O Circo Voador entrou em modo de flutuação com o show de aniversário de 90 anos do compositor e cantor Tom Zé, sexta-feira passada (09/10), no Rio de Janeiro. A gravação está no YouTube para quem, como eu fiz, quiser seguir essa nave em sua viagem solta por camadas conceituais e imagéticas perturbadoras. A originalidade da força motriz desse filho brasileiro de Irará continua maravilhando plateias com sua forte carga transgressora. Antes e depois do show teve o DJ Marcello MBgroove.
O que acontece quando uma festa tão bonita se dá em um tempo tão horroroso de ascensão da violência como ideologia? A resposta do aniversariante está na irrupção artística: “Pois o que salva a humanidade / é que não há quem cure a curiosidade”, canta na abertura do espetáculo, acompanhado por uma banda altamente classuda, formada por Andréia Dias (vocal), Cristina Carneiro (teclados), Daniel Maia (guitarra), Fábio Alves (bateria) e Felipe Alves (baixo).
Ao vivo mesmo, metafísico e não mensurável, Tom Zé impressiona com sua estética dramatúrgica, de vida como teatro, em dissonância com o degradante palco geral do mundo. Fala a língua da experimentação elaborada e seus dispositivos simbólicos, como se os pensamentos saíssem pelos poros. Tem palavras, imagens e gestos de quem percebe e sente a semântica dos atos emocionais da realidade sertaneja e urbana.
Não por acaso, no dia 11 de outubro de 1936, quando chegou ao mundo pela caverna da “nave mãe”, pedindo água à dona Maria Helena Santana, e querendo que o seu Éwerton Martins de Cerqueira lhe desse comida, o bebê Antônio José Santana Martins balbuciou os primeiros sons de um cancioneiro que viria a ter quase 500 obras. “Dudu, bidu, bidu, bidu”. Quando cresceu, impactado pelas armadilhas do consumo, compôs: “Entrei na liquidação / Saí quase liquidado / Vinte vezes, vinte meses / Eu vendi meu ordenado”.

Tom Zé na comemoração de seus 90 anos em show no Circo Voador. Foto: Michelle Castilho (09/10/2026).
No mundo da indústria fonográfica e do entretenimento, é comum o sucesso levar cobaias a pensarem que estão comandando a mente controladora das corporações. Existe até uma piada em que um ratinho de laboratório diz orgulhoso que se considera o máximo porque, toda vez que aciona a barra na câmara de condicionamento, alguém lhe dá comida. Não ter aceitado ser treinado é uma grande distinção de Tom Zé no campo da música.
Desobediente às regras impostas à atividade artística e abraçando o curso de suas próprias ações, ele desvia-se das validações, sendo bem-sucedido como fenômeno anti-heroico. As vertigens do abismo da massificação não o assombram. Antes de tudo, sua obra é ideia, conversão de fatos em signos, de pensamento contestador em prática artística e cultural.
Em vista da conjuntura política atual, com o Brasil correndo o risco de voltar a ser colônia, como escrevi neste espaço antes do primeiro turno das eleições (04/08/2026), a festa de Tom Zé tem um quê de superveniência, por imediatamente contribuir com a modificação do estado de ânimo de todos nós humanos que acreditamos na busca individual e coletiva por uma vida melhor. É como se Tom Zé nos mostrasse que é possível os neurônios vencerem os pixels com imagens inesperadas.
Cantando em pesponto de palavras supostamente alegres, ele subverte a ordem das promessas pelo contorno sufocante do que seria um indesejável destino. Isso é bem nítido na música “Vai (Amanhã de manhã)”, dele e de Perna Fróes (1944 – 2023): “Amanhã de manhã / quando a gente acordar / quero te dizer / que a felicidade vai / desabar…” A ironia está na alusão à falsa felicidade oferecida pelos detratores da democracia.
