DATA MAGNA
|CELEBRAÇÃO| Evento une música e literatura com lançamento do novo livro de Flávio Paiva e show de Adna Oliveira, Di Ferreira e Mallu Viturino
CEARÁ NEGRO
Júlia Vasconcelos
ana.vasconcelos@opovo.com.br
Há 142 anos, o Ceará oficializava a abolição da escravidão. Neste 25 de março, na Data Magna, ocorre o show “Ceará Negro” no equipamento batizado em homenagem a um dos jangadeiros responsáveis por dar um passo importante para o fim da escravidão no Estado, o Dragão do Mar.
Adna Oliveira, Di Ferreira e Mallu Viturino se apresentam no lançamento da versão ampliada de “Ceará Negro e outros temas de África”, de Flávio Paiva. Neste livro, o escritor e cronista do O POVO faz um compilado de 65 artigos relacionados ao continente africano, cada qual comentado por estudantes da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).
A primeira edição foi publicada no mesmo dia em 2025, ano de lançamento de “Ceará Negro”, a música-tema do livro que dá nome ao show, na voz de Virgínia Rosa. Para Flávio Paiva, cujo interesse sobre o continente africano começou com um mapa e um lápis de cor na infância e desaguou nas palavras sobre os reinos, a relação de comércio de pessoas escravizadas com árabes e indianos, o tempo das caravanas e o das caravelas, a arte, os diversos povos e seus pensadores, fazer literatura e fazer música são processos naturalmente interligados.
Neste ano, com a nova versão de “Ceará Negro e outros temas de África”, a música também se renova com a regravação de Fattú Djakité, cantora da Guiné-Bissau. A letra, de autoria do escritor e do músico Paulo Lepetit, ganhou também estrofe traduzida em crioulo – uma das línguas faladas no país de origem de Djakité.
“Sempre que estou escrevendo tendo a ouvir as palavras cantando”, afirma Flávio. Presente no processo, a música também toma espaço na hora do lançamento do livro. Com produção e direção de Cláudio Mendes, os artistas decidiram unir três cantoras afrodescendentes de três gerações diferentes em um show conjunto. Adna Oliveira, 69 anos, Di Ferreira, 37 anos, e Mallu Viturino, 23 anos, se encontram no palco do Dragão do Mar na noite desta quarta-feira acompanhadas dos músicos Aldy Frota, Naiara Lopes, Netinho de Sá e Samuel Vidal.

Adna Oliveira, Di Ferreira e Mallu viturino fazem show “Ceará negro” em lançamento do novo livro de Flávio Paiva
“Eu tenho um carinho por Mallu e Adna que atravessa o palco, a gente se encontra na vida mesmo, então a gente vai para o palco com tudo isso”, diz Di Ferreira. A artista, que conhece e trabalha com Cláudio Mendes há mais de dez anos, conheceu Flávio Paiva após um show com participação de Mallu Viturino, em 2022 – “um grandíssimo ponto de conexão com o show de agora, o ‘Ceará Negro’”.
Com um repertório que prioriza criações de pessoas negras, o setlist traz músicas autorais das artistas da cena musical cearense e também versões de outros artistas.
Entre ensaios e ajustes de repertório, apesar de trabalhosa e árdua a tarefa de montar uma apresentação, Di Ferreira comenta ter encontrado fluidez durante o processo, graças à química de trabalho com Cláudio Mendes e à intimidade com Mallu e a Adna. A artista, que, além de cantar, toca percussão no palco, garante um show pelo envolvimento emocional e pela alegria como forma de celebrar a data e também o encontro do palco.
CONEXÕES
“Ceará Negro e outros temas de África”
Para Flávio Paiva, escrever sobre a África é uma forma de estabelecer conexões com o “diverso e potente” mundo africano. “É uma maneira de contribuir com a luta antirracista e pela igualdade racial”, sustenta. Com 15 artigos a mais em comparação à versão publicada há um ano, “Ceará Negro e outros temas de África” conta com comentários de estudantes de origens angolanas, caboverdianas, moçambicanas, guineenses, são-tomenses e timorenses.
“Sinto-me altamente privilegiado e agradecido pela oportunidade que eles me deram de ter minhas impressões apreciadas sob o ponto de vista de quem é do continente”, diz o escritor, ressaltando o sentido de troca de onde parte seu trabalho.
Com xequerês – instrumento de percussão africano – estampando a foto de capa, assinada pelo estudante angolano Yuri Chimanga, o livro ainda conta com duas partituras impressas, preparadas pelo maestro Tarcísio José de Lima: uma, a da Virgínia Rosa, em ritmo de reggae, e, a outra, na voz de Fattú Djakité, uma fusão de funaná com samba-reggae.
África no Ceará
Flávio Paiva – O Ceará é negro, tem sangue e cultura africanos em nossas veias e no nosso sentimento de ancestralidade. Mesmo com todo o apagamento histórico sistematicamente promovido para negar isso, mais de 70% da população cearense se reconhece como preta ou parda. Contraditoriamente, ainda somos um estado muito racista e preconceituoso. Acredito, no entanto, que a ampliação do conhecimento não estereotipado sobre o que o universo africano representa para o passado e para a perenização da humanidade, tenderá a acontecer, mais dia menos dia.
Di Ferreira – A influência africana no Ceará é muito perceptível, desde a culinária até as manifestações artísticas, o afoxé, o maracatu, o maculelê, o reisado. Tudo isso tem influência de matriz africana e é muito presente dentro da cultura cearense. A comida também, o mungunzá, o vatapá, são coisas que me contemplam porque eu gosto demais de tudo isso. E isso afeta meu trabalho porque não é só o som que compõe a sonoridade que eu vou fazer. O repertório que eu tenho de fora que produz um som dentro de mim.
Ceará Negro – Lançamento de livro e show
Quando: quarta-feira, 25, às 19h30min
Onde: Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 – Praia de Iracema)
Gratuito

