Escritos - Periódicos - RIvista  
   
 
 
 
 
 
 
 
    Durante a adolescência eu escrevia às escondidas. Tinha vergonha. Não conhecia pessoalmente ninguém que fizesse aquilo. Segui a intuição e um dia descobri que não era pecado nem nada gostar de expressar sentimentos e de compartilhar experimentações da vida através da palavra escrita.  
 
 

 


Edição 73 - 2007

A inadiável festa do Saci

Correm aos pulos as manifestações por todo o Brasil em favor da instituição do dia 31 de outubro como o Dia do Saci. Qualquer semelhança com a data em que é comemorado o Halloween estadunidense terá sido mero propósito. A produção de um contradiscurso capaz de desorganizar o avanço dessa festa de falsas bruxas, introduzida nos países periféricos do consumismo global pelos cursos de inglês, conta com redemoinhos de “saciólogos” indignados.

Infância e consumo
Flávio Paiva - Especial para RIvista

Rá Tim Bum
A TV Rá Tim Bum está com dois novos programas de qualidade para crianças: o Lanterna Mágica transmite filmes de curta-metragem e o Pequenos Cientistas aproxima a meninada do mundo fantástico da ciência. Pena que os meninos e as meninas do Ceará não tenham acesso a essa programação. TVA, Net e Sky estão aptas a transmitir, mas precisam de mais pressão dos seus assinantes para valorizar esse tipo de conteúdo. A programação de televisão infantil no Brasil é tão precária que não faz sentido manter tal bloqueio.

Dieta do palhaço
Um grupo de crianças de 3 a 5 anos recebeu cinco pares idênticos de alimentos para dizer qual deles era o mais gostoso. As embalagens eram todas parecidas, mas havia uma que tinha a marca do McDonalds. Esta foi a apontada por 60% das crianças pesquisadas como tendo um sabor melhor. O estudo da Universidade de Stanford, EUA, publicado na revista Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine está sendo utilizado em uma campanha para dar um basta na propaganda de alimentos muito calóricos e pouco nutritivos, dirigida a infância.

Coisa boa
As televisões estão mostrando no rodapé da tela as informações com a faixa etária adequada para cada programa exibido. Essa é uma grande vitória da mobilização da sociedade civil, pois oferece a pais e filhos parâmetros mínimos para o uso da tevê. Cada categoria da Classificação Indicativa tem uma recomendação de horário de exibição: livre e 10 anos (qualquer horário), 12 (após às 20h), 14 (após às 21h), 16 (após às 22h) e 18 anos (após às 23h). Os estudantes da disciplina de Produção Publicitária em Rádio, do Curso de Publicidade da Universidade de Fortaleza prepararam uma campanha para o rádio sobre o assunto e o Departamento de Classificação do Ministério da Justiça aprovou a iniciativa e vai certificar os alunos que participaram da produção.

Saciologia
Na História em Quadrinhos publicada na revista da Ri Happy do último trimestre o Curupira faz uma reclamação de que temos no Brasil uma mania de só valorizar o que vem de fora. A Mula-sem-cabeça e o Negrinho do Pastoreio lamentam que enquanto nos Estados Unidos o Halloween é um dia especial aqui os nossos mitos estão bem esquecidos. Rola uma festa bem animada, com a presença de vários seres fantásticos e, no final, o Lobisomem finca uma placa na grama denominando aquela diversão de “1ª Reunião Nacional das Lendas do Brasil”. Não deixa de ser um bom sinal de “saciologia” do Solzinho, a clarear os redemoinhos que levam à Festa do Saci, marcada para o dia 31 de outubro, mesma data do evento das bruxas do Halloween.

Transformers
O comum nas estratégias de mercado da grande indústria cultural tem sido a sincronização do lançamento de filmes com a venda de brinquedos, álbuns de figurinhas e material escolar referentes a cada produção cinematográfica. Com o filme Transformers (Michael Bay) aconteceu o contrário: o filme foi criado em decorrência dos autobots , como são chamados os bonecos de carros que viram robôs ou talvez seja de robôs que viram carro; não importa, afinal eles se espatifam em explosões e enfrentamentos, suportados por um enredo puramente artificial, no qual a magia do cinema cede espaço para os efeitos da propaganda.

Inadequado
Aumenta o desconforto de pais e mães com relação aos trailers para adultos que antecedem às sessões de cinema infantil. Cenas de violência e de sexo são mostradas com tanta agressividade que a meninada pára de comer pipoca para tentar entender bem o que é aquilo mesmo.

Chumbo nos brinquedos
O aumento da consciência cidadã na cabeça dos consumidores é um fato dos novos tempos que está mexendo também com os fabricantes de brinquedos. A excessiva quantidade de chumbo, identificada nos brinquedos das linhas Polly, Barbie e Batman, levou a maior empresa de brinquedos do planeta, que é a norte-americana Mattel, a tentar tirar do mercado brasileiro cerca de 850 mil produtos. No mundo, esse número passa de 18 milhões de unidades contaminadas por essa substância altamente tóxica que é o chumbo. Os brinquedos da Mattel, como tantos outros do “mundo plano”, são feitos na China, com base em um certo tipo de mão-de-obra escrava, o que significa dizer que o “chumbo” não entra somente nos brinquedos.

Nº 25 - Edição XXVI - 2003

Quatrocentos anos de quê?
A aventura de Pero Coelho no Ceará do princípio do século XVII daria um belo filme épico. Ele era cunhado de um importante explorador incentivado, com quem morava na "Parahyba". O Brasil vivia com os efeitos do confuso domínio do rei Felipe III da Espanha e II de Portugal. Coelho conseguiu apoio do então governador-geral Diogo Botelho, para montar um exército com a finalidade de explorar os rios cearenses e expulsar alguns franceses que estavam instalados em arraiais na Serra Grande da Ibiapaba.

Martim Soares Moreno, que posteriormente viria a se tornar personagem do romance "Iracema" de José de Alencar e a ser considerado fundador do Ceará, participou dessa jornada. Em autobiografia, datada de 1618, Moreno revela o xis da questão: "sendo de pouca idade passei ao Brazil por soldado em companhia do Governador Diogo Botelho, logo que cheguei fui com o capitão Pero Coelho de Sousa a descobrir e conquistar a província de Yaguaribe, Seara e Mel Redondo servindo de soldado, onde tivemos guerra com aquelles Índios que eram infinitos e tinham muitos franceses em sua companhia".

Muitos desses documentos foram reproduzidos em textos de historiadores e políticos cearenses em uma edição especial intitulada "Commemorando o Tricentenário da vinda dos primeiros portugueses ao
Ceará - 1603 - 1903", editado pela Typ. Minerva sob os auspícios do Dr. Pedro Borges, presidente do Ceará cem anos atrás. É isso mesmo, naquele tempo os organizadores do evento tiveram a sensatez de deixar claro que se tratava de 300 anos "da vinda dos primeiros portugueses ao Ceará". Concordando ou não com a solenização deste tipo de acontecimento histórico é fácil reconhecer que houve honestidade e transparência no propósito.

Estamos no ano de 2003 e existe uma preocupação manifesta de grande parte da humanidade no sentido de mudar o paradigma da relação de autoridade e dependência entre os povos. As manifestações contra o genocídio anglo-ianque no Iraque e pela paz são um bom exemplo desse desejo. Há cinco anos, quando Portugal debutava na União Européia, foi feita a Expo 98, tendo como tema central a relação dos seres humanos com os mares, desde a utopia que levou ao aprendizado das navegações à necessidade de proteção dos ecossistemas oceânicos. Bem diferente do século anterior quando os portugueses expuseram verdadeiros zoológicos humanos a título de valor evocativo pelas conquistas ultramarinhas.

O próprio colonizador não quer mais aparecer como colonizador. Os tempos mudaram, as variáveis políticas, econômicas, históricas e culturais atingiram outros patamares de grandeza, percepção e atitudes. Neste cenário de transformação do olhar v~e-se estranhamente uma campanha de comemoração discricionária de 400 anos do Ceará. Algo que, dentre outros espetáculos, pretende literalmente desfilar o complexo de inferioridade de boa parte da nossa elite no sambódromo da avenida Marquês de Sapucaí. Quatrocentos anos de quê? A história e a cultura cearenses estão sob a mira dessa agressão conceitual que certamente deixará seqüelas simbólicas na nossa compreensão do que somos e do que queremos ser.

A façanha de Pero Coelho e seus soldados não é um bom marco de fundação. Depois de dizimar uns tantos "homúnculos tapuyos" em terras cearenses e de acabar com a festa francesa na Ibiapaba, foi à Paraíba buscar reforços para a captura e venda de nativos. O negócio foi tão bom que ele vendeu até os "naturaes" com quem havia contado nos combates. Como que para compensar, foi traído pelos comparsas e teve que se deslocar à pé da margem do rio Jaguaribe até Natal, numa saga de fome e sede em que perdeu a mulher e o filho. Conseguiu embarcar para a Espanha, para onde seguiu na vã tentativa de conseguir uma recompensa pela expulsão dos franceses de Mel Redondo. Terminou os dias solitário e pobre vagando em plagas portuguesas. É realmente uma história curiosa que merece ser conhecida e analisada, mas nunca tomada como a primeira referência do Ceará.

Essa espécie de fado cearense tocado em exagerados festejos de supostos 400 anos é a forma mais cínica e atualizada de, em nome do crescimento econômico, reforçar a sensação coletiva de que ainda não é hora de sair do pelourinho. Nada conta o fato. Tudo contra o foco. Nada conta os portugueses. Tudo conta a digressão apologética a qualquer marco colonizador. O autóctone cearense é reconhecido como um dos povos do Brasil profundo que mais repeliram bravamente aos assaltos dos conquistadores. Um espírito de inquietação antropológica que seguiu palpitando no coração caboclo a paixão pela liberdade que passe pela subserviência do olhar.

 
     

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