A juventude periférica tem muito a dizer sobre a sua realidade cotidiana em escolas, associações, centros culturais e desportivos, clubes de arte e de literatura, grêmios estudantis, coletivos juvenis, conselhos de juventude e templos religiosos, desde que haja quem as queira escutar. A diretora carioca Lúcia Murat escolheu quatro escolas públicas do Rio de Janeiro para rodar o filme “Hora do Recreio” (2025), no qual escuta estudantes dos ensinos fundamental II e médio (14 a 19 anos) sobre temas como relações de gênero, racismo, drogas e confrontos entre traficantes e policiais.

Vi essa obra inquietante sábado passado (28) no Cinema do Dragão do Mar, em Fortaleza. Mesclado com encenação ficcional, esse documentário tem seu título extraído da fala de um depoente, no entanto, expande a palavra ‘recreio’ para uma conotação diferente de intervalo para diversão. Em “Hora do Recreio”, a pausa se dá para conversas sobre experiências de dor, aflição e ansiedade e suas repercussões na saúde emocional juvenil em estado de intimidade permanente com tensões e problemas extremos na sobrevivência comunitária.

Como é comum em grupos focais, ao recordarem como são afetados diante dessas situações, garotas e garotos evocam sentimentos profundos à medida que circulam suas histórias, crenças e expectativas. Falam a partir de diversas configurações familiares e da atmosfera perturbadora do entorno, onde são raras as perspectivas para um mundo mais acolhedor dos sonhos de juventude. O filme oferece informações que permitem ao espectador interpretar a condição humana em pauta, seja através da voz ou de gestos silentes e lágrimas como liberação emocional.

Cena do filme “Hora do Recreio”, de Lúcia Murat. Foto: Divulgação.

Gravado dentro de salas de aula, “Hora do Recreio” funde convicções individuais e memórias coletivas, indo além da soma de relatos da realidade privada. Dando o próprio exemplo, de mulher preta e periférica, a professora exalta a educação como campo de transformação social. Há algo de esperançoso entre essas fontes que saltam bloqueios de desigualdades e atravessam pontes sobre o mal-estar. A trilha sonora, do compositor carioca Bernardo Uzeda, acrescenta muito à interação entre linguagens presente no filme.

O recurso da encenação tem como base o livro “Clara dos Anjos” (1922), do jornalista e escritor negro carioca Lima Barreto (1881 – 1922), romance pioneiro na revelação de situações misóginas e racistas, as quais desgraçam a vida de uma jovem preta engravidada e abandonada por um branco mulherengo na Rio de Janeiro do início do século passado (XX). Incongruências de colorismo utilizadas pelo autor, como “mulatinha”, não o condenam, apenas alertam que há termos de contextos passados que não cabem mais na atualidade. O mesmo ocorre com a menção à música “Da cor do pecado” (1939), do compositor também carioca Bororó (1898 – 1986), quando uma estudante questiona onde fica o pecado do corpo branco.

Ao trabalhar esses vínculos entre a realidade atual da juventude vivendo em áreas de risco e obras escritas no passado, o filme cria parâmetros reveladores de avanços, mas também do quanto o preconceito persiste. Conectados presencialmente e dispondo de suas emoções para contar de traumas cotidianos e de como reagem aos infortúnios que os cercam, as estudantes e os estudantes de “Hora do Recreio” apontam para formas e visões concretas da realidade, com lições positivas de que o recreio não deve ser uma prerrogativa somente do mundo escolar, mas da educação, onde houver compromisso com o tempo de escuta.

Fonte:
Jornal O POVO