O mundo vive o estrondoso impasse provocado pelo declínio do imperialismo estadunidense, que cai destruindo o que não é espelho. Pouco se especula, mas, aconteça o que acontecer, a África não será mais como foi no seu passado colonial, neocolonial e descolonial, nem no seu presente de luta entre dependência e decolonialidade.

É comum observar o continente e sua diáspora a partir da historiografia e da comunicação de massa eurocêntrica e estadunidense, que influem sistematicamente para que a imagem da África se concentre nos campos do racismo, do preconceito, da discriminação e da perpetuação de configurações políticas e econômicas de caráter escravista.

A revelação de beleza, sabedoria, ancestralidade e riqueza cultural e ambiental das diversas regiões desse continente, em suas potencialidades e contradições, é indispensável para o rearranjo da ordem mundial. Não apenas por seus recursos naturais, como o ouro, o diamante, o cobalto, o petróleo, o urânio, os fosfatos, os solos férteis, as terras raras e as energias limpas, mas pela herança ocultada de experiências que podem contribuir para a oxigenação dos tempos atuais.

Mesmo com a interrupção colonial que alterou o desenvolvimento de modelos civilizacionais no continente que deu origem à humanidade, inclusive desprezando o papel da liderança social e política feminina, já houve muitas conquistas. Entre elas, o Pan-africanismo, do jamaicano Marcus Garvey, do bahamense William Du Bois e de tantos outros que iniciaram o século XX falando da volta às raízes e do orgulho racial, e a Negritude, do martinicano Aimé Césaire e do senegalês Léopold Sanghor, que contestou a assimilação e propôs a noção estética de africanidade.

Detalhe da série “Danças Africanas” (1970), do pintor nigeriano Ben Enwonwu (1917 – 1994), que celebra a primeira década da independência do seu país.

Após a Segunda Guerra (1939 – 1945), a perspectiva afrocentrada tomou conta de diversos contextos e países do continente. O que o filósofo congolês Valentim Mudimbe chamou de “biblioteca colonial” passou a ser substituído por uma nova história e literatura na voz de pensadores como o malinês Amadou Hampaté Bá (transcendência e comunidade), o ganês Kwame Nkrumah (integração e cooperação), o brasileiro Abdias Nascimento (África unida e antirracismo), o burquinense Joseph Ki-Zerbo (história local), o martinicano Frantz Fanon (subjetividade contaminada), o senegalês Cheick Anta Diop (produção científica), o guineense Amilcar Cabral (sem colonialismo e sem fascismo), o nigeriano Wole Soyinka (um mundo com vivos e ancestrais), o camaronês Achille Mbembe (paradigma interpretativo) e o moçambicano Severino NGoenha (liberdade sem racismo nem tribalismo).

O ponto de inflexão atual é o controle do continente por parte dos próprios africanos. Mas de qual continente? Para que haja reconhecimento e aceitação desse passo, com repercussão na igualdade racial em todo o mundo, africanos e não africanos precisam mudar a leitura sobre a África. Espalhar impressões sobre o continente, evitando estereótipos, me parece um bom caminho.

É sobre isso que, a convite do Colégio de Estudos Avançados da Universidade Federal do Ceará (UFC), debaterei com a professora Joelma Gentil, militante do Movimento Negro Unificado (MNU), e com o professor Arilson Gomes, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e da UFC, ambos pesquisadores do GT Emancipações e Pós-Abolição (GTEP), da Associação Nacional de História (ANPUH).

SERVIÇO
Lançamento do livro “Ceará Negro e outros temas de África”, de Flávio Paiva
Data: 07/05/2026 (quinta-feira)
Hora: 18h
Local: Auditório da Reitoria / UFC

Fonte:
Jornal O POVO