Todo período junino gera em mim uma nostalgia futurista relacionada a essa festa popular composta por uma variedade expressiva de sotaques de música e dança presentes no âmbito da cultura fortalezense. Fico a pensar no tanto que a cidade poderia elevar seu potencial cultural e turístico se organizasse esse campo de sentido.

Diferentemente das demais capitais nordestinas, Fortaleza desenvolveu-se preponderantemente a partir do fluxo socioeconômico do interior para o litoral, resultante dos ciclos do gado e do algodão, entre os séculos 19 e 20. Entre os elementos culturais presentes nesse deslocamento, destaca-se a linguagem do forró.

No litoral, o forró ambientou-se facilmente com as horas diárias de noite e dia, com o fole das ondas do mar e com as carícias do vento constante e suave. Sentiu-se em casa, porque fazia parte das pessoas que o apresentaram à intimidade cultural da vida urbana, ampliando assim o significado de entrega nas festanças da cidade.

Em seu vigor atemporal, o forró tradicionalizou-se em uma rede de vínculos formada por pessoas que não conseguiam viver sem forrozar. A espontaneidade relacional gerada pelo forró impregnou os hábitos locais com seus múltiplos referenciais. Isso porque música e dança coexistem nessa festa cheias de cores, lembranças de cheiros, paisagens e horizontes do sertão.

Fortaleza cresceu e o forró é uma opção fluida e arejada em seu ecossistema cultural. Contudo, as estruturas de valorização das manifestações populares cederam às pressões do mercado de entretenimento de massa, e o forró raiz foi sendo desprezado enquanto oferta de atração na metrópole.

“Forró Cearense” (2009), do pintor fortalezense Carlos Silva

Sempre imaginei que uma programação conceitual de forró poderia ser desenvolvida em Fortaleza, aