MATÉRIA DE CAPA

Capa: Fattú Djakité em foto de Fernando Naiberg com intervenções de desenho do Mino e retoques de IA por Francis Deivid.

Por Raíssa Veloso
Jornalista

A conexão dialógica com o continente africano proposta por Flávio Paiva em seu livro “Ceará Negro e outros temas de África” ganha novo reforço com a gravação da música-tema “Ceará Negro” (Paulo Lepetit / Flávio Paiva) pela cantora Fattú Djakité, da Guiné-Bissau.

Com a potente e dançante interpretação de Fattú, a nova versão de “Ceará Negro” já está disponibilizada no Spotify e demais plataformas de streaming de música. E tem novidade na letra: a cantora deu um toque especial à composição com a tradução para o crioulo da seguinte estrofe:

E se chover (Si tchuba bem)
Deixa a chuva molhar (Dexa tchuba modja)
E se ventar (Si bentu bem)
Deixa o cabelo assanhar (Dexa kabelo spadja).

A capa da nova edição ampliada traz uma nova foto de Yuri Chimanga, estudante da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), também autor da foto do primeiro “Ceará Negro”, lançado em 2025. O tema da imagem é o mesmo, um xequerê (abê ou também agbê), instrumento de percussão de origem africana, confeccionado com cabaça seca e envolvido por malha de contas coloridas, muito utilizado na música afrobrasileira.

Fattú Djakité explodiu no cenário internacional no ano passado (2025) com a música “Badja Tina” (em português, “Dançar Tina”), que fala do casamento forçado ainda existente em muitos países africanos. Ela tem feito turnês por Portugal, Espanha, Luxemburgo e Bélgica, e em março fará o circuito dos Estados Unidos.

A cantora guineense conquista novos palcos. Foto: Alexander Cabral

Em dezembro passado Fattú recebeu o troféu “Best Inspirational Woman of the Year” (Mulher mais inspiradora do ano, em tradução livre) no Zikomo Awards 2025, um disputadíssimo prêmio do continente africano e das ilhas caribenhas, certame que, além da música, destaca também por voto popular online artistas de cinema e da moda.

Troféu de mulher mais inspiradora da África 2025

A conquista desse prêmio representa um importante reconhecimento ao talento, à voz marcante e à autenticidade artística de Fattú, que com “Badja Tina” consolidou o seu lugar entre as grandes vozes femininas da música africana contemporânea.

A força arrebatadora da sua interpretação atiça a música “Ceará Negro” em uma fusão de funaná lento com samba-reggae. Ou seja: a congregação de passos de dança original caboverdiana com a percussão dos blocos afrobrasileiros em toque jamaicano.

Na opinião do autor, essa presença da cantora guineense em um projeto brasileiro está dentro da crença na importância dos vínculos artísticos e literários de África (no continente e na diáspora) que contribuem para a intensificação da necessária e urgente teia do antirracismo.

Esse conceito de liga cultural é destacado pelo historiador Rosenverck Estrela Santos, professor da Licenciatura e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos e Afro-brasileiros, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no prefácio à segunda edição, quando ele afirma que o “Ceará Negro e outros temas de África” é, sobretudo, “um livro sobre conexões”.

Nova edição com 65 artigos comentados por estudantes da Unilab

CONEXÃO AFRICANA
Flávio Paiva conheceu o trabalho de Fattú Djakité em 2025, ao receber do DJ Andy Khamidi, caboverdiano radicado no Ceará, o link para escutar a música “Badja Tina”. “Fiquei maravilhado com ela! Uma artista completa e magnética! Entrei em contato, expliquei a ideia de conexão do ‘Ceará Negro’ e ela generosamente aceitou fazer a gravação da música-tema da segunda edição do livro. É importante dizer que falei com a Fattú antes de ela ser premiada no Zikomo Awards 2025. A música está linda e eu estou muito contente com tudo isso”, celebra o autor.

