Toca a campainha da infância. Dim-dom! Tem novidade saindo pelo portão do Museu Brinquedim. Dim-dom! Dá para ouvir nas páginas do livro “A arte que brinca: vida e obra de Dim Brinquedim”, edição apoiada pela Secretaria de Cultura do Ceará, com recursos da Lei Paulo Gustavo, para todo mundo ver. Dim-dom!!!

Os relatos dessa autobiografia juntam significantes e significados, brinquedo e brincadeira, colocando em movimento ilustrativo o que se move pela percepção da arte em direção ao brincar. Dim passeia de helicóptero quando faz um helicóptero, cai e se levanta com persistência ao criar joões-teimosos e até saúda a chuva em telas com crianças de braços erguidos ao sabor de pingos brancos em céu azul.

Cada obra desse artista visual brincante é um misto de entra-e-sai do espírito inventivo na originalidade da sua vontade, como se tudo existisse em função dos sentimentos lúdicos. Ele diz: “No meu trabalho, conduzo a alegria que colho das coisas simples”. Essa frase diz tudo, mas ele suplementa: “Todas as minhas experiências e todo o meu caminho de vida entram no meu processo de criação”.

Não foram poucas essas experiências em andanças entre oficinas e feiras de brinquedos populares, histórias de trancoso, causos, lendas, conto fantástico de oralidade, ilusionismo circense, cheiro de mata e múltiplos encantamentos. Andou muito, ora deslizando no mar azul do Cisne Branco da Marinha, ora desviando-se das garras do Leviatã pelas praças de muambas, ora no fluxo de novas espiritualidades New Age, ora na futrica do beiju das quermesses interioranas e ora trançando por galpões-ateliês na Praia dos Amores.

A chave de segurança criativa do Dim tem segredos em quatro lados. Um deles é produzir cotidianamente com a matéria-prima do mundo que estiver ao seu redor. Outro lado é a sensação de estar espalhando a alegria das brincadeiras enquanto trabalha. Tem ainda o lado da educação cogeracional em sua obra, uma vez que seus brinquedos e pinturas aproximam crianças e adultos. E o lado que destrava de vez o seu portal de criação é a máxima de que com muitos amigos é melhor de brincar.

Bonecos de Dim Brinquedim na Festa do Saci de 2009, em Fortaleza. Foto: Sara Maia.

O artista reflete que cada boneco que produz tem um pouco de alguém que passou perto dele. Declara que gosta de ter amigos e reforça que as brincadeiras compartilhadas são as mais divertidas. Reconhece como seus maiores incentivadores os amigos que gostavam de brincar com os brinquedos que ele fazia. Trabalha brincando, sempre com a ideia do outro presente. Isso faz com que a arte do Dim Brinquedim provoque dimensões empáticas no animismo infantil.

Os brinquedos gigantes que ele cria para parques infantis, mais do que unir grupos de crianças ao ar livre, tornam-se prolongamentos imaginários, que permitem a ação dos corpos da meninada por dentro de gatos com línguas de escorregadores ou em saltos sobre vértebras coloridas de cobras rastejantes. No Museu Brinquedim, essa expansão do sentido fantástico completa-se com a caminhada na trilha ecológica que leva ao encontro do Saci Pererê.

Nesse livro de atraentes e encantadores relatos sequenciados, Dim enfatiza a aliança afetiva e cultural com a filósofa Ângela Madeiro, com quem juntou as asas para voos mais altos, reforçando mais ainda essa história de vívido sentimento. O casal tem dois filhos, a Risa e o Ud, ambos com participação orgânica na transmutação do ninho de Pindoretama ao que veio a ser o Museu Brinquedim, referência brasileira de espaço com peças renováveis, perenizadoras da memória coletiva do brincar e da brincadeira. Dim-dom!!!

Fonte:
Jornal O POVO