As crianças brincavam aos redemoinhos no pátio da escola. Senti que a minha conversa com elas sobre Saci e antirracismo seria solta como as folhas e os ventos das matas. A escola municipal Vívian Maria Guedes, da comunidade Alto Alegre, no bairro São Bento, em Fortaleza, está atenta à valorização das referências próprias das culturas indígena e afrobrasileira em sua ação educativa.
A vivência das crianças com o Saci Pererê é um recurso pedagógico capaz de abrir caminhos antirracistas, a partir de um ser fantástico criado pelos povos originários, preponderantemente preto e com um leve toque de simbologia republicana dado pelos imigrantes europeus. Nesse campo de interações, a infância pode provar o quanto é divertido admirar as diferenças e os saberes sagrados.
Pedir licença para usufruir da força vital das florestas é um aprendizado muito significativo em um tempo de crise ambiental e de emergências climáticas. Nas sacizadas e nas festas do Saci, este tema emerge espontaneamente por pertencer intrinsecamente à constituição do próprio personagem. O Saci é um ser da mata, que une cosmogonias tupi-guarani e iorubá em sua essência.
O canto dos pássaros noturnos ecoado entre as sombras misteriosas criadas pela claridade lunar filtrada pelas copas das árvores foi chamado de Yaci (lua) Yaterê (partícula) pelos indígenas que habitavam o lugar que viria a ser o Brasil. Essa dualidade provocada pela imaterialidade da luz na floresta real foi sentida por escravizados africanos traficados para a então colônia portuguesa como manifestação de Ossaim e Aroni, divindades inseparáveis que têm o poder da cura pelas folhas e a força travessa de proteção da natureza.
Existem muitos relatos e interpretações sobre eles. A meu ver, a marcante representação de uma perna só se deve ao entendimento iorubá de que para ser completo o ser humano depende do equilíbrio entre a dimensão física e a encantada. A perna visível é a que cada corpo carrega por si; a outra, invisível, é conduzida pelos ancestrais.

Brinquedos do DIM em Festa do Saci realizada por Lucas, Artur, Andréa e Flávio Paiva no condomínio Maresias, em Fortaleza. Foto: Sara Maia (2009).
Deslocando-se em redemoinho, o Saci revela a incorporação do legado de Ossaim e Aroni acerca do gesto de se valer do ar em movimento para suspender folhas em uma consistente junção do que se pode ver com o que apenas dá para sentir, subvertendo a gravidade e, ao mesmo tempo, mantendo a conexão com o coração da terra.
Além de contribuições da cultura iorubá, originária da região africana ocidental que hoje compreende partes da Nigéria, do Benin e do Togo, o Saci tem elementos agregados das regiões de família linguística bantu, atuais Congo, Angola e Moçambique, a exemplo da escuta paciente, dos ensinamentos sábios e do cachimbo legendário dos pretos-velhos. O Saci com espectro mais indígena tomou o rumo do Brasil de dentro em forma de Caipora e Curupira.
Os enredos indígenas e negros misturaram-se ainda com simbologias dos contos de fadas dos imigrantes europeus, que trouxeram para o Brasil o barrete vermelho de ponta caída usado pelo Saci como símbolo dos ideais democráticos. Tanto é que esse gorro está presente nos brasões de estados brasileiros como a Paraíba, o Acre e Santa Catarina.
O Saci é um ótimo antídoto ao racismo para crianças. É conhecido em todo o país, tem fácil relação empática com adultos e pode ser encontrado onde quer que haja cobertura vegetal. Mesmo no mundo urbano, ele se faz presente nas praças, parques e jardins, sempre pronto para interagir com quem acredita nas ligações da realidade com o transcendente. Viva o Saci! Viva a escola antirracista!
Fonte:
Jornal O POVO

