Por uma trilha na mata, o guia Quewuaia me levou até o local em que normalmente as pessoas tomam banho no trecho do rio Lucala que antecede as cataratas formadas pelas famosas Quedas de Kalandula. Fiquei contente por estar ali naquele remanso entre pedras cor de bronze e um fundo de areia que oferecia conforto para os pés. Mas a alma de menino do sertão que me agita de modo superlativo toda vez que estou perto de água corrente queria mais.

As águas passavam por todos os lados em um farfalhar medonho, e aquilo me inquietava como ser. Sensações além dos cinco sentidos me desafiavam ao movimento do corpo do rio. Banho de refrescância é uma memória declarativa que trago da infância, mas que também tenho comigo como lembrança dos tempos de criança dos que vieram antes de mim e se banharam em correntezas de água doce, num triunfo da energia ante a estagnação e a aclamação da existência sobre o vazio.

Veio à tona o desejo de mergulhar na alegria daquelas águas. Quewuaia me contou que não muito longe dali havia uma situação no rio em que isso seria possível, embora para chegar lá teríamos que atravessar seixos de pedras arredondadas, polidas pelas águas e escorregadias, entre a vegetação de folhagens, touceiras de gramíneas e pedaços de madeira que poderiam causar arranhões. No percurso, senti apenas uma leve queimadura na perna e, arrebatado, simplesmente saudei o ser vivo desconhecido que me fez aquela leve marca.

Meu corpo, com seus 70% de água, começou a soltar-se no rio, e fui tendo uma sensação de completude na imensidão de sons das águas animadas em direção aos saltos de mais de cem metros de altura, onde o choque do líquido contra o sólido provoca um turbilhão de gotículas pulverizadas no ar, muitas delas transformadas em arco-íris ao serem transpassadas pela luz do sol. Ali senti-me seguro porque na fluidez do todo não há segregação entre os elementos do constante equilíbrio da vida.

Enquanto me dirigia ao que me destinara naquele trecho do rio sem leito, a mente pensante me projetava na passagem da água entre as pedras, banhando a vegetação em um escoamento perene. Imagens das diversas possibilidades que a água encontra para ser rio me despertavam a cada passo em direção ao sentimento de plenitude. Em meio à densa floresta tropical, eu já não me distinguia no volume de água espalhado largamente e unido pela certeza do voo que o Lucala dá pelas quedas a alguns metros dali, seguindo o seu curso de afluente mais importante do Kwanza, o rio nacional angolano.

Chegamos a uma pedra grande, voltada para um espaço livre de plantas flutuantes, onde a correnteza de água barrenta não era tão forte. Ao fundo uma Caboda, com suas raízes tubulares dando sustentação ao tronco principal, parecia abrir os braços para que eu me jogasse. O guia, Quewuaia – batizado em português como João de Nascimento Samuel –, fez sinal de que havíamos chegado ao recanto que eu procurava para um banho de imersão planetária. Olhei para as águas do rio a correr e pulei de frente, confiante de que ali não havia rochas submersas.

Flávio Paiva no rio Lucala. Frame de vídeo feito por Quewuaia/João em 09/02/2026.

Quando eu era criança chamávamos de ‘tainha’ esse tipo de pulo com que se entra na água com os braços voltados para frente, em alusão ao peixe conhecido por seus impulsos sobre as águas. O impacto na água fria sob o sol quente me deu um intenso maravilhamento, prolongado no nado de volta rumo à pedra de onde havia saltado. Naquele momento só conseguia sentir o Lucala como um ser esplendoroso, feito de grandeza e simplicidade, força e serenidade natural.

Fonte:
Jornal O POVO