Infância  
   
 
 
 
 
 
 
 
    Livro Benedito Bacurau
O pássaro que não nasceu de um ovo
Cortez Editora, 2005
 

 

 


RUBEM ALVES

"Diferente das outras aves, o Benedito Bacurau não nasceu de um ovo. Ele nasceu de uma cantiga de ninar que a mãe do Flávio Paiva cantava para ele"


BATISTA DE LIMA
"É importante observar sua criatividade, quando imagens saltam da sua escritura para o nosso cismar. Benedito Bacurau traz criações inusitadas que vão perpassando o texto e se aninhando em cenários mágicos"


 
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  Sobre o Livro    
 

BENEDITO BACURAU
O pássaro que não nasceu de um ovo

Com prefácio de Rubem Alves, este áudio-livro e uma caixa de surpresas: acompanha CD de ilustrações sonoras e histórias narradas por Antônio Nóbrega. São dez histórias e uma peça de teatro sobre Benedito Bacurau, um pássaro que não nasceu de um ovo, mas de uma cantiga de ninar. As aquarelas são como imagens de outro tempo que não se apagam de nossa memória, crônicas inesquecíveis que devemos compartilhar com as crianças. Uma proposta inteligente de interação entre as linguagens literária e musical.

Ilustrações: Estrigas
56 págs. 21 x 28 cm
ISBN 85-249-1182-4

Assuntos: vida na cidade – descobertas – aves – relação pais e filhos
Temas Transversais: Pluralidade cultural – Meio ambiente
Interdisciplinaridade: Língua Portuguesa – Artes – Geografia

Sugestões de atividades
- Procurar nas aquarelas os elementos da narrativa.
- Ler o livro acompanhando a narração de Antônio Nóbrega.
- Encenar a peça Semeadores de árvore de Natal .

Lançamento do Livro Benedito Bacurau
Data: 17/12/2005
Horário: 17 horas
Local: CENTRO CULTURAL DO BANCO DO NORDESTE
End.: Rua Floriano Peixoto, 941 - Fortaleza - CE

 
  Imagens e Vídeos  
 

Flávio Paiva fala sobre música e literatura, com a participação de Bia Bedran
Tendo como convidada a cantora, compositora e educadora musical Bia Bedran, o jornalista e escritor cearense Flávio Paiva falou no Programa Literato, do BNB, sobre a relação existente entre música e literatura , a partir do livro /cd infantil "Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo", obra de Flávio Paiva com ilustrações do artista plástico Estrigas, narração e ilustrações musicais feitas pelo multiartista pernambucano Antônio Nóbrega. Prefácio do cronista e psicanalista Rubem Alves.

O encontro faz parte do programa Literato, realizado pelo Centro Cultural Banco do Nordeste, no qual autores nordestinos, tais como Ariano Suassuna, Ana Miranda, Ednardo, Antonio Nóbrega e Bráulio Tavares, apresentam suas obras e debatem suas idéias com os leitores.

 

"Flávio Paiva é jornalista, compositor e escritor, nascido em Independência (CE). Com seu livro/CD "Flor de Maravilha", inaugurou um processo inusitado de diálogo entre a literatura e a música, como recurso de intertextualidade, por meio do qual instiga o leitor à criação. O seu livro/cd BENEDITO BACURAU - O PÁSSARO QUE NÃO NASCEU DE UM OVO é uma metáfora que simboliza o espírito da infância em seu mais pleno exercício da imaginação e é ilustrado por aquarelas feitas pelo artista plástico Estrigas. O CD é narrado pelo multiartista pernambucano Antônio Nóbrega, que executa ilustrações musicais do livro através de cançonetas e vinhetas extraídas de composições de Flávio Paiva e parceiros. A obra, que tem prefácio de Rubem Alves, enseja um passeio encantador por festas populares, histórias de centros urbanos, céus estrelados, brincadeiras escolares, dramatizações e valores o da amizade e do respeito ao meio ambiente. Debatedora: Bia Bedran - compositora, cantora, atriz e educadora musical. Mediador: Roberto Maciel - jornalista e produtor cultural. Programa gravado no cineteatro do Centro Cultural Banco do Nordeste em Fortaleza-CE, no dia 17/12/2005".

 
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Matérias
   
> O pássaro que não veio do ovo (por Batista de Lima) Diário do Nordeste, Coluna, 13/3/2007 > Intertextualidade
O Povo, People, 24/12/2005
> Que música toca o sonho? (por Ângela Linhares)
Itaú Voluntário, Clipping 2006, 28/9/2006
> Para ler com as crianças
O Povo, Vida & Arte Recomenda, 23/12/2005
> Benedito Bacurau
Jornal do Brasil, Idéias,
1/4/2006
> Fora do ovo
Diário do Nordeste, Coluna Comunicado, 17/12/2005
> Pequena Estante
Jornal de Piracicaba, Jornalzinho,
4/2/2006
> Lançamento
O Povo, Emais, 17/12/2005
> Pássaro bom
Revista Crescer , Drops
> Vôos da imaginação (por Dellano Rios)
Diário do Nordeste, Caderno 3, 17/12/2005
> Histórias do Bacurau (por Juliana Girão)
Livraria Cortez, Notícias
> Literatura e música infantil em Fortaleza
Arte-Cidadania, 16/12/2005
> Ninho de Imaginação (por Juliana Girão)
O Povo, Clubinho, 8 a 14/1/2006
> Benedito Bacurau
Moeda Cultural, Coluna Comunicado, 14/12/2005


Diário do Nordeste – Coluna
Fortaleza, CE, terça-feira, 13/3/2007
Batista de Lima

O pássaro que não veio do ovo
Batista de Lima

A última Bienal do Livro, em Fortaleza (2006), mostrou que o Centro de Convenções está ficando insuficiente para o evento. Que talvez a idéia seja, nas próximas edições, localizá-la em outro logradouro, ou, ficando onde está, ampliá-la com a utilização de alguns espaços da Universidade de Fortaleza, que lhe fica ao lado. Além dessa constatação, o que tirou o evento da mesmice que marca essas feiras foi a ênfase na procura do cordel e da literatura infantil. Também chamaram a atenção as palestras em torno de autores e obras selecionados para o Vestibular.

