Depois de um bom tempo eclipsado por circunstâncias de vida não vivida, com perda da força impulsiva e da eloquência da paixão, Daniel Groove, compositor e cantor brasileiro, nascido no Ceará, encontra forças na essencialidade de sua brilhante experiência como artista e retoma os pontos cardeais da existência e da música com um envolvente álbum de canções desejantes.
Gravado no estúdio Canto da Coruja, em Piracicaba, “Quarto Secreto” (Sete Sóis/Tratore) é um disco de sensibilidade pop-sentimental, com arranjos refinados e acolhedores. A voz de Daniel Groove evoca delicadeza franca em oito canções que encontram carências desaparecidas e conseguem religar percepção e ação na obra do artista.
A capa, de Dani Porto, traz um olho no buraco de uma porta de madeira apodrecida, mas com flores do lado de fora, refletindo o conceito existencial utilizado por Bertrand Mandico no curta “Boro in the Box” (2011), com a diferença de que a caixa que aprisiona o personagem do filme não tem cores externas como em “Quarto Secreto”. Esse também é o tom do som, que tem produção musical de Rian Batista e direção artística do próprio Groove e de Flávio Alves.
O show de lançamento será no próximo sábado 31, às 19:30, com entrada gratuita, no anfiteatro Dragão do Mar, em Fortaleza. Músicos da banda que gravou o álbum – Rian Batista (baixo) e Ricardo Prado (teclados e sanfona) – estarão no palco ao lado de Bruno Rafael (guitarra), Igor Ribeiro (bateria) e Carlos Gadelha (guitarra). No repertório, as canções do novo disco e sucessos do cantor, como “Jardim Suspenso”, “Você sabe bem o que me resta” e “Giramundo”.
Nesse álbum em que Daniel Groove retoma a leveza da vida pela arte, até as canções mais suaves têm a força dos motivos que as fizeram saltar do coração encolhido para o irradiar dos pulsares do mundo. São composições com intrínseco emprego semântico do som e da natureza melódica da palavra. Simples, pop, sentimental e consistente. Bom de ouvir, “Quarto Secreto” é aderente, com suavidade, sutileza e dizeres viscerais de uma interpretação que mima a respiração.
A bricolagem poética e sonora das composições do novo álbum de Daniel Groove conta com parcerias de Daniel Ratto, Danilo Guilherme, Dito Bruzugú, Rian Batista, Saulo Duarte e Marcos Vitoriano. Nela, as fantasias mexem em desejos e as querências saem aspirando presenças através da dança que flui da melodia das palavras, em reparos de instintos apagados traduzidos em segredos, no canto mais secreto e sagrado do quarto onde o amor oferece medidas práticas da vida.
Assim, o brilho da manhã explode como um alarme das flores e o prazer recuperado recorta o tempo. A história continua para quem quiser escutar o que é mesmo espera e gratificação de reencontro, quando alguém pede socorro para poder cumprir o compromisso que fez de ser sempre o que prometeu. De repente, tudo é atravessado pela melancolia da separação, revelada na descoberta de que a outra pessoa já não condiz com os ares do recomeço.
O repertório de “Quarto Secreto” é pura música literária. Nele, o vazio é destampado para dar conta da afetividade da escuta, como representação da ausência da dor. Confidências e revelações se aboleram como orações em emoções súbitas de fosso e fossa. A falta de pontos de estabilidade para sentir passa por situações primitivas de manifestação do amor coberto de dor, até alcançar a resposta à necessidade vital da volta, quando Groove, intenso e pop, canta a contemplação na beira do abismo e afirma que bom mesmo é “ser feliz na chuva”.
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