Um debate sobre os 450 anos da capital de Angola era tudo o que eu queria nesses dias em que estou de férias pela cidade. Aconteceu no bonito Palácio de Ferro (05/02). Miniauditório lotado. Com o tema “Luanda – Imagem e Corpo de uma Cidade”, o ensaísta Abreu Paxe, a arquiteta Leonilde da Costa, o artista visual Jesualdo Muvuma e a artista performática Yola Balanga, mediados pela comunicadora Horvanda Thielleux, refletiram sobre a realidade luandense e seu devir.
A palavra-síntese das falas foi entrelaçamento. Diante dos contrastes aventados, destacaram-se a trama entre o quimbundo e o português, o emaranhado de musseques (favelas) e os condomínios de luxo e o intrincado de estilos colonial, moderno, contemporâneo e popular de improviso. Esses embaraços estendem-se por muitas perspectivas, inclusive o entrelaçamento do azul dos candongueiros (minivans que fazem o transporte público) com o preto das Land Cruiser (que transportam burocratas oficiais) forçando o privilégio da passagem no trânsito com arrogantes sirenes ligadas.
Um lugar de circulação de mercadorias seria uma das explicações de sua origem. Paxe diz que não há quem não se sinta deslocado na cidade. Leonilde refere-se à etimologia da palavra Luanda como rede de pesca, que viria do quimbundo wanda (uanda). Muvuma vê na arte um meio para dar sentido ao erro, o improviso e a desobediência. Yola aponta o Kuduro, estilo musical catártico que funde música tradicional angolana com batidas eletrônicas aceleradas, como o ritmo mais representativo de Luanda.
Luanda teve um crescimento desordenado em virtude de sua história de migrações. Isso contribui para ausências de saneamento básico e de abastecimento de água e luz. Favorece também a ausência de cidadania para a grande maioria dos habitantes da capital angolana. Entre as necessidades apontadas está a implementação de autarquias para as comunidades poderem contar com uma gestão de proximidade.

Yola, Muvuma, Horvanda, Leonilde e Paxe em debate sobre os 450 anos de Luanda. Foto: Flávio Paiva (05/02/2026).
Essas questões acenderam em mim um pouco do que encontrei em Luanda. Em poucas cidades do mundo senti-me tão bem acolhido e tão seguro quanto em suas ruas. Na capital angolana, que tem cerca de dez milhões de habitantes, as pessoas são atenciosas e agradecem gentilmente quando recebem um bom dia. Os espaços públicos da cidade estão sempre cheios de gente vendendo gêneros alimentícios, produtos de uso pessoal e itens de natureza doméstica, como em um grande armazém a céu aberto.
A economia informal é a maneira encontrada pela maioria da população para sobreviver. Procurei ouvir uma explicação para esse fenômeno e me disseram: “Se não saírem às ruas, essas pessoas não comem”. Depois fui descobrindo que a maioria da população não tem acesso à escolaridade mínima, nem à assistência social; muitas delas sequer dispõem de documento civil, embora recebam credenciais para votar em períodos de eleição.
Por outro lado, construções de alto padrão, como as de Talatona, Ingombota e Miramar, esbanjam condomínios de luxo, presenças diplomáticas e centros comerciais e financeiros. As assimetrias tornam-se cada vez maiores. No período colonial eram os portugueses e outros europeus que exploravam a força humana dos habitantes do território de Angola; nos tempos recentes, o grupo de exploradores foi ampliado com a entrada de angolanos assimilados, brasileiros e chineses; contingentes que usufruem do novo modelo de dependência instalado em um país com tantas riquezas, mas que mantém o povo à margem das oportunidades e que se endivida para benefício de poucos, ficando a conta nas costas da população.
Fonte:
Jornal O POVO