Passada a feira, feitas as avaliações, o escritor Flávio Paiva apresentou, neste jornal, (02/10/2006), uma lista de 12 livros infantis propícios para presente no Dia da Criança. A relação apresentava livros nacionais e estrangeiros mas deixava de mencionar, talvez por modéstia, o seu próprio livro Benedito Bacurau, o pássaro que não nasceu de um ovo. São 55 páginas de histórias envolvendo o Benedito, tão bem urdidas que servem para crianças e adultos. Ilustrado com aquarelas de Estrigas e editado luxuosamente pela Cortez Editora, o volume ainda traz um CD com narração e ilustração de Antônio Nóbrega.

A apresentação é de Rubem Alves, escritor de muitos livros na área da reflexão pedagógica. Nessa apresentação, o famoso pedagogo faz uma distinção muito bem feita entre o apolíneo e o dionisíaco da linguagem: ´Das palavras que marcham, nascem a ciência e a filosofia. Das palavras que dançam, nasce a poesia´. Também outro achado de Rubem Alves, na apresentação, ocorre quando ele fala sobre a metáfora: ´As metáforas nascem da fraternidade que existe entre todas as coisas´. E termina por concluir numa tirada bem roseana de que: ´As coisas que não existem são mais poderosas´. Essas reflexões põem o leitor de oitiva diante do manancial literário que está por vir.

A primeira narrativa é ´A corujinha do oco do pau´, onde o autor já revela: ´Minha mãe tinha o hábito de me colocar para dormir cantarolando uns versos que falavam de um prodigioso Benedito Bacurau´. Isso já nos leva à conclusão de que o narrador um dia foi privilegiado ouvinte de histórias infantis para hoje se tornar exímio na escritura. Essa primeira história termina com uma conclusão bem conceitual: ´antes de entender é preciso imaginar´. Na seguinte narrativa, o autor consegue, ao contar história para o filho Lucas, que chama o momento de ´brincar de brincadeira´, saltar do real para o maravilhoso, na narrativa, quando Benedito Bacurau aparece na sala e começa a fazer malabarismos.

Flávio Paiva além de contar histórias infantis consegue enxertá-las de passagens e logradouros históricos de Fortaleza. Em ´O coreto encantado´, por exemplo, ele nos remete à Praça do Ferreira e apresenta a coluna da hora, o velho cacimbão recuperado na última mudança estrutural da praça, que tornou-se um espaço pós-moderno. Fala no Cajueiro Botador que ali existiu em tempos idos, fala nos bondes, no Abrigo Central e na azáfama que ali se desenvolvia, intercalada por modinhas, poemas, discursos, comícios, passeatas, vaias, anedotas e o berro do bode Ioiô. Mas o importante é a reconstrução, na escritura, do belo coreto que ali existiu e que fora substituído pela Coluna da Hora.

Essa reconstrução não se limita a monumentos históricos da nossa cultura, ela vai também a uma recontagem de lendas, canções e folguedos que empolgaram crianças dantanho. É o caso de: ´cabra cega, berlinda, corrida do ovo na colher, imitações de animais, cabo de guerra, carimba, passa o anel, pula-saci, telefone sem fio, tampa de garrafa, palitinho, paus-de-sebo, paus-de-fita, par-ou-ímpar, zerinho-ou-um, bolhas de sabão, a palavra é..., enfim, jogos, trava-línguas, parlendas...´. Essa forma de recontar, quando em contos, chama-se raconto. E é aí onde entra a mestria de Flávio Paiva nessa garimpagem e posterior burilamento das jóias de nossa literatura oral, para a garotada.

Mas não fica o autor nessa recontagem. É importante observar sua criatividade, quando imagens saltam da sua escritura para o nosso cismar. Em ´O lado claro da Terra´, ele observa a terra olhando da lua para cá. É aí que ele e Lucas descobrem o lado lua da terra, a claridade lírica do nosso planeta, numa iluminação ´bacuralesca´. Diante dessa epifania, tudo que Lucas diz, sai para virar música.

Essas criações inusitadas vão perpassando o texto e se aninhando em cenários mágicos como é o caso de ´O segredo da casa gigante´. Ali é ´um lugar onde não somos visita, um lugar para voltar, um lugar onde as semelhanças nos aproximam sem precisarmos viajar´. Nesse ambiente do devaneio ele conclui que ´um país é feito dos desejos de felicidade que associamos ao lugar que nos acolhe no mundo´.

Esse tipo de reflexão faz com que o livro infantil seja apropriado também para os adultos. Esse é o grande valor desse tipo de literatura: é que ela é feita para todas as idades. Os adultos se vêem diante daquele mundo que um dia existiu lá fora porque aqui dentro do peito ele continua latente. É por isso que a certa altura do livro o autor revela, diante das brincadeiras que desempenha junto com o filho: ´eu tinha um bacurau solto dentro de mim´.

Esse livro de Flávio Paiva está bonito na sua apresentação entremeada pelas ilustrações de Estrigas e no final um CD com a narração, os contos e os instrumentos de Antônio Nóbrega que, ao lado de um grupo de artistas, criou outra dimensão para a obra, além da escrita. A Cortez Editora e o apoio do Banco do Nordeste possibilitaram a publicação luxuosa do livro e do CD que são um convite para a leitura, principalmente para crianças, esses pequeninos em quem temos que provocar fome de ler. O resto virá por acréscimo.

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Itaú Voluntário
Clipping 2006

Que música toca o sonho?
28/09/2006
Fonte: O Povo

O que acontece com a literatura quando um autor escreve com forte influência da visão e é lido auditivamente por quem tem deficiência visual? O Vida & Arte convidou a cantora e educadora Ângela Linhares

Ângela Linhares (*)
Especial para O POVO

Talvez que o sentimento fosse a cor do mundo. Essa cor do mundo, como o ninho das corujinhas da estrada, muda vez em quando. No meu coração, noite passada, um ninho novo aconteceu. Eu via um autor de histórias infantis conversar, em uma escola de crianças, com três deficientes visuais (Soares, Antônio e Valmir), sobre o modo como fora ouvido por eles - sua história tinha sido gravada em CD por Antônio Nóbrega, o texto tinha sido ilustrado com aquarelas de Estrigas. - Como criam as imagens da história, pessoas como vocês, que não enxergam com esse sentido da visão? - perguntava o autor Flávio Paiva aos deficientes visuais. E Flávio Paiva continuou contando: o Bacurau começou como acalanto - essa reza de mãe que as culturas inventaram. Essa canção de fazer dormir que minha mãe debulhava nos longes sertões da infância era mais ou menos assim: 'Benedito Bacurau / Tá no oco do pau'.

Lembrando dessa mãe que assoma à porta do tempo e invade as manhãs, ainda hoje, Flávio Paiva escreveu uma longa história sobre essa corujinha, o Bacurau. O interessante é que essa corujinha, o Benedito Bacurau, fazia seu ninho por todo canto do mundo e o detalhe era que só dava para ver o bichinho - nas locas, no tronco das árvores mais estranhas, no chão dos quintais da criançada -, quando se começava a sonhar. É esse sonho comprido, cheio de brincadeiras sem pé nem cabeça, que se enrosca nas ruas da meninada, nos escaravelhos, nos segredos das casas gigantes, cheias de mestiços, negros, charangas e arco-íris, que o coração menino do autor Flávio Paiva vai contar no seu livro 'Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo'.

- O Bacurau, interrompeu Antônio, é uma história para a criança que temos em nós, uma criança sem tempo. Poderia existir um Benedito Bacurau dentro de cada um de nós. Para mim, a gente carrega sempre um bichinho desses dentro da gente - essa coisa que acorda no nosso sonho, em aventuras radicais, acho que é o Bacurau. O que eu achei engraçado, continuou Antônio, era que a criança não tinha certeza nunca de como era o Bacurau. O Bacurau ficava imaginando o mundo dele e a gente imaginando o Bacurau.

- Nessa história, outros tempos passam por nós - disse Valmir. Cada vez que o pássaro Bacurau ia fazer ninho na Coluna da Hora, na praça do Ferreira, outro lugar e outro tempo chegava, como se tivesse dobrado na página do hoje.

Imaginei-me em outras existências, entre lareiras e histórias frias. Depois, na escravidão brasileira, cantando em senzalas a alma nativa. Nesta encarnação, a infância ante o mar. Quanto mar, de águas tão diversas tisnavam o insólito diálogo entre nós; quantas chuvas molhavam palavras que não se ouviam mais!

- Quando eu ouvia a história, eu sentia esses lugares e tempos que chegavam... - disse Antônio. A casa grande do Bacurau é a casa interior da gente e é também o país que a gente imagina. Acho que a gente quer cuidar dessa casa que é o nosso país - é esse sentimento que eu sinto e que as palavras trazem.

O autor Flávio Paiva esgueirou-se para outro tom de conversa, como quem sai catando poesia no chão da noite. Soares escutava tudo, absorto. E Antônio continuou:

- Quando o Bacurau falava em 'brincar de brincadeira'... aquilo me tocou. Eu achei que era uma coisa inocente como os animais brincando. Acho mesmo que em cada pessoa tem um Bacurau, um lado de brincar assim sem maldade.

- Eu quis saber como vocês combinam os sentidos... Como vocês liam auditivamente o que escrevo... E quando cheguei, vi que vocês constroem sentimentos - completou Flávio o que vinha costurando com o olhar.

As asas brincalhonas do Bacurau que Flávio Paiva trouxera farfalhavam: para entender as coisas é preciso brincar de imaginar. A poesia dos contadores de história que Flávio trouxera, levava para o exercício de autoria de quem o lia. Como uma água boa de pote, que pede mais, novas histórias foram entrando no tempo da conversa e foi então que Antônio, como bom aprendiz de imaginador, começou a contar-se: tinha uma história de dois cegos que se encontram no centro da cidade; um percebera o outro levando uma topada; o outro, um esbarrão. - E sabe o que eles dizem, os cegos, quando se topam e esbarram? 'Seu cego, não olha por onde anda, não?' - disse Antônio, rindo a valer. E continuou: 'mas um dia, um leva o outro pra mostrar o que se pode aprender assim, a partir de esbarrões e topadas.'

Andréa, a jornalista e o amor de Flávio, arrematou: - Às vezes, a gente nem imagina como algumas histórias conseguem aquecer nosso sentimento do mundo. Estava tarde; as mãos de Soares, Antônio e Valmir tatearam
caminhos entre outras mãos; a poesia agora era uma estranha música de se tocar leve. Começamos a pensar que claves Flávio Paiva trazia a essa luz que, de repente, esvoeja. E, como a corujinha dos sertões, o Bacurau, se esconde para que o desejo da gente possa viver fazendo do sonho carne dos dias.

*ÂNGELA BESSA LINHARES é dramaturga, cantora e educadora

https://www.ivoluntarios.org.br/site/pagina.php?idclipping=10638&idmenu=86

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro - Idéias - 01/04/2006

Benedito Bacurau
Benedito Bacurau,o pássaro que não nasceu de um ovo, adorava caçar. E nunca se cansava de procurar namorada. O pássaro, que acompanhou a infância de Flávio Paiva, saiu do oco da árvore para se aninhar no coração. Virou metáfora. Com direito a versão em CD narrado por Antônio Nóbrega e "ilustrações musicais".

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Jornal de Piracicaba - Jornalzinho - 04/02/2006

Pequena Estante
Benedito Bacurau - A obra, que é ilustrada pelo artista plástico Estrigas, conta a história de um pássaro que não nasceu do ovo, mas de uma canção de ninar que a dona Maria dos Remédios, mãe do autor, costumava contar.

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Revista Crescer - Drops

Pássaro bom
Benedito Bacurau (Cortez Editora, R$ 36), do cearense Flávio Paiva, é um pássaro que não nasceu de um ovo, mas da cantiga de ninar. Em um CD, o multiartista Antônio Nóbrega conta as histórias.

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Livraria Cortez - Notícias

Histórias do Bacurau
O escritor e jornalista cearense Flávio Paiva lança no Centro Cultural Banco do Nordeste o livro Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo, que traz prefácio do cronista e psicanalista Rubem Alves, ilustrações do artista plástico Estrigas e CD com narração do multiartista pernambucano Antônio Nóbrega
Juliana Girão
Especial para O POVO

Em muitas casas, a sala de visita é território dos adultos. Tem um vaso bonito que não pode correr o risco de ser quebrado, o sofá em que o menino não pode colocar o pé. Na casa do jornalista e escritor Flávio Paiva não tem nada disso, não. A começar pela porta de entrada, onde tem afixado um jornalzinho chamado Aventuras, produzido pelos filhos, Lucas, de seis anos, e Artur, de quatro, sobre as viagens em família. A sala de estar tem inúmeros brinquedos, carrinhos, quadros super coloridos do artista Dim, espaço para brincadeiras e mais brincadeiras. E o quarto dos meninos? É pura arte. Tem boneco do Dim, bordado da Nice Firmeza - falta espaço até para as aquarelas do Estrigas que estão para chegar. Na porta, mais arte, só que dos meninos e "pintando o sete" mesmo. O território é definitivamente da duplinha. E não pense que é uma bagunça não, é aconchegante, dá vontade de descobrir, de brincar junto, de despertar o nosso lado bacurau. Bacurau?! Mas o que diabo é isso?!

A história é essa. Assim que o Lucas e o Artur chegaram, o pai coruja começou a cafuçar suas lembranças mais remotas, do tempo da meninice no sertão de Innhamuns. Queria muito contar para os rebentos histórias da sua infância. E, de tanto remexer no baú das memórias, encontrou muitas coisas de afeto junto com uma figura bastante curiosa: o Benedito Bacurau. A prodigiosa corujinha era parte de uma cantiga que a mãe do Flávio cantava para ele ninar. "Benedito Bacurau tá no oco do pau", dizia a canção. Com as invenções do escritor e sua maneira bem peculiar de ver o mundo, o Benedito Bacurau, de ave, passou a ser personagem principal de um livro, só que em forma de metáfora. "Essa metáfora se expandiu para falar do cotidiano, da dimensão e da grandeza do cotidiano, da beleza das pequenas coisas, para redesenhar significados e para recuperar um pouco os cuidados com o existir", diz o escritor. Nas onze histórias de Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo - que Flávio lança hoje no Literato, programa de debates do Banco do Nordeste, com a convidada especial Bia Bedran - o bacurau é o espírito brincalhão da infância, que adora festa no Interior, adivinhações, contação de histórias, malabarismos e, acima de tudo, muitas e muitas traquinagens. Aparece sorrateiramente nas mais diversas situações e traz alegria, poesia, vida. Todo mundo, independente da idade, precisa dessa porção bacurau dentro de si. E o livro do Flávio vem justamente arrancar um sorriso e ensinar ou, pelo menos, indicar caminhos para os senhores e senhoras encontrarem o tal bacuraru. É verdade que tem a conta de luz para pagar, a carreira para alavancar, a prospecção de clientes até o final do mês, o trânsito, a falta de tempo. Mas essa "operacionalização da vida", como classifica Flávio, não pode fazer o bacurau se afastar até um dia desaparecer. "Hoje as pessoas têm uma fixação em gerenciar a vida, que acabam esquecendo do viver".

E o 'viver' inclui todas coisas simples e prazeirosas, como colocar seu filho para dormir ou escutar uma boa música. "Meu texto é um suporte para o bacurau andar, é a correnteza de um riacho. Se o bacurau está aí dentro, você vai acompanhá-lo", explica. Essa falt de bacurau é uma fábula do livro - talvez a única, porque todas as histórias são da realidade cotidiana -, chamada "Um certo Senhor Escaravelho". Ela fala sobre um "rola-bosta" misterioso (inseto que come fezes de animais herbívoros) na escola dos Meninos Tristes, onde o bacurau não conseguia chegar. As crianças foram transformadas em esterco e ficariam daquele jeito até que um pai ou mãe se habilitasse a quebrar o encanto com um pouco de atenção e afeto. "Muitas pessoas têm a intenção (de enxergar o bacurau), mas não têm a coragem", diz Flávio.

