O ordinário na realidade do consumismo é a publicidade sequestrar o imaginário infantil e o mundo da criança para oferecer produtos que empacotam essência artificial de imaginação. As exceções nascem quando a sociedade conta com instituições que pensam infância e território fora da centralidade mercantil.
O jogo de tabuleiro “Imaginário Cariri”, que acaba de conquistar os prêmios de Melhor Jogo, Melhor Jogo Serious Game e Melhor Arte no Simpósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital (SBGames 2026), em evento realizado na quinta-feira passada (01/10) na Universidade Federal de Goiânia (UFG), é um desses casos singulares.
Lançado em maio deste ano no 7º Seminário Internacional Bacia Cultural Sociobiodiversa da Chapada do Araripe – Patrimônio da Humanidade, em Nova Olinda, esse jogo foi desenvolvido conjuntamente por professores e estudantes do curso de Sistemas e Mídias Digitais (SMD), integrantes de seus projetos de extensão (UFC) e crianças da Fundação Casa Grande (FCG).
Pensado para crianças de 11 anos, inclusive com recursos de acessibilidade para deficientes visuais, o jogo foi integralmente produzido no Ceará. São 80 cartas de memórias, entre lendas, lugares, mestres e objetos, cinco marcadores de imaginário e 20 cartas de personagens criados e desenhados por meninas e meninos coautores do trabalho.
O objetivo do jogo, enquanto brincadeira de conteúdo, é fomentar o compartilhamento de memórias e de saberes sobre a região. Ainda por cima, tem como ganho suplementar o desafio de atrair a atenção das crianças para um divertido passeio pelo contexto de interligação natural e cultural do Cariri, em que coloca reciprocamente imaginação e lugar a serviço um do outro.
Como o próprio nome diz, a pegada é o imaginário, palavra que consubstancia a imaginação e que aproxima simbolização e cognição. Nela, as pulsações do ecossistema, da tradição e do futurismo Cariri convergem através de vivências, percepções e ações, propiciando coexistências e recriações na singularidade de quem joga.
A longeva parceria entre o SMD e a FCG foi fundamental para o trabalho de mediação e coparticipação desse projeto, que tem a infância como fonte e protagonista. O letramento Cariri das representações coletivas caririenses em suas dimensões ambientais e de práticas culturais está realçado no rico leque de ícones da região que compõem o jogo.
Engajamento, troca e cocriação são atitudes próprias de uma pedagogia da participação. No jogo “Imaginário Cariri”, nota-se que houve uma predisposição da extensão acadêmica e da espontaneidade infantil e juvenil para um resultado tão bem articulado em seu sistema de intepretação do tema. Estava tudo dentro das crianças, o assunto também era elas, que nele se manifestaram.
A escolha dos cinco marcadores de imaginário é bem reveladora da interação que definiu o repertório do jogo. Isso se estende desde o pequeno dinossauro emplumado Ubirajara Jubatus ao indígena ancestral Kariuzinho, da espada de madeira do Brincante de Reisado ao elmo vermelho do Soldadinho do Araripe, pássaro endêmico da Chapada do Araripe, e do Padre Cícero à Menina Benigna.
Com a infância fazendo junto, o “Imaginário Cariri” traz à luz elementos natos e adquiridos em um jogo de familiaridades em sua arqueologia de significantes. Prova disso são as 20 cartas de personagens com desenhos feitos pelas crianças, entre os quais a Dindilda, criadora de dindins com poderes mágicos, e o Lapinho, um garoto que mistura timidez e alegria em seu comportamento. Ah, Cariri!!!
Fonte:
Jornal O POVO