A gravação de “Ceará Negro” foi feita em Cabo Verde com produção e direção do músico caboverdiano Dieg, marido de Fattú. Antes dela, outras duas cantoras de países do continente africano gravaram músicas de Flávio Paiva:

Em 2014, a cantora Fanta Konatê, da Guiné Cronacri, fez parceria com o autor e com o músico André Magalhães na letra da música “Dança de Negros – Batuque”, composta em 1887 por Alberto Nepomuceno (1864 – 1920), peça sinfônica repaginada que ela interpretou juntamente com a banda Dona Zefinha para o livro “Invocado – um jeito brasileiro de ser musical” (Armazém da Cultura), de Flávio Paiva.

Em 2024, a cantora Lenna Bahule, de Moçambique, gravou o single “Escarlate”, combinando sonoridades e pegadas rítmicas brasileiras e moçambicanas. A composição de Flávio Paiva conta a história de um belo e valente boi preto, de alma livre, que, apesar de desterrado, se joga com sua cultura e fé na construção de um novo lugar para viver, abraçando o território que passa a habitar. Esta música foi gravada originalmente em 1994 na voz de Edmar Gonçalves como uma das doze faixas do álbum “Rolimã” (Camerati, 1994).

TERRA DA LUZ
A ideia de “Festa na Terra da Luz” proposta na música “Ceará Negro” tem como força o resgate de uma expressão que pertence à luta e às conquistas pela abolição. A professora Adriana Guimarães, diretora-geral do Campus Fortaleza do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Ceará (IFCE), que escreveu o posfácio do livro, chama a atenção para isso: “Flávio Paiva propõe um resgate do sentido da expressão ‘Terra da Luz’, cunhada pelo abolicionista José do Patrocínio (1854 – 1905) em decorrência da pioneira libertação, quando esse conceito tão potente e belo está reduzido à publicidade de venda de praias ensolaradas”.

No prefácio à nova edição do livro “Ceará Negro”, o professor Rosenverck Estrela Santos ressalta: “A chamada ‘Terra da Luz’, que aboliu oficialmente a escravidão em 1884, é apresentada em suas contradições e grandezas, a partir da atuação de personagens como Chico da Matilde, o Dragão do Mar, e das lutas coletivas que marcaram esse processo”.

José do Patrocínio criou a expressão “Ceará Terra da Luz”. Fonte: Wikipédia

O autor de “Ceará Negro” defende que essa expressão passe a ser referenciada com o propósito de exaltar não somente o feito abolicionista pioneiro de Acarape, no final do século XIX, mas a todas as lutas que ao longo do tempo vem dando curso às movimentações antirracistas e pela igualdade racial no território cearense.

“O sentimento de injustiça com relação às apropriações indevidas da expressão ‘Ceará Terra da Luz’ não tira dos afrocearenses a legitimidade de serem os beneficiários do alcance da simbologia contida nessa metáfora. Recuperar a posse desse bem intangível implica desenvolver novas relações entre percepção e reflexão, reconhecimento e respeito, em um reencontro com a História e com o senso de alteridade”, propõe.

Flávio Paiva argumenta ainda que “a grandeza simbólica da expressão ‘Terra da Luz’ merece assumir sua posição vinculada ao evento precursor da libertação brasileira e suas interseccionalidades com os campos da cultura, do turismo e das transformações sociais e políticas”.

 

CONEXÃO INTERGERACIONAL

A música – linguagem sempre presente no trabalho literário de Flávio Paiva – também abrilhantará o lançamento da nova edição do livro “Ceará Negro e outros temas de África” (Omni, 2026), marcada para o dia 25 de março, feriado da Data Magna do Ceará. A festa acontece a partir das 17 horas no Campus das Aurora, da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), em Acarape.

A ideia de conexões africanas, alinhada ao sentido de encontro intergeracional, está também na base do show do lançamento. Produzido e dirigido pelo músico Cláudio Mendes, o espetáculo contará com três cantoras afrobrasileiras, de três gerações diferentes, todas com inserção de destaque na cena musical cearense.

Adna Oliveira é carioca e mora em Cruz (CE).
Cantora, compositora e atriz com mais de 40 anos de trajetória. Idealizadora dos shows “Gaia” e “Mulher de 60”. Entre 2023 e 2024, circulou com a turnê nacional do musical “CAETANAS”. Já sexagenária, abraçou o universo do audiovisual ao atuar em projetos de cinema e televisão. Entre seus últimos trabalhos, destaca-se o longa “O Melhor Amigo” (2025), dirigido por Allan Deberton, e o single de sua autoria “Luar do Preá”.

