Tenho visto muitas pessoas trocando a busca por consistência autoral pela simples validação de postagens nas redes socio-comerciais e políticas de internet. Esse é um fenômeno resultante da proliferação de elogios superficiais comuns nesses ambientes em que a opinião é mais um vício do que a expressão de um modo de pensar.

Quando a aprovação social é futilmente exacerbada, a admiração ganha contornos enganosos e a pequenez tende a se propagar no falso brilho da aparência virtuosa. De repente todo mundo é multiartista, resiliente, ativista, orgulho da raça, deusa ou gente que não cansa de ser linda. Quem escreve e quem faz arte necessita de muita cautela para não se fragilizar.

Diante dessa dinâmica de exaltações repentinas e de cancelamentos raivosos, quem escreve e quem faz arte está sempre tentado a esmorecer e a ceder à suposta grandeza da superficialidade. É claro que muitos talentos conseguem se ajustar e conviver na teia digital sem perder a essência e sem ceder ao falso brilho e ao seu poder de frustrar indivíduos e coletividades.

“Abismo de Sentimentos”, obra da artista visual milanesa Cristina Bernazzani.

Seja como for, faz-se imprescindível ter alguém de confiança amorosa, intelectual, espiritual ou de referência artística que possa balizar o nosso comportamento. Nesse aspecto, tenho um eterno agradecimento a duas pessoas que me alertaram para não cair nas armadilhas dos falsos elogios: o poeta Francisco Carvalho (1927 – 2013) e o contista Moreira Campos (1914 – 1994), que prefaciaram o meu primeiro livro, “A face viva da ilusão” (Paulo Peroba, 1982).

No dia em que fui à casa de Francisco Carvalho buscar o texto, ele alertou-me de que os poemas tinham muito o que melhorar, mas que havia feito o prefácio mesmo assim porque enxergava por trás daquela poesia alguém que tinha uma contribuição a dar ao mundo literário. E escreveu: “O poeta precisa compreender que a sua adesão ao sentimento poético implica em rupturas. Rupturas que o transformam num ser dissidente, num solitário rodeado de realidades imperativas (…) O maior risco que um poeta corre é deixar-se embalar pelas fantasias da subjetividade satisfeita”.

Com Moreira Campos não foi diferente. Pedi a ele para prefaciar o conto que integra o livro. Ele me disse claramente que aquilo não era um conto, mas que tinha feito o prefácio confiando que eu teria o meu lugar na literatura. E escreveu: “Encontro no autor mais um cronista-poeta do que propriamente um contista (…) Tudo será: crônica, leveza, jogo de imagens, esboços de sentimentos vagos, até mesmo, na essência, mensagem poética de difícil decifração, menos conto”.

Com essas lições, aprendi que a insatisfação instigadora da produção cultural deve estar atrelada à vontade de transbordar o que nos emociona e o que nos torna cidadãos, e não algo limitado ao reconhecimento. Esse posicionamento elimina qualquer sensação de falta do que escrever ou compor, simplesmente porque o que quer se tornar público está desassossegado dentro de nós. Por conseguinte, os livros e as músicas que faço saem de casa e assumem as próprias relações com leitores e ouvintes.

Na arte, na poesia e na literatura, a primeira pessoa, seja do singular ou do plural, indica que quem fala, de fato, quer ouvir. Esse retorno de subjetividades deve ser direcionado mais às obras do que a seus autores e autoras. Ninguém acha ruim receber reconhecimentos sinceros, naturais e frutos de interesses comuns. No entanto, diante da pequenez do falso brilho, nada parece mais razoável do que evitar o esvaziamento do que nos move enquanto pessoa.

Fonte:
Jornal O POVO