América.
Aqueles sons das quilhas das náus colombianas mesclaram-se e se reproduziram séculos afora, em forma de música e poesia, e aportam agora, quinhentos anos depois, na sentida interpretação de Olga Ribeiro. |