Além das histórias do bacurau, o livro - um primor - traz prefácio do cronista e psicanalista Rubem Alves, ilustrações do artista plástico Estrigas e um CD em anexo com narração do texto e cançonetas interpretadas pelo multiartista pernambucano Antônio Nóbrega. Segundo o escritor, a idéia de unir o CD ao trabalho foi a possibilidade de estimular a leitura. "A criança, ao ouvir como é bonito o Antônio Nóbrega ler, vai querer ler também", avalia. Uma outra estratégia pensada pelo autor foi a possibilidade dos pais cansados poderem deitar com os filhos, apagar as luzes e ouvir o CD. E isso ele diz com conhecimento de causa. "Eu mesmo já dormi em cima de livro lendo para os meus filhos", conta. "São coisas vividas por qualquer pai", explica. Além disso, o CD também pode ser uma ferramenta para quem tem algum tipo de deficiência visual. Quanto às ilustrações de Estrigas, Flávio acredita que ele traduziu suas histórias "de uma maneira brilhante, de forma abstrata". "Estrigas é um pintor abstrato lírico, não desenha as formas com definição e tem tudo a ver com o que eu quis fazer", diz. Flávio conta que, para fazer as aquarelas, Estrigas lia uma história a cada noite, antes de dormir, e, no dia seguinte, de manhãzinha bem cedo, pintava. "Era uma noite de sono entre a leitura e a pintura", diz. Era uma noite de sonho entre a leitura e a pintura, eu diria. Sonho com o bacurau, talvez.

Trecho
"A gente às vezes nem imagina como muitas das coisas mais simples têm importância para toda a nossa vida. Tenho um motivo muito especial para acreditar nisso. Aconteceu comigo. Minha mãe tinha o hábito de me colocar para dormir cantarolando uns versos que falavam de um prodigioso Benedito Bacurau. Era como se para dormir eu precisasse vagar pelo mato, pelas praças e pelo pátio da escola, onde durante o dia eu gostava de brincar com outras crianças. A voz da minha mãe repetia um acalanto mais ou menos assim: "Benedito Bacurau tá no oco do pau". Era um cantarolar suave, saído de dentro do peito, como uma respiração feita de música. Benedito Bacurau tá no oco do pau. E eu ficava imaginando o Benedito Bacurau com a mãe dele se recolhendo para dormir no tronco de alguma árvore sob o céu estrelado do sertão. Quando eu fechava os olhos para dormir, mas ainda não estava dormindo, eu me via procurando tronco de árvore para ver se encontrava o Benedito Bacurau cochilando no oco do pau. O ninho dele às vezes era meio pelo chão, pelos lajeiros, pelas mais indistintas locas, difícil de achar. Só dava para ver bem direitinho quando eu começava a sonhar. Sonhando eu tinha a noite toda para brincar com o bacurau em aventuras radicais pelas clareiras. Benedito quer caçar. Tem inseto pra danar. Benedito tá cantando. Bacurau quer namorar. Confesso que os bacuraus me metiam um pouco de medo quando brincavam de esconde-esconde sem avisar. Eles se camuflavam tão bem, mas tão bem, que se misturavam com as folhas pelos caminhos e assustavam a gente em vôos inesperados. Achava meio esquisito também quando nas estradas os olhinhos deles se acendiam como duas pequenas tochas de fogo ao serem tocados pela luz dos carros. Eu era menino e ficava encantado com as acrobacias daquelas aves abrindo um bocão sem tamanho quando caçavam insetos para comer. Achava curioso elas terem a cara de coruja, mas caçarem com as garras nem pousarem em pé. Imagine você uma corujinha pousando
com a barriga no chão como se fosse um aviãozinho misterioso da natureza".

https://livrariacortez.locaweb.com.br/noticias_019.php?cod=RGZ3M

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O Povo - Clubinho - 8 a 14/01/2006

Ninho de Imaginação
Juliana Girão

O Lucas, de seis anos, e o Artur, de quatro, são garotos de sorte. Acredita que o pai deles, o escritor e jornalista Flávio Paiva, já fez até livro em homenagem a eles? Primeiro foi o Flor de Maravilha, lançado em 2004, depois o Fortaleza de dunas andantes: a cidade banhada de sol, de 2005. Agora o Flávio acaba de lançar Benedito Bacurau - O pássaro que não nasceu de um ovo. Imagine só virar personagem de história infantil?! Pois é exatamente isso o que acontece ao Lucas e ao Artur nesses livros. No Benedito Bacurau, o mais recente, os meninos aparecem, por exemplo, na história A brincadeira sem pé nem cabeça, em que o pai escritor conta como "brincou de brincadeira", ou melhor, como inventou um jogo sem pé nem cabeça com os dois filhos.

Para ser bem sincera, o mais legal desse último livro não é a participação do Lucas e do Artur nas histórias, mas, a de uma corujinha danadinha chamada Benedito Bacurau. Ela é personagem principal do livro e aparece em todas as histórias trazendo alegria e muita imaginação. Ela chega e, com um poder mágico, deixa todo mundo desconcertado, sorridente, feliz. Para falar a verdade, ela não é bem uma corujinha, é o espírito brincalhão da infância que chega sem dar aviso. Coisa que é sempre muito bem-vinda, né?! A corujinha, com as mais variadas traquinagens, leva o leitor a passear por histórias de festas populares, centros urbanos, céus estrelados, brincadeiras escolares, dramatizações e valores como a amizade e o respeito ao meio ambiente. Só para citar um exemplo, em uma das histórias, chamada Disfarçado na Charanga, o Benedito Bacurau se mete numa bandinha de música e se disfarça de todos os instrumentos: tuba, saxofone, trombone, clarinete, zabumba. O resultado dessa metamorfose toda? Uma diversão só. As pessoas não paravam de dançar, cantar e de descobrir um bacurau dentro de si.