Adna Oliveira. Foto: Guilherme Silva

Di Ferreira é capixaba e mora em Fortaleza.
Iniciou o ofício musical em 2009, aos 20 anos, tendo integrado projetos como a banda theDillas, Las Tropicanas (ao lado de Lorena Nunes e Maria Antonia), Beat N´Jazz (junto a Cláudio Mendes), e também os shows coletivos como “Falando da Vida”, ”Cearás do Amanhã” e “Filhes de Ninguém”. No campo do audiovisual, atuou em sete projetos entre curtas, longas e séries.

Di Ferreira. Foto: divulgação

Mallu Viturino é fortalezense e mora na Sabiaguaba.
Artista independente da comunidade costeira de Caraúbas, na Região Metropolitana de Fortaleza, nascida em 2003. Compõe, canta e toca o indivíduo no coletivo, as amizades, os quereres, os impulsos e motivações do corpo, da pele, da voz, do lugar onde mora, por onde anda e a proteção dos antepassados. Ativista das questões negritude, representa a nova geração que conecta música e engajamento social.

Mallu Viturino. Foto: Marcos Vieira

Para Flávio Paiva essa formação dá o tom exato do sentido do projeto Ceará Negro. “São três cantoras que admiro pela qualidade artística, pela força como mulher e pela sensibilidade humana. Sem contar com a produção do Cláudio Mendes que, além de um parceiro talentoso, é um músico excepcional. Essa convergência gera uma energia musical, poética e cidadã muito calorosa”, ressalta.

O lugar do show de lançamento é simbólico. Em pleno feriado de 25 de março de 2025, o reitor Roque Albuquerque, da Unilab, que escreveu o prefácio da primeira edição do livro “Ceará Negro e outros temas de África”, abriu as portas do Campus da Liberdade, em Redenção, para o lançamento com a apresentação do grupo Vozes D´África, projeto da própria universidade. Como uma contribuição às manifestações antirracistas e pela igualdade racial, o gesto se repete no feriado da Data Magna do Ceará em 2026, com o lançamento da nova edição do livro, desta vez no Campus das Auroras, em Acarape.

 

ÍCONES DA ABOLIÇÃO NO CEARÁ

O autor de “Ceará Negro” reconhece que a abolição ainda está longe de ocorrer de fato no Ceará, mas ressalta que não se pode esperar que ela aconteça plenamente para comemorar os passos dados ao longo do tempo.

“Se temos o Palácio da Abolição, precisamos valorizar isso, independentemente de quem o construiu. Ele está aí e é lindo, com uma Galeria da Liberdade e com belos jardins no qual há inclusive uma escultura afrocearense, com tema de cafuné, feita pelo saudoso Zenon Barreto. A mesma atenção precisa ser dada à Data Magna (25 de março), um marco de pioneirismo cearense que merece nosso orgulho, mesmo que a libertação verdadeira ainda esteja por acontecer. A própria Unilab foi instalada em Acarape / Redenção por uma escolha do governo Lula que valoriza o local onde se deu o ato de formalização da abolição cearense, em 1884, quatro anos antes do Brasil. A Medalha da Abolição, a mais elevada honraria concedida pelo Governo do Ceará a pessoas que contribuem para o engrandecimento cearense, é alusiva ao feito de libertação, talvez faltando apenas alguns critérios que associem os laureados com as questões antirracistas e pela igualdade racial. O maior centro cultural do Estado é uma homenagem a Dragão do Mar, o líder jangadeiro da paralização de 1881, que produziu grande inflexão no processo abolicionista cearense. E temos ainda a recente Lei do Ceará Negro (Lei 19.191, de 05/06/2025), proposta pelo deputado Acrísio Sena, aprovada na Assembleia Legislativa e promulgada pelo governador Elmano de Freitas, que cria a Semana da Data Magna e pela Igualdade Racial no calendário oficial de eventos e datas comemorativas do Estado do Ceará. Sim, a ‘Terra da Luz’ precisa de festa para seguir em frente”, reflete.

