As ruas das cidades brasileiras estão cheias de carros elétricos. Uns são veículos grandes, de uso executivo, esportivo e para passeio da classe mais abastada; outros, modelos de porte médio utilizados pela classe média alta; e os compactos, comprados pelas classes remediadas. Os dois últimos têm sido comuns também entre motoristas de aplicativos.

Observo essa movimentação e lembro-me do Brasil como um dos pioneiros globais no desenvolvimento e na produção de carro elétrico, após a escassez de petróleo mundial decorrente da crise de 1973. A fábrica criada pelo engenheiro paulista João do Amaral Gurgel (1926 – 2009) apresentou em 1975 um compacto urbano, o Itaipu E-150 (Elétrico – 150kg), que não conseguiu viabilidade.

Mesmo assim, a Gurgel lançou em 1981 um furgão elétrico E-400, que, depois, saiu em versão E-500, descontinuado na mesma década. A carroceria feita de fibra de vidro com estrutura tubular de aço galvanizado foi a base de praticamente todos os veículos produzidos pela montadora. Os carros da Gurgel eram imunes à corrosão, o que os tornou ideais às regiões de praia. A facilidade para estacionar popularizou o pequeno Gurgel BR-800, o primeiro e único automóvel de fabricação totalmente brasileira.

O Ceará fez parte das investidas desse visionário. No início da década de 1990, ele tentou instalar uma fábrica da Gurgel no Eusébio. Por falta de visão estratégica dos governantes cearenses e dos órgãos nordestinos de desenvolvimento, o projeto de produção de veículos populares na Região Metropolitana de Fortaleza não vingou. Tivesse dado certo, é provável que houvesse automóveis elétricos da marca Gurgel circulando pelas ruas das nossas cidades.

O cenário de guerra tem traços da dolarização do petróleo, da transição energética e de abalos econômicos na disputa geopolítica mundial. Contee/IA.

É importante refletir que somente em 2003, o automóvel elétrico chegou ao mercado. O químico chinês Wang Chuanfu, que fundara a BYD em 1995 para a fabricação de baterias recarregáveis, mobilizou engenheiros e designers da sua indústria para a criação da divisão automotiva da empresa, que hoje é líder mundial de vendas de veículos elétricos. Naquele mesmo ano, os engenheiros californianos Martin Eberhard e Marc Tarpenning criaram a Tesla, fabricante que ocupa a segunda posição do setor no mercado internacional.

Após a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), os carros com combustíveis fósseis passaram a dominar o setor automotivo, parte por motivação dos veículos de combustão utilizados nos conflitos, parte pelo início do barateamento dos derivados de petróleo. Com a Segunda Guerra (1939 – 1945), o petróleo passou a ser a base do sistema econômico global, impulsionado pela industrialização de veículos poluidores das fábricas estadunidenses e europeias.

Em 1973, os Estados Unidos apoiaram Israel contra o Egito e a Síria, que reagiam a avanços israelenses em territórios árabes, conflito que resultou em um corte na oferta de petróleo que abalou a economia mundial. Em 2026, mais uma vez EUA e Israel estão juntos no genocídio palestino e na guerra contra o Irã, com efeito na circulação de navios pelo Estreito de Ormuz, voltando a causar impactos econômicos em todo o mundo.

Diante dessa realidade, noto que o meu olhar sobre veículos de emissão zero não tem apenas um caráter nostálgico pelo fato de o Gurgel ter ficado para trás na corrida do carro elétrico; ele está voltado para a capacidade do Ceará e do Brasil de se imporem na transição energética, enquanto lugares com enormes vantagens em energias renováveis para o suprimento interno e das cadeias globais descarbonizadas. Petróleo mata!

Fonte
Jornal O POVO