Benedito Bacurau - O pássaro que não nasceu de um ovo (italico) é recomendado para você despertar sua alegria e imaginação, independente de sua idade (mesmo para quem é adulto!). O livro conta com ilustrações super lindas, feitas em aquarela pelo artista plástico cearense Estrigas, e vem com um CD narrado pelo artista pernambucano Antônio Nóbrega. A dica é ler o livro enquanto escuta o CD. Você vai ver como é legal. Até porque o Antônio Nóbrega é um talento só e faz uma leitura e tanto das histórias. Se você preferir, pode chamar seu pai, sua mãe, seus avós ou até aquele seu tio mais querido para deitar depois de um dia de trabalho e escutar as histórias do Benedito Bacurau. A preguicinha junto vai ser aconchegante. Aí é só fechar os olhos e fazer das histórias do Bacurau uma sementinha para sua imaginação.



Benedito Bacurau, o pássaro que não nasceu de um ovo, do escritor cearense Flávio Paiva. Com ilustrações do artista plástico Estrigas e CD com narração do multiartista pernambucano Antônio Nóbrega. Prefácio do cronista e psicanalista Rubem Alves. 56 páginas. Cortez Editora. 2005. À venda na loja Caixa de Brinquedos, no Shopping Avenida. Preço: R$ 36,00.

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O Povo - People
18 a 24/12/2005

Intertextualidade

O livro/CD Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo, do jornalista e escritor Flávio Paiva, lançado ontem, é uma metáfora que simboliza o espírito da infância em seu mais pleno exercício da imaginação. Cada um dos 11 capítulos do texto é ilustrado por aquarelas feitas pelo artista plástico Estrigas. A obra enseja um passeio encantador por festas populares, histórias de centros urbanos, céus estrelados, brincadeiras escolares, dramatizações e valores como o da amizade e do respeito ao meio ambiente.

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O Povo - Vida & Arte
23/12/2005

Vida & Arte Recomenda

DE ÚLTIMA HORA
Chegou na última hora e não comprou o presente? Acontece. No congestionamento dos shopping centers, no aperto das filas e no corre-corre, acaba ficando difícil escolher aquele presente especial. Para não cair no lugar comum, o Vida & Arte dá as dicas.

PARA LER COM AS CRIANÇAS
O livro Benedito Bacurau - O pássaro que não nasceu de um ovo, do jornalista e escritor Flávio Paiva, conta com ilustrações do artista plástico Estrigas e versão anexa em CD narrada pelo multiartista pernambucano Antônio Nóbrega. O livro conta histórias de Benedito Bacuraru, uma corujinha esperta, que nada mais é do que o espírito brincalhão da infância. Ideal para crianças e também para adultos que andam meio sem graça da vida e vão se divertir com as peripécias do bacurau. (Juliana Girão)

SERVIÇO
Benedito Bacurau - O pássaro que não nasceu de um ovo - Livro de Flávio Paiva. À venda na loja Caixa de Brinquedos, no Shopping Avenida. Preço: R$ 36,00.

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Diário do Nordeste - Coluna Comunicado
17/12/2005

Fora do ovo

O jornalista Flávio Paiva, articulista do Caderno 3 do Diário do Nordeste, lança hoje o livro infantil ´Benedito Bacurau - O pássaro que não nasceu de um ovo´. Será às 17h, no Centro Cultural Banco do Nordeste, no programa Literato. E em alto estilo: como convidada, Flávio terá a cantora, compositora e educadora musical Bia Bedran.

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O Povo - Emais

Lançamento
O escritor cearense Flávio Paiva lança hoje no Centro Cultural Banco do Nordeste o livro Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo. A obra traz prefácio de Rubem Alves e CD com narração de Nóbrega. A atriz e educadora musical Bia Bedran é a convidada especial da solenidade.

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Diário do Nordeste - Caderno 3
Flávio Paiva (17/12/2005)

Vôos da imaginação
Dellano Rios

Flávio Paiva, autor de “Benedito Bacurau”: “A presença fantástica dessa ave para mim simboliza o espírito da infância”

O espírito infantil em forma de pássaro. Esta é a metáfora - verbal, visual e sonora - proposta pelo jornalista Flávio Paiva em seu novo livro, “Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo”. O volume será lançado hoje, no Centro Cultural BNB, com palestras do autor e da compositora e arte-educadora Bia Bedran.

Os adultos são realmente muito engraçados. E os editores adultos conseguem ser ainda mais. Basta uma canção, um quadro, um poema, um texto falar de crianças e colocar algumas cores para rotularem de imediato de infantil e partirem para outra. Curioso que esse é um rótulo que não atinge nem de perto seu público alvo - ou alguém já viu uma criança entrar numa livraria ou uma locadora de vídeos e ir direto a sessão “infantil”? Espertos como são, os pequenos demonstram que seu playground é o mundo inteiro.

Falando de “corujinhas da estrada” (ou bacuraus), brincadeiras, imaginação, criação e poesia, o jornalista e poeta cearense Flávio Paiva lança hoje o livro/CD “Benedito Bacurau: o pássaro que não nasceu de um ovo”. Com esperteza de criança, a obra multimídia se mostra, se não arredio, ao menos escorregadio diante das garras rotulantes do mercado editorial. Produzido com apoio do BNB, o livro é dividido em 11 capítulos, que funcionam de forma independente, ora remetendo ao conto, ora à crônica. “A ligação entre uma e outra é feita pela presença fantástica dessa ave que para mim simboliza o espírito da infância. Essa característica de imaterialidade associada ao mundo infantil certamente provocou a inclinação para sua identificação como
literatura infanto-juvenil”, explica o autor.

Cada parte ganhou uma interpretação visual do artista plástico Estrigas. As aquarelas do veterano captam e traduzem, com desenvoltura o universo rural e onírico onde Paiva trava seus encontros com o pássaro mágico. “As imagens do livro não poderiam sem feitas por outro artista que não o Estrigas, com descrição abstrata e lírica da realidade. Ele foi lendo cada capítulo do livro à noite, dormia com as sensações que tinha assimilado a partir do texto e no dia seguinte, logo pela manhã, pintava a tela relativa àquela parte da aventura bacuralesca que
tinha lido na noite anterior”, descreve Paiva.

Além do trabalho gráfico de Estrigas, o texto de Flávio Paiva é acompanhado de um CD de áudio com a narração das histórias. Mesmo no suporte de áudio, as aparições do bacurau se apoiam em ilustrações - nesse caso, sonoras, por conta do artista multimídia Antônio Nóbrega. Em 11 faixas, o pernambucano, que também comanda a narração, recria os contos-crônicas de Paiva utilizando ilustrações musicais compostas por cancionetas e vinhetas tiradas de composições do autor e seus parceiros musicais.

A opção pela encarnação dupla de seu “Benedito Bacurau” - impresso e áudio - segue o caráter intimista observado no livro. “Gosto de colocar os meus filhos para dormir. Geralmente escolhemos os livros que pretendemos ler no processo de afago do sono. Acontece que às vezes estou bastante cansado e fico cochilando, cochilando e cochilando. Os meninos ficam danados com isso. Então, imaginei que tendo o recurso da literatura recitada, nos dias em que eu tivesse cansado, bastaria colocar o CD, apagar a luz e garantir o nosso aconchego da hora de dormir.”

SERVIÇO: Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo,livro/CD de Flávio Paiva. Obra selecionada pelo Programa BNB de Cultura - Edição 2005. Cortez Editora, 56 páginas, R$ 36,00. Lançamento no Programa Literato, em debate com a participação da compositora e arte-educadora Bia Bedran. Neste sábado, às 17 horas, no Centro Cultural Banco do Nordeste (Rua Floriano Peixoto, 941). Informações: 3464.3177

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=301313

Íntegra da entrevista a Dellano Rios, do Diário do Nordeste

DN – No livro, você conta que a história de Benedito Bacurau foi tirada de uma cançoneta que sua mãe costumava cantar quando você era criança. Em que momento essa lembrança se materializou e se tornou um trabalho literário?

Flávio Paiva – As fontes da lembrança estão em todos nós, com suas impressões e caráter psicológico guardados nos domínios da memória. Contudo, só percebi a imagem do Benedito Bacurau me rondando os pensamentos depois que me tornei pai duas vezes, de 1999 e 2001 para cá. Tanto o cantarolar da minha mãe como a própria figura do bacurau, que chamamos de corujinha de estrada, surgiram naturalmente em minhas recordações desde que passei a colocar os meus filhos para dormir. Algo espontâneo, como respirar. Deu vontade, então, de visitar as regiões imaginárias dessa lembrança feliz e contar livremente o que encontrei na viagem. Com tudo pronto, passei os originais para o professor Rubem Alves e solicitei a ele um texto de apresentação. Pelo tanto que o conteúdo do Benedito Bacurau significa para mim, eu queria submetê-lo ao crivo de alguém que admirasse pela capacidade de dar sentido humano e existencial às coisas mais simples. No dia que ele generosamente me telefonou para dizer que faria o prefácio, disse mais ou menos assim: “São poucos os livros que eu costumo dizer que gostaria de ter escrito. O Benedito Bacurau é um deles”. Chorei de alegria.

DN – Editorialmente, o livro está sendo lançado como literatura infanto-juvenil. "Benedito Bacurau" parece uma coletânea de crônicas, contos memorialistas e, até, teatro que trazem fantasia e um universo onírico habitado por crianças (grandes e pequenas). Isso faz do livro, efetivamente, uma literatura infanto-juvenil?

Flávio Paiva – O Benedito Bacurau é uma história dividida em onze partes conjugadas. A ligação entre uma e outra é feita pela presença fantástica dessa ave que para mim simboliza o espírito da infância. Essa característica de imaterialidade associada ao mundo infantil certamente provocou a inclinação para sua identificação como literatura infanto-juvenil. O Benedito Bacurau é o protagonista de uma aventura de viver narrada como um convite ao leitor para que se debruce sobre si mesmo. Percebido ou não, de uma forma ou de outra, a metáfora do bacurau está em todos nós. Não existem ex-crianças. A infância é o alicerce do adulto. Está contida em todas as idades. Suponho que, tendo acesso a esse livro, as crianças seguirão as proezas do pássaro e compreenderão o que lhes interessar compreender diante da minha visão de mundo manifestada no livro. Lembro que, quando ainda garoto, li “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupèry, passei racionalmente ao largo de muitas das mensagens de humanização enunciadas nessa obra que se tornou célebre em todo o mundo. A minha curiosidade naquele momento preferiu correr no encalço do menininho imaginário, tentando, como ele, saber para que servem os espinhos. Para mim, que morava no sertão, isso tinha uma importância muito grande.

DN – Quais as influências literárias que você reconhece presentes neste trabalho?

Flávio Paiva – Certamente tenho muitas influências de tudo o que li, mas desconfio que a essência desse trabalho vem mesmo é de fontes primárias, de observações e sentimentos colhidos na poética da nossa vida cotidiana.

DN – Porque você optou por lançar o livro em dois suportes - o impresso e o auditivo?