 

CONEXÃO AFROBRASILEIRA

A primeira gravação da música “Ceará Negro” foi feita em 2024 por Virgínia Rosa, cantora paulistana, de ascendência mineira, uma das representantes da negritude musical brasileira. Virgínia Rosa também é atriz e atualmente faz o papel de Dona Nora, na novela “Coração Acelerado”, da TV Globo.

Virgínia Rosa. Foto: João Caldas

No momento que estavam compondo “Ceará Negro”, o baixista Paulo Lepetit sugeriu o nome de Virgínia Rosa e Flávio Paiva abraçou a ideia imediatamente. A conexão não aconteceu por acaso: Lepetit foi um dos músicos mais próximos de Itamar Assumpção (1949 – 2003), um dos mais expressivos artistas da música urbana negra brasileira. Na banda Isca de Polícia, Virgínia e Paulo Lepetit dividiram o palco com Itamar.

Flávio Paiva e Paulo Lepetit na Unilab, em Redenção. Foto: Yuri Chimanga

Para Flávio Paiva, que acredita na força da festa como forma de seguir avançando com as conquistas dos antepassados, é incrível contar com a agregação artística e estética de artistas maravilhosas como Virgínia Rosa, na trilha da primeira edição, e de Fattú Djakité, na trilha da segunda edição. “São intérpretes de alma magnética, capazes de fazer a música transbordar em sentimentos e emoções”, enfatiza.

 

UM ANO DE INTENSA MOVIMENTAÇÃO

No ano que se seguiu ao lançamento do livro “Ceará Negro e outros temas de África”, de Flávio Paiva, o interesse por temas do continente africano e suas extensões transformadoras desencadeou novos diálogos em distintos lugares da Terra da Luz.

AÇÕES INSPIRADAS NO LIVRO CEARÁ NEGRO

Criação da Lei nº 19.291/2025
Inclui no calendário oficial do Ceará a Semana Alusiva à Data Magna e à Igualdade Racial, tendo como referência o dia 25 de março. “A criação desta semana alusiva, inspirada na proposição cidadã do livro ‘Ceará Negro e outros temas de África’, do escritor cearense Flávio Paiva, representa um passo importante para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária no Ceará, onde a história, a memória, a cultura afrodescendente e os diversos países da África sejam valorizados e respeitados”.
(Trecho da justificativa do deputado Acrísio Sena no Projeto de Lei nº 193/2025)

Nominação do selo Editorial do IFCE Fortaleza
“Os alcances provocados pelo autor em termos de entendimento do continente africano e sua diáspora nos levaram a identificar no capítulo ‘SACIologia Brasileira’ a figura sintetizadora da brasilidade positiva, para ressignificada, inspirar a criação do Selo Editorial e Audiovisual SACI (Articulação, Inovação, Cultura e Integração)”.
(Adriana Guimarães, Diretora-Geral do IFCE Fortaleza)

Cronologia das principais manifestações

25/03/2025
Lançamento do livro “Ceará Negro” na Unilab, com participação do grupo Vozes D´África e do músico Paulo Lepetit, em Redenção.

13/04/2025
Lançamento do livro “Ceará Negro” na XV Bienal Internacional do Livro do Ceará, no Centro de Eventos de Fortaleza, com participação de estudantes da Unilab.

26/04/2025
Sábado Letivo com “Ceará Negro” no IFCE Fortaleza.

10/05/2025
Debate com estudantes de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará.

28/05/2025
Aprovação da Lei do Ceará Negro na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.

30/05/2025
Debate com Ginga – Capoeira no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza.

26/05/2025
Lançamento de Rua – Boteco do Marcão, no bairro Benfica, em Fortaleza.

08/09/2025
Semana de boas-vindas à Turma 2025.2 do curso de Licenciatura em Teatro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado do Ceará (IFCE), na Casa de Artes – Espaço Miraíra, na Avenida 13 de Maio, em Fortaleza.

21 e 24/09/2025
Teatro, dança e performances de estudantes do Curso de Teatro do IFCE Fortaleza inspirados no “Ceará Negro”.

11 e 16/09/2025
Livro e música “Ceará Negro” na OCHE – Olimpíada de Ciências Humanas do IFCE em todo o Ceará.

