Sacizada na Língua do Pê
Artigo publicado no Jornal Diário do Nordeste, Caderno 3, página 3

Quinta-feira, 10 de Junho de 2010 – Fortaleza, Ceará, Brasil

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Dia após dia fico mais e mais encantado com o potencial revolvedor e renovador da brasilidade, muitas vezes ainda latente na nossa memória coletiva. O mais recente impulso que tive nesse sentido foi a experimentação que fiz, em parceria com o compositor e cantor Calé Alencar, de compor uma música para a Festa do Saci de 2010, toda na Língua do Pê. Com essa investida sacizística procuramos testar a força da inter-relação entre o que somos quando dialogamos com a nossa cultura e o que podemos ser quando devolvemos ao convívio social, especialmente nos centros urbanos, a prática lúdica do exercício do avesso e da criatividade da cultura da infância.

Unir o Saci e a Língua do Pê, cujas origens estão no ato imaginativo do Brasil profundo, ocorre-me como um denominador comum para crianças e adultos. Se o Saci tem em seus atributos o hábito de ser brincalhão, gozador e de gostar de dar alguns sustos também, a Língua do Pê, por sua vez, está atrelada à diversão das parlendas e dos trava-línguas e ao fascínio dos códigos secretos, utilizados tempos atrás pelas crianças e adolescentes na tentativa de evitar que curiosos entendessem suas conversas. Ambos apresentam, portanto, um vigoroso espírito lírico, satírico, poético e brincalhão.

Por acreditar que somos uma conseqüência dos nossos símbolos e que o mundo real é o que está em nossas mentes, entendo que revigorar representações simbólicas populares como o Saci e a Língua do Pê é uma maneira de valorizar e revitalizar a cultura de um País que tem muito com que contribuir na trama do diálogo local e global. Para ter uma visão mais clara de tudo isso, defini a “saciologia” como uma das ciências humanas, que reflete os saberes e as crenças resultantes da relação da cultura mestiça brasileira com a natureza, por meio das leis da imaginação; e defini a Língua do Pê, como a gramática da infância, estruturada em sons e grafias convencionadas pelo caráter do jogo.

O Saci, como o mais representativo dos nossos mitos, tem sido chamado a colaborar com as mudanças de mentalidade em curso no Brasil. Nos últimos cinco anos, dez cidades brasileiras já formalizaram o dia 31 de Outubro como o Dia do Saci, deslocando a caracterização meramente folclórica do personagem para uma integração mais direta no meio social e cultural: São Luiz do Paraitinga, São José do Rio Preto, Angatuba e São Paulo (SP), Vitória (ES), Poços de Caldas, Uberaba e Pouso Alegre (MG), Fortaleza e Independência (CE). Sem contar que o Dia do Saci está instituído oficialmente no Estado de São Paulo e faz parte do calendário oficial da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

A tendência de ampliação das movimentações culturais e educacionais relativas ao Saci sugere que paulatinamente sejam agregados novos elementos proporcionadores de benefícios a essa força revigorante. A Língua do Pê é um desses elementos que têm tudo para produzir sinergias nesse processo. É bem provável que as crianças e os adolescentes, que utilizam hoje o internetês, como forma apenas escrita de se comunicar, se interessem por esse idioma à parte, ao descobrirem que se trata de uma cifra fonética ancestral, com a qual dá para escrever e falar secretamente. A assimilação se dará com mais intensidade e consistência se pais e educadores entenderem a Língua do Pê como trava-línguas, por conseguinte, como um recurso para melhoria de dicção e auxílio fonoaudiológico, facilitador da articulação das palavras.

Para falar ou escrever a Língua do Pê é muito simples, basta colocar o fonema “pê”, depois de cada sílaba. O meu nome, por exemplo, fica assim: Flapavipiopó Papaipivapa. Em alguns casos, a unidade sonora puxa a consoante ou o acento. O sobrenome do Calé, por exemplo, fica assim: Apalenpencapar (e não Apalenpenca”r”par). O mesmo acontece com Pererê, que fica assim: Pepereperepê (e não Pepereper”ê”pê). Há situações em que a variação é opcional. Língua, por exemplo, pode ser escrita e falada assim: Linpíngupuapá ou simplesmente linpínguapá. Esse jeito nordestino de falar a Língua do Pê veio da península Ibérica, mas há regiões brasileiras que passaram a colocar o fonema “pê” antes das sílabas.

E então, foi recorrendo à rica e divertida Língua do Pê que o Calé e eu fizemos uma música para a Festa do Saci de 2010. O título ficou assim: “Sapacipi Pepereperepê”. E a letra assim: “Epeupu tepenhopo upumapa / Copoipisapa paparapa lhepe dipizeper / Poporempém sopó popossopo lhepe dipizeper / Napa linpíngupuapa dopo pepê / Epeupu vipi opo sapacipi / Opo sapacipi pepereperepê / Epeupu vipi opo sapacipi / Opo sapacipi pepereperepê / Sopó quempem fapalapa / Epessapa linpíngupuapa / Apa vepelhapa linpíngupuapa dopo pepê / Sapabepe bempem opo quepe epeupu dipigopo / Quanpandopo dipigopo apa vopocepê / Epeupu vipi opo sapacipi / Opo sapacipi pepereperepê / Epeupu vipi opo sapacipi / Opo sapacipi pepereperepê”.

Desde que não seja para fins comerciais, a gravação está disponível em mp3 no meu site www.flaviopaiva.com.br (basta entrar em “Novidades” que a primeira coisa que aparece é o link para baixar). A gravação de “Sapacipi Pepereperepê” foi feita dia 23 de maio, no Teatro Violeta Arraes – Engenho de Artes Cênicas, da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, em Nova Olinda, a 550 km de Fortaleza, com técnica de Hamilton, Huguinho e Raniel. A sanfona do Adelson Viana foi gravada em Fortaleza, no dia 2 de junho, com técnica de Lauro César. Com arranjos coletivos e a participação integral do músico e pesquisador André Magalhães, a sacizada contou com Calé (voz, violão, percussão e arranjo de base), Adelson Viana (sanfona), Samuel Macêdo (guitarra), Aécio Diniz (baixo), Hélio Filho (bateria), André Magalhães, Jaime, Lucas Paiva e Luciana Martins (percussão). O coro infantil e a barulhada foi feito por Artur, Augusto, Diana, Lucas, Luciana, Maropim, Netinho, Raissa, Raniel, Regina e Yasmim.

Gravar em Nova Olinda, no Cariri, com o apoio do Alemberg Quindins, presidente da Fundação Casa Grande e das crianças e adolescentes que tocam o dia-a-dia da cultura nova olindense, deu uma propriedade especial ao trabalho. A Casa Grande vem há 18 anos desenvolvendo um dos mais significativos projetos sociais e econômicos lastreados na comunicação comunitária e na cultura. O município, que tem cerca de 13 mil habitantes, respira a capacidade efetiva da gestão cultural comandada pela juventude, em programas de memória, comunicação, artes e turismo, fundados na cooperação e na corresponsabilidade. Os jovens da banda e as crianças do coro não são apenas músicos, são pequenos cidadãos que utilizam a arte como instrumento de construção social.

No domingo à noite fomos ao teatro com os nossos filhos e no mesmo palco onde graváramos a música, vimos duas apresentações que excederam as nossas expectativas. A primeira, foi a exibição do “100 Canal”, uma versão do antigo cinejornal da Atlântida, feita pela meninada, que exibiu os melhores momentos do torneio de futebol local, cujo jogo havíamos assistido no dia anterior. A algazarra da platéia com os lances mudou totalmente para o silêncio compenetrado, quando os atores-manipuladores Cléber Laguna e Márcia Fernandes, da Cia. Mevitevendo, de São Paulo, iniciaram a peça Zero, que fala de um certo Senhor Z, figura melancólica que perdeu a memória da infância e tem dificuldade de viver em um lugar onde não predomine a artificialidade. Mais pertinente, impossível, para fazer o arremate de uma sacizada na Língua do Pê.