Pode parecer exagerado falar em soberania quando se trata das questões envolvendo casas de apostas on-line. O debate circula no entorno da capacidade de o Estado brasileiro regular ou não as ações da força invasora das bets, causadoras de alarmantes problemas econômicos e de saúde mental no país. No entanto, mais do que a grave complicação que se observa no momento, a atuação dos cassinos virtuais de palpites esportivos traz ainda riscos à soberania brasileira.

Vale lembrar antes de tudo que as bets são estruturas corporativas econômicas transnacionais, em sua maioria europeias e estadunidenses, operadas em centros financeiros que mantêm o anonimato dos clientes e o sigilo sobre a origem do dinheiro estrangeiro que gerem. É para esses “paraísos fiscais” que seguem continuamente muitos bilhões retirados do povo brasileiro em troca de entretenimento e de serviços nocivos, em uma sangria de dinheiro apoiada por sócios minoritários locais.

A luta pelo fim das bets, ou pelo menos por um controle efetivo de suas atividades, vem sendo travada pelo Executivo federal, através de medidas provisórias restritivas a essas plataformas, mas as bancadas da bola, do vício e do anarcocapitalismo no Congresso Nacional têm impedido avanços nesse sentido. A situação é confusa porque essa dependência em massa tem fortes aliados, como a indústria da doença e os clubes de futebol, e concorrentes incomodados, a exemplo dos financistas de dízimos e dos comerciantes varejistas.

Como a sociedade civil brasileira está segregada por interesses específicos, parecem poucos os grupos sociais que enxergam a ludopatia na sua dimensão de subordinação geopolítica. Nesse meio-tempo, vai acontecendo no Brasil o que ocorreu na China do século 18, quando o Império Britânico criou um comércio de venda de ópio naquele país que levou parte significativa da população à dependência. Assim como o consumo de bets hoje, a Europa e os Estados Unidos eram à época grandes usuários de ópio, droga produzida a partir da flor de papoula.

O futebol e a dependência das receitas das Bets. Arte: Kleber Sales/CB.DA Press (20/09/2026).

O governo chinês tentou proibir o comércio dessa droga, que era produzida na Índia, então colônia britânica, e foi acusado de estar atrapalhando os negócios da Companhia Britânica das Índias Orientais. Em meados do século 19, os ingleses declararam guerra à China e venceram, obrigando os chineses a abrir o país à exploração capitalista, inclusive cedendo Hong Kong até 1997. Em seguida, houve uma segunda Guerra do Ópio, vencida por ingleses e franceses, que reforçou a cessão da soberania chinesa aos europeus.

Os motivos que desencadearam a Guerra do Ópio em território chinês são muito semelhantes aos que se encaminhariam para uma eventual Guerra das bets em terras brasileiras caso não haja pulso firme dos dirigentes do país comprometidos com a soberania e uma pressão integrada da coletividade diversa que forma a cultura brasileira para dar um basta nesse tipo de neocolonialismo digital. A China perdeu, aprendeu e deu a volta por cima. Não tem cabimento o Brasil fingir que não está percebendo a cilada em que caiu.

Apostar passou a ser um produto espontâneo do desencanto com a antipolítica praticada no Brasil. Deslocadas da realidade pela compulsão ao fascínio do jogo de azar, as pessoas, submetidas ao tensionamento das recompensas, não conseguem direcionar a vida para ideais, restando-lhes a paixão alienante das tentativas de serem premiadas. Sob o domínio das bets cresce o transtorno imaginal que reforça o enfraquecimento da soberania brasileira.

Fonte:
Jornal O POVO