18/11/2025
“Ceará Negro” no mês da Consciência Negra com estudantes do Ensino Fundamental II da Escola Municipal de Tempo Integral José Carvalho, no Conjunto São Miguel, bairro José de Alencar, em Fortaleza.

12/12/2025
Ceará Negro no encerramento anual das atividades do Projeto Vozes D´África, no Campus Liberdade, da Unilab, em Redenção.

 

ARTIGO
Fattú Djakité e a emancipação feminina
Por Flávio Paiva

Uma das vozes femininas mais poderosas da música africana na atualidade ressoa para o mundo a partir da ecozona continental da Guiné-Bissau e do território vulcânico insular de Cabo Verde. Fattú Djakité, 35 anos, ativista do autocuidado, da autoestima e da emancipação de mulheres africanas, vem cruzando novas fronteiras com o single “Badja Tina” (Diego Neves, Fattú e Ryan Helal), música-manifesto contra o casamento infantil e o abuso sexual, ainda presentes em muitos países.

Intensa, poética e inspiradora, com essa música ela traz aos agitos contemporâneos da agenda sociocultural um sentimento profundo de memórias e de relatos da oralidade. Quando canta “Suma burbuleta / Suma Karabá”, ela estremece os espíritos adormecidos, como uma mariposa bailarina espantando o mau agouro hereditário da misoginia e, na pele de uma feiticeira, buscando tirar o espinho do patriarcalismo cravado em suas costas.

A lenda do oeste africano que foi fonte para o belo filme “Kiriku e a Feiticeira” (1998), do diretor franco-argelino Michel Ocelot, é revisitada musicalmente por Fattú Djakité, que nasceu e passou parte da infância em Bissau, para mostrar que o segredo da maldição em Karabá está na libertação das deusas feridas em tantos e diversos contextos que ainda aceitam a violência contra a mulher, seus desejos e direitos.

Mergulhada nas origens, a cantora procurou respirar os ares da Dança da Tina, uma espécie de desabafo compartilhado, feito tradicionalmente por mulheres guineenses descontentes na situação de poligamia. Inicialmente, elas entoavam cantigas improvisadas quando iam lavar roupa no rio; depois, passaram a acompanhar o cantar umas das outras fazendo a percussão na cabaça que utilizavam para pegar água.

Capa do single “Badja Tina”. Foto: Dieg.

Com o tempo, essa catarse praticada em grupo de mulheres (mandjuandadi) incorporou temas da política e da economia, passando a assumir um lugar de referência na cultura popular da Guiné-Bissau em forma de coletivos femininos, dos quais participam também homens cúmplices na luta pela igualdade de gênero e por justiça social. A tina tornou-se um estilo musical, sem, no entanto, perder a função de transmitir mensagens sobre coisas que incomodam.

Badja quer dizer dançar. Tina é uma dança, um instrumento e um gênero musical. Fattú Djakité, uma grande cantora. “Badja Tina”, uma composição bonita, forte e ardente, com letra que expressa a vontade de viver sem amarras: “I misti badja tina” (Ela quer dançar tina). Uma combinação perfeita para a popularização em escala internacional. E tem vídeo nas mídias digitais, produzido pelo marido Dieg, músico de Cabo Verde, país onde residem.

A indumentária utilizada por Fattú no videoclipe dessa tina é uma reverência a Okinka Pampa, rainha matriarcal da Ilha de Orango, que viveu na passagem do século XIX para o XX, e que por duas décadas (1910 a 1930) liderou o povo Bijagó em ações de fortalecimento da transmissão dos saberes, no processo de abolição da escravatura e na construção de um acordo de paz para deter o controle colonial português na Guiné-Bissau.

Nessa gravação, Fattú Djakité usa saias de fibras de rafia trançadas e com coloração castanha feita a partir de argila. Uma pequena no pescoço e a outra da cintura para baixo. Separando as duas, uma cinta de contas vermelhas e uma banda de pano também da cor vermelha, decorada com espelhos redondos, com tiras largas que caem sobre a saia. Nos tornozelos, o Sadjo, instrumento popular feito de sementes, que marca e amplia o ritmo. Descalça, sentindo o chão!

 

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