A ideia de que “o fim está próximo” é repetida de tempos em tempos. Os tiranos e as tragédias passam. O mundo segue. Estamos em mais uma fase de apocalipse, com o planeta e sociedades globais sendo destruídos por insensatez e abuso de força. Vai passar, mas, enquanto dura, parte significativa da humanidade fica mais vulnerável aos controles psíquicos e espirituais de doutrinas religiosas nem sempre tão divinas.
Pensando nisso, lembrei-me de um velho filme de Ingmar Bergman (1918 – 2007) em que o significado da existência é perseguido por um cavaleiro que, após lutar por uma década nas Cruzadas – as guerras santas medievais do século XIV –, retorna para casa em uma Europa devastada pela peste bubônica. Revi “O Sétimo Selo” (Suécia, 1957) na plataforma Mubi, e fiquei impressionado com sua atualidade.
Um forte ponto de ligação conjuntural é o estado de guerra entre o período do filme e os dias de hoje. Tempos de temor do uso de armas nucleares. Assim como o protagonista Antonius Block, interpretado pelo ator sueco Max von Sydow (1929 – 2020), muitas pessoas sentem angústia da condição de inutilidade a que estão submetidas pelo modelo competitivo e consumista de vida que levam, e não veem respostas do céu aos seus sofrimentos.
O cavaleiro de Bergman dá-se conta de que não havia nada de divino, nem de sagrado nas carnificinas em que participara. Deparado com a morte num cenário de pulgas e ratos hospedeiros da bactéria causadora da peste e de fé cega causada pelo medo de viver e de morrer, ele propõe jogar uma partida de xadrez antes de ser ceifado. A morte, sentindo-se desafiada, aceita. Sabe que não tem como perder, uma vez que sua função é cumprida sem preferência entre os vivos.

Cena do filme O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman, em que o protagonista joga xadrez com a morte.
Antonius Block quer ganhar tempo enquanto procura descobrir os motivos do sofrimento e da finitude, mas também realizar pelo menos um ato digno antes de morrer. Ele quer alguma prova objetiva da existência divina, por receio de ter vivido em vão, por preocupação com a salvação ou mesmo pela possibilidade de não haver paraíso nem inferno no Além-Mundo. Essa é uma chave que vem do medievo.
Bergman estrutura o roteiro com perfis sociais com os quais o cavaleiro interage entre uma jogada e outra no tabuleiro de xadrez em que prorroga a morte: os flagelantes, movidos por receios profundos de morrer e por um fanatismo que lhes tira a capacidade de pensar; um ferreiro desiludido com a crueldade vigente na penúria medieval; e uma família de artistas mambembes. Nas movimentações de cada um desses grupos do século XIV, fui percebendo o quanto eles estão presentes no drama do século XXI.
A diferença dos flagelantes do filme para os atuais é que hoje a influência religiosa predominante instiga que se flagele o outro como ponte para conquistas individuais. No caso do ferreiro, o imediatismo da sobrevivência o leva a agir apenas em situação intuitiva de justiça e compaixão, aspecto também notado em casos de tragédias ambientais, quando a curiosidade leva muitas pessoas a olharem nos olhos das vítimas em busca de ver o demônio, mas, assim como Block, só conseguem ver o pavor.
O terceiro perfil posto pelo diretor sueco é o da arte, do afeto e da vida simples como valores existenciais significativos. Ao salvar o casal e a filha do teatro ambulante durante uma tempestade, o cavaleiro honra o tempo adicional de vida que conseguiu jogando com a morte e toma seu destino, aliviado por ter conscientemente atuado em favor do sagrado em um tempo de horrores. Ingmar Bergman quis dizer que arte cura.
Fonte:
Jornal O POVO

