Eduarda Pompeu
@newslinklab

O Dia do Saci, celebrado em 31 de outubro, divide a data com o Halloween, ou “Dia das Bruxas”, comemoração de origem estrangeira que ganhou popularidade no Brasil. Criada em 2003, a data busca valorizar as tradições brasileiras e manter vivo o imaginário popular.

Para Flávio Paiva, jornalista, escritor e compositor de obras como “A Festa do Saci”, “Se Você Fosse um Saci” e “Sapacipi Pepereperepê”, o distanciamento das novas gerações em relação ao personagem está relacionado à maneira como o folclore é apresentado à sociedade.

“Primeiro, porque ainda seguem associados ao folclore, esse conceito inventado pelo Império Britânico para adestrar as criaturas nascidas na cultura popular. O folclore é uma grande jaula do zoológico de seres fantásticos, que é visitado em data certa do calendário”, afirma.

Para Paiva, a figura reúne características que atravessam diferentes tradições: a relação com as matas, a pele negra, a perna única e o gorro vermelho, associado aos movimentos republicanos europeus.

A relação do personagem com a natureza também é um dos aspectos centrais para o autor. Para ele, o Saci representa uma figura importante em um contexto de degradação ambiental.

“O Saci, como um ser das matas, é fundamental para esses tempos de destruição do meio ambiente”, afirma. O escritor também defende que a presença do personagem não se limita às florestas, mas pode ser percebida nos espaços verdes urbanos: “Onde tem cobertura vegetal tem Saci.”

A identificação de Flávio com o personagem ultrapassa a relação literária. Ao definir sua ligação com o Saci como uma relação de irmandade, o autor o considera uma referência ancestral.

“Me esforço para demonstrar para ele que estou fazendo de tudo para ter a honra de virar Saci quando completar 77 anos. Estou com 67 anos, tenho, então, uma década ainda para assegurar essa conquista”, afirma.

Texto produzido por Eduarda Pompeu / Edição: Kátia Patrocínio

_____________

LEIA A SEGUIR A ENTREVISTA COMPLETA

Eduarda Pompeu – O que faz do Saci um personagem tão representativo da cultura brasileira?

Flávio Paiva – O Saci é uma das mais perfeitas sínteses da formação do Brasil. É uma criatura imaginária, identificada nos sons e movimentos invisíveis das matas pelos povos originários, que ganhou um corpo preto com uma perna só, por força mítica yorubá, e que tem no gorro vermelho um dos símbolos republicanos trazidos ao país pelos imigrantes europeus pós-Revolução Francesa.

 

Eduarda Pompeu – Em sua opinião, por que personagens do nosso folclore ainda têm dificuldade de ocupar um espaço maior no imaginário das novas gerações?

Flávio Paiva – Primeiro, porque ainda seguem associados ao folclore, esse conceito inventado pelo Império Britânico para adestrar as criaturas nascidas na cultura popular. O folclore é uma grande jaula do zoológico de seres fantásticos, que é visitado em data certa do calendário. Isso tira personagens como o Saci da convivência cotidiana das pessoas e, ano após ano, vai produzindo distanciamento.

 

Eduarda Pompeu – O que perdemos culturalmente quando deixamos de conhecer e transmitir histórias como a do Saci?

Flávio Paiva – Deixamos de contar com a presença dele em nossas vidas. O Saci, como um ser das matas, é fundamental para esses tempos de destruição do meio ambiente. Onde tem cobertura vegetal tem Saci. Até as praças das cidades estão cheias desses seres maravilhosos, mas o ritmo urbano não permite que eles sejam sentidos como deveriam.

 

Eduarda Pompeu – Como os mitos populares podem contribuir para aproximar as crianças da natureza e despertar nelas uma consciência ambiental?

Flávio Paiva – Em situação normal, toda criança é Saci. Pelo menos até os sete anos, a cultura da infância guarda essa sabedoria verde. Acontece que, daí em diante, fica difícil para meninas e meninos sustentarem a potência de sua humanidade como parte da Mãe-Terra. No meu livro “A Festa do Saci” (2007), defendo que essa luta vai até os 77 anos. Dessa idade em diante, a pessoa que consegue manter a dignidade infantil, vira Saci.

 

Eduarda Pompeu – No livro A Festa do Saci, o senhor utiliza a fantasia e o folclore para abordar também questões como o consumismo. Por que escolheu esse caminho?

Flávio Paiva – A fantasia, como algo que nos move a buscas, sim; o folclore, não. A minha relação com o Saci é de irmandade, por isso, sendo ele um irmão mais velho, um ancestral, me esforço para demonstrar para ele que estou fazendo de tudo para ter a honra de virar Saci quando completar 77 anos. Estou com 67 anos, tenho, então, uma década ainda para assegurar essa conquista.

 

Eduarda Pompeu – O senhor acredita que a literatura infantil pode funcionar como uma ferramenta de resistência ao apagamento da cultura popular?

Flávio Paiva – A literatura infantil que nasce de uma necessidade de contar, sem dúvida; agora, os livros que seguem mantendo o Saci na jaula do folclore ou que são feitos apenas por demanda comercial, me parecem destruidores de valor em termos SACIológicos.

 

Eduarda Pompeu – Que tipo de relação o senhor espera que as crianças desenvolvam com o Saci depois de conhecerem sua história?

Flávio Paiva – O que mais me alegra em todas as sacizadas que têm meus livros e músicas de Saci presentes – “A Festa do Saci”, “Se você fosse um Saci”, “Sapacipi Pepereperepê” – é o fato de as crianças assumirem o Saci de cada uma, com ou sem roupa, cachimbo e gorro; e mais, sem a necessidade da figura do Saci em forma de boneco ou de pintura.

 

Eduarda Pompeu – Depois de tantos anos trabalhando com o imaginário popular, o que o Saci representa para o senhor pessoalmente?

Flávio Paiva – O Saci é uma esperança de que um dia o Brasil possa se colocar no diálogo global com a voz da sua cultura mais essencial; e o Saci certamente estará na composição dessa linguagem.