As artes correm o permanente risco de desmemória no Ceará. Sem uma política cultural estratégica capaz de sistematizar conectivos artísticos, restam bolhas de dispersões e desperdícios em um inventário negativo de patrimônio do esquecimento. Daí a contenteza que dá toda vez que surgem produções consistentes e de qualidade realçando o que está abafado nessa trama.
O documentário “Conservatório de Música Alberto Nepomuceno – Memórias, Desafios e Encantamentos”, do diretor Helton Vilar, lançado dia 02/04 no Cineteatro São Luiz, traz a vibração de fuga do isolamento de uma escola com quase um século de presença ativa na afinação de Fortaleza, quando a cidade completa 300 anos de sua fundação.
Assim como o som necessita de movimento para existir, a música de um lugar é medida pelos acontecimentos da dinâmica sociocultural. A iniciativa da Casa de Vovó Dedé oferece o fascinante, afetuoso e desafiador percurso da instituição de música mais antiga do Ceará (fundada em 1938) com funcionamento contínuo.
O filme tem a cadência dos elementos essenciais das falas, das imagens e da arte musical. O diretor e roteirista Helton Vilar e o curador Ewelter Rocha foram estudantes do curso de música da Uece, quando esse departamento funcionava nas instalações do Conservatório, sede emblemática que foi perdida com a expulsão judicial movida pela UFC, dona do imóvel, o qual acabou ficando abandonado.
A direção poética de Helton desperta para a consciência estética assumida por mulheres que na primeira metade do século passado (XX) incorporaram o piano ao cotidiano da cidade, passando a fazer intervenções artísticas na sociedade com o emergente gosto musical expresso com os dedos nos teclados. Na primeira hora estavam lá Branca Rangel, Nadyr Parente e Esther Salgado, colocando o Conservatório em rota de perenidade.
O som feminino ao piano ressoou pelos ares de Fortaleza, com recitais ao vivo nas ondas da Ceará Rádio Clube. Atitudes como essa soam no documentário como uma conquista de mulheres, uma vez que, inicialmente, o piano servia à intimidade da casa e suas visitas ou em eventuais cerimônias socialmente distintas à mulher de prendas artísticas.

Exibição do filme de Helton Vilar sobre o Conservatório Alberto Nepomuceno no Cineteatro São Luiz, em 02/04/2026. Foto: Divulgação.
Àquela época, quem podia adquirir um piano se colocava no centro de interesse social e cultural urbano fortalezense. O piano de cauda moderno, com placa de metal, era uma novidade que vinha da revolução industrial e havia se tornado comum no seio das elites, entrando na vida das pessoas que tinham acesso à então expansão social e artística europeia.
Com os pianos vinham as partituras de grandes compositores como Mozart, Beethoven, Chopin e Liszt. À vista disso, seria natural que todas as atenções fossem voltadas para eles, mas não foi o que aconteceu. A voz do piano no Ceará passou a ter o sotaque local, com obras de compositoras e de compositores cearenses, mas também da cena musical brasileira.
A prova cabal dessa disposição de legitimidade cultural foi o fato de o nome do conservatório ser em homenagem a Alberto Nepomuceno. O compositor e regente fortalezense estabeleceu as bases para o que viria a ser a música brasileira plural e diversa ao levar o batuque e o violão para a sala de concerto, colocar reco-reco em orquestra, potencializar a modinha como fonte da canção e incentivar Villa-Lobos, apresentando-o publicamente ao Brasil.
Filme com acentuação em relatos femininos da memória coletiva de uma instituição notabilizada também pelo movimento das cordas e do canto coral. Sons e sonhos que permanecem. Uma dádiva!
Fonte:
Jornal O POVO

