Por onde vocês forem…

Lucas e Artur, filhos amados.

Vinte e tantos anos depois do nascimento de vocês, na minha posição paterna de retaguarda, vejo dois filhos com tudo o que sonhei, mesmo sem saber como isso se daria de fato. Essa relação de devir está relacionada ao curso de uma história de companheirismo que traçamos juntos com a mãe de vocês, sempre com a cautela de evitar cobranças antecipadas de futuro, e, assim, nos concentrarmos na alegria e no compromisso de existir como pessoas na coletividade.

Nesse percurso, tornei-me uma combinação de pai imaginativo com pai real. O pai imaginativo compôs cantigas para acolher vocês desde o nascimento. O pai real assumiu o duro papel de estimular o que considerava vital e proibir o desnecessário para que cada qual se encontrasse dentro de si e pudesse descobrir quem desejava ser e se organizasse para isso. Anima-me ver vocês irem em frente, e, para não ser invasivo, passei a repetir que “estou na área”, uma metáfora do futebol que afirma presença atenta e disposição para entrar na jogada a qualquer momento.

Tenho um enorme contentamento pela forma decente com que vocês tratam as pessoas com quem se relacionam, e pelo jeito de encarar a vida centrados no amor, na arte, no fazer com esmero o que precisa ser feito e nas andanças pelo mundo, com aguçado discernimento do sentido de beleza. São leitores, sabem que existir é imaginar mundos e que as ilusões homogeneizantes funcionam como forças de alienação. Vacinados de cultura, sabem também que viver é dosar bem fantasia e realidade.

Das tantas histórias de senso estético que ficaram em nós, costumo lembrar do dia em que, chegando na praia, a babá do Lucas apontou: “Olha o mar, Lucas”. No que ele comentou: “Não é malucas”, e complementou dizendo que seria melhor dizer: “Olha, Lucas, o mar”. Ainda nessa recordação celebrativa da estética, uma vez estávamos na sala de casa quando a televisão apresentou uma cobertura extensa do nascimento do filho de um príncipe inglês, referindo-se ao “bebê real”. Ao escutar aquilo, o Artur perguntou: “E os outros bebês são irreais?”.

Lucas, Flávio Paiva e Artur em mirante do pôr do sol no Pico de Chapman (Chapman’s Peak), África do Sul. Acervo pessoal (2025).

Essa escuta e essa percepção refinada certamente contribuíram com o processo de desmame de vocês e para tornarem-se jovens adultos independentes, morando desde cedo em outros lugares do país e do mundo, com autonomia para pensar e agir nas escolhas que pavimentam seus próprios caminhos. Isso me parece ainda pertinente a quem aprendeu a ter argumentações convincentes, mesmo diante da correlação desigual de forças com as convicções do pai. Não é à toa que, com simplicidade, vocês chamam a nossa atenção quando enxergam algo em que não estamos bem.

É imenso o prazer que a Andréa e eu temos pela confiança que recebemos de vocês, manifestada em um relacionamento pleno que um dia virou a sigla FALA com iniciais dos nossos nomes simbolizando vínculo mútuo. Fizemos Jornal Aventuras, Festa do Saci, Futebol de Sala e outras invencionices assinadas por essa marca de compartilhamento. E vocês seguem falando para nós dos seus planos de vida e nós dos nossos para vocês, continuamos viajando juntos sempre que conseguimos equalizar as agendas, e mostrando uns para os outros o que admiramos.

Filhos, saibam que, quando o Lucas nasceu, pensei que aquele seria um amor único. Aí veio o Artur, e senti que ele também era um amor único. Foi, então, que descobri que o nome desse amor que pode ser único em pessoas diferentes era o amor paterno que nascia em mim e segue por onde vocês forem, vivendo com o que consideram importante. Amo vocês!!!

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Flávio Paiva é escritor e cronista do Vida&Arte

Fonte:
Jornal O POVO