Flávio Paiva – Primeiro, por atenção a uma necessidade pessoal, que acredito deve acontecer com muitos outros pais e mães. Como já disse, gosto de colocar os meus filhos para dormir. Geralmente escolhemos os livros que pretendemos ler no processo de afago do sono. Cada qual escolhe uma história a gosto. Acontece que às vezes estou bastante cansado e fico cochilando, cochilando e cochilando. Salto palavras, trechos inteiros e chego a deixar o livro cair das minhas mãos. Os meninos ficam danados com isso. Então, imaginei que tendo o recurso da literatura recitada, como foi feito no livro e CD do Benedito Bacurau, nos dias em que eu tivesse cansado, bastaria colocar o CD, apagar a luz e garantir o nosso aconchego da hora de dormir. Este é um motivo. Pensei também nas pessoas com insuficiências visuais e numa maneira de contribuir para estimular o prazer da leitura de quem está em processo de alfabetização. Tenho a impressão que, para crianças e adultos que estão aprendendo a ler, contar com o suporte da narração de alguém com o talento e a técnica do Antônio Nóbrega, mais do que um grande estímulo é uma oportunidade ímpar de aprendizagem. A primeira coisa que fiz ao receber o livro pronto foi colocar o CD com a interpretação e as ilustrações musicais feitas pelo Nóbrega, para ter o prazer de acompanhar tão linda participação.

DN – Como surgiu a parceria com Estrigas e com Antônio Nóbrega?

Flávio Paiva – Do mesmo jeito que eu só conseguia identificar o Nóbrega como o ilustrador sonoro desse trabalho, as imagens do livro não poderiam sem feitas por outro artista que não o Estrigas, com descrição abstrata e lírica da realidade. A temperatura das aquarelas que ele fez exclusivamente para o Benedito Bacurau é de uma beleza, de uma sutileza e de uma extensão pictórica excepcional. Só para se ter uma idéia, ele foi lendo cada capítulo do livro à noite, dormia com as sensações que tinha assimilado a partir do texto e no dia seguinte, logo pela manhã, pintava a tela relativa àquela parte da aventura bacuralesca que tinha lido na noite anterior. O Benedito Bacurau é um livro de enunciados, um livro que precisa ser completado pelo leitor, um livro para ler imaginando.

DN – E o convite a Bia Bedran para participar do lançamento do Benedito Bacurau?

Flávio Paiva – Sou um dos muitos admiradores do trabalho dela e da maneira comprometida como ela se coloca na produção de arte para a infância. É uma pessoa por quem, além de admiração, tenho grande carinho. Ela também sabe do que faço e da minha vida. Temos uma confiança mútua bem sedimentada. O fato de ela ter aceitado o meu convite nesse mês de agenda tão complicada, me deixa muito feliz. Tudo que envolve o Benedito Bacurau tem tido a felicidade de contar com o afeto das pessoas envolvidas. O tema proposto pelo Centro Cultural Banco do Nordeste, Literatura Infantil e Música, é muito instigante. Vamos fazer um debate de autores, de amigos, de pessoas que praticam a valorização da vida e do viver.

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Arte-Cidadania

Literatura e Música Infantil em Fortaleza
16/12/2005 Da redação

O lançamento será feito dentro do Programa Literato, que terá como tema Literatura Infantil e Música e contará com a participação especial da compositora e arte-educadora Bia Bedran, no dia 17 de dezembro, Sábado, ás 17 hs, no Centro Cultural Banco do Nordeste – Fortaleza.

O livro/cd Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo, de Flávio Paiva, selecionado pelo Programa BNB de Cultura 2005, é uma metáfora que simboliza o espírito da infância em seu mais pleno exercício da imaginação. Cada um dos 11 capítulos do texto é ilustrado por aquarelas feitas pelo artista plástico Estrigas. A obra, em sua versão em CD, é narrada pelo multiartista pernambucano Antônio Nóbrega, que executa ilustrações musicais do livro através de cançonetas e vinhetas extraídas de composições de Flávio Paiva e parceiros (Bia Bedran, Ângela Linhares, Lucas Paiva, Abidoral Jamacaru e Tarcísio Sardinha). A obra, que tem prefácio de Rubem Alves, enseja um passeio encantador por festas populares, histórias de centros urbanos, céus estrelados, brincadeiras escolares, dramatizações e valores como o da amizade e do respeito ao meio ambiente. Lançado pela Cortez Editora.

Flávio Paiva é jornalista, compositor e escritor. Nascido em Independência (CE) e radicado em Fortaleza (CE) desde 1976, onde tem participado ativamente da produção cultural (literatura, jornalismo e música) e de cidadania (movimentos da sociedade civil e organizações não-governamentais). Com seu livro/cd Flor de Maravilha inaugurou um processo inusitado de diálogo entre a literatura e a música, como recurso de intertextualidade, por meio do qual instiga a criação do leitor.

Bia Bedran é compositora, cantora, atriz e educadora musical. Formou-se em Musicoterapia pela Faculdade de Musicoterapia do Rio de Janeiro e em Educação Artística com habilitação em Música. Hoje é uma referência nacional em arte e educação, com públicos cativos em shows, peças de teatro infantil e palestras para adultos. Em três décadas de carreira, Bia tornou-se conhecida também por seu programa Canta Conta (TVE-RJ) e pelas músicas e histórias gravadas em dez CDs de arte para crianças, nos quais valoriza constantemente a interação entre as linguagens literária e musical.

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Moeda cultural - Coluna Comunicado
14/12/2005

O Banco do Nordeste e a Cortez Editora lançam o livro/CD “Benedito Bacurau - o pássaro que não nasceu de um ovo”, do jornalista cearense Flávio Paiva.

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