Adolescente, Cesinha saiu de Catolé do Rocha e passou a morar em João Pessoa na década de 1980. Conseguiu entrosamento com artistas da capital paraibana e um dia foi convidado para participar da mostra coletiva “Lá vem a moçada”, que levava música e poesia aos bairros da cidade.

O poeta e músico Pedro Osmar, principal agitador do movimento, convidou Cesinha, mas avisou que ele precisava ter nome de artista para colocar no cartaz. Poderia ser César, como ele era mais conhecido? Não! Francisco Gonçalves? Pior! Foi quando Pedro Osmar propôs “Chico César”. E deu certo desde então.

Décadas depois, consagrado como artista de referência da música brasileira, Chico César revisita Cesinha e monta a turnê “Fofo”, com a qual reflete sobre a origem da própria criação artística e do seu perfil poético e político. Como bom contador de histórias, une violão e voz em um enredo de tração juvenil e barra estabilizadora de maturidade.

No show realizado no Centro Cultural da Caixa (10 e 11/09), como parte do Festival Palco Brasil, Chico César mescla o seu cancioneiro de contracultura juvenil com alguns de seus grandes sucessos, incluindo também uma música motivada pela citação “Não quero ser fofo / Quero ser a porra do amor da sua vida”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em seu livro Americanah.

Uma composição de cores, formas e movimentos simula o que naquele momento se passa na cabeça do jovem Cesinha e do adulto Chico César, com animações do Openthedoor Studios, fotos de Sil Ribas, figurino de Fernanda Yamamoto e cenografia e iluminação de Marisa Bentivegna, que acende sobre a cabeça do artista a coroa “Fragmentos de Sol”, peça artesanal assinada por Lariça Lopes, da Tropicana Feito à Mão.

Chico César no show “Fofo” realizado na Caixa Cultural Fortaleza. Foto: Flávio Paiva (10/09/2026).

As composições de Cesinha mostradas por Chico César têm tautologia poético-espiritual (Ererré), crítica a lugares que, mesmo elevados a patrimônio da humanidade, seguem com seu povo em estigma marginal (Pobre Vila Rica), romance de cavalaria catingueiro, cantado ‘em cima das notas’ como faz Elomar (Saudade Senhora Dona) e maracatu cearense à Ednardo (Esclaridão). Todas entoadas em um contínuo de vida dotada de sentido.

As ligações sem nostalgia entre os dois têm um valor duplo, tanto para quem acompanhou a passagem memorável de Chico César pela fenda criada entre os consagrados da MPB e os renomados vanguardistas quanto para a juventude que se vê na condição do Cesinha e pode, sendo ela mesma, espelhar-se em um artista que contornou a sina trágica da cor da pele e do menino simples do interior.

Chico César construiu uma obra sedenta de realidade sugada na paixão de existir, ora recusando, ora recusado em um sistema pouco afeito ao senso de igualdade. Aprendeu a permanecer pelo pensamento político do amor, da dor e da trama entre poder e sociedade. “Fofo” é uma espécie de resposta resultante desse destino que traçaram juntos, parte nos mesmos lugares e parte no tempo íntimo de cada concepção musical dos dois como artistas de exceção.

Parceiros do mesmo corpo negro e da mesma cultura insubmissa, Cesinha e Chico César parecem atraídos antes de tudo pelo que a música representa de força transgressora e empática. Um atravessou silenciosamente as pontes do tempo para assistir ao que se tornaria como cantor, e o outro retornou artista feito e com a escuta atenta à interioridade dos laços reais e fictícios da memória para ouvir-se na juventude, não apenas em palavras, versos e sons, mas para perceber-se na experiência de seguir em frente na integralidade da própria interpretação do mundo.

Fonte:
Jornal O POVO