Está chegando a data em que o povo brasileiro decidirá se o país deverá, ou não, voltar aos padrões de subordinação inerentes às colônias. O dia 4 de outubro de 2026 – ou o dia 25 do mesmo mês, em caso de segundo turno –, poderá ser mais um marcador eleitoral do processo democrático ou uma decisão por maioria de anular-se na dinâmica geopolítica e econômica mundial, entregando-se como possessão administrativa territorial estadunidense.
Havendo a decisão pela entrega, a sociedade brasileira assumirá de vez uma pecha de inferioridade num percurso que, bem ou mal, evoluiu nos últimos cinco séculos. Convém lembrar que no início da invasão portuguesa, em 1500, o território que viria a ser o Brasil tinha cerca de cinco milhões de indígenas, dos quais restam 0,83% (IBGE 2022), embora muitos dos 45,34% que se declaram pardos sejam de ascendência indígena. A colonização impôs-se com muita violência, trabalho forçado, assassinatos e aculturação.
Entre os séculos XVI e XIX, os negociantes que controlavam o comércio de escravizados de regiões africanas para sua colônia sul-americana, que chegou a sediar o império português com a mudança da corte para o Brasil em 1808 – fato único na história do colonialismo mundial –, venderam quase cinco milhões de pessoas no tráfico transatlântico, à época o equivalente à metade da população da colônia, sendo hoje 10,16% o percentual de pessoas que se autodeclaram pretas, e que, somadas às pardas, totalizam 55,5% de negros no país.
Em sua complexa e controversa construção, as terras brasileiras apropriadas pelo colonizador tiveram um momento de inflexão entre 1815 e 1822, período em que o Rio de Janeiro sediou o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (ocidente, em árabe). Esse arranjo incluía o território norte-africano onde hoje é o Marrocos. O ponto chave dessa condição foi o fato de que, sendo um reino, o Brasil não poderia mais retornar à situação de colônia.
Com o alinhamento de interesses que resultou na Independência do Brasil em 1822, o reino lusitano tentou ficar com a região Norte, mas o exército que enviou para isso capitulou em 1823 após confrontos épicos dos quais participaram maranhenses, piauienses e cearenses, assegurando a integração da Amazônia ao território do então recém-criado Império do Brasil. Orgulho-me dos meus antepassados que, vitoriosos nessas frentes, deram o nome de Independência ao lugar onde nasci.
A abolição desastrosa da escravatura, em 1888, foi seguida pela queda da monarquia e início da construção da República, em 1889, e somente em 1930, com a chegada de Getúlio Vargas (1882-1954) à presidência, o Estado brasileiro foi fortalecido e estruturado com leis trabalhistas e indução à industrialização. Uma década depois, os militares, com patrocínio dos Estados Unidos, se apoderaram das instituições, em um regime ditatorial que durou de 1964 a 1985. Com a redemocratização do país, a Constituinte Cidadã de 1988 priorizou as instituições, a cidadania e as políticas públicas.
Esse caminho, que mesmo lentamente leva à sedimentação de equidades, tem sido negado por parte da população enganada pelos arroubos do presidente estadunidense e seus bajuladores entreguistas. Isso faz parte da experiência democrática. O espantoso é que, depois de toda essa dureza, a pauta brasileira esteja contaminada com a ideia de que, votando para que o país retorne à dependência análoga ao espectro colonial, um Brasil internamente autoritário e externamente obediente seria a imagem e semelhança do decadente império dos Estados Unidos.
Fonte:
Jornal O POVO


