Por onde é possível o corpo sentir, a música do novo álbum da cantora baiana Rebeca Matta chega elegante, sincera e imersiva. Ouvir “Pélvica” (Alá, 2026) é deparar-se com um conjunto integrado de sons, movimentos, temperaturas e substancialidades verbais, que se relacionam com a força anímica de uma artista em sensorialidade máxima.
Ela explora as margens, onde a vida é mais fértil, proporcionando audição íntima da sua música em expansão; uma música que não se limita a ser escutada, que quer ser dança e consciência em sublimação pelas nuances do gozo, enquanto o sólido da composição vira gasoso nas sensações da arte, sem passar pelo simples estado líquido do consumo.
Faixa por faixa, as vibrações sonoras e conceituais de “Pélvica” vão alterando percepções sobre os sentidos polissêmicos de corpo. Os músculos do som e do verbo se contraem e relaxam, reverberando razões biológicas, erógenas e de autoconhecimento, tangenciando as superfícies da realidade e suspendendo o ar dos fenômenos subjetivos.
Todas as composições do álbum são da própria Rebeca Matta. Nesse bem construído repertório autoral de dez músicas, a artista deixa o mundo gritar, mas também vibrar em ciranda eletrônica de proteção (Gira). Desfaz qualquer apelo de que só existe um instante para se viver (Sem perceber) e, por prática de quem escuta o silêncio do mar dentro de si, afirma que a onda é escutar o outro, o outro lugar (O som do silêncio).
A transmissão do som e do verbo entre o corpo da cantora, seus desejos e intenções, e o corpo de quem a escuta, tem frequência clara, direta, sem intervalos e sem cortejo de espera. Ouvir “Pélvica” é penetrar sutilmente nessa vivência com os sentidos abertos para receber sua presença intimamente vinculada ao mundo circundante. “Uma multidão lá fora, dentro de mim” (Dentro da minha cabeça).
Sentir o toque da voz, da ressaca do mar, requer se dar contar de que “Todo dia a gente nasce diferente” (Aconchego) e precisa cuidar do amor. “Eu te encontro todo dia / Mesmo quando a gente nem se vê” (Me perdoa). É necessário também zelar pela perenidade no fluxo da vida (Olho no olho). Rebeca Matta celebra essa convicção ao lado de Chico César, Ênio Nogueira, Guilherme Kastrup, Lan Lanh, Larissa Luz, Mateus Aleluia e Roberto Barreto.
Perceber “Pélvica” passa por muitas variáveis. Este é o quinto álbum de uma talentosa criadora que canta com todo o corpo dedicado à sua jornada musical independente e à ampliação de sutilezas na relação entre som e música, sempre com rigor artístico e técnico. Metabólica, sua obra tem a dinâmica das energias intuitivas dos organismos vivos. “Onde você está?” (Sair por aí), “Não vá fingir!” (Ela) e “O mundo só gira se eu danço” (Danço) são estímulos do entorno que estão dentro do si.
Produção encorpada, com sonoridade híbrida e arranjos que suavizam a pista de dança. Assim é “Pélvica” em sua convergência de pop experimental, música plural brasileira e música eletrônica underground. Esse senso de confluência abraça também o design da capa do álbum, em que a cantora, que é artista visual, aparece com uma alfaiataria conceitual de cunho simultaneamente cibernético e ancestral. No peito, um broche com o símbolo da pélvis, lembrando que é ela o centro de fecundação da vida e o eixo de sustentação e articulação do tronco com as pernas, o que permite dançar.
Fonte:
Jornal O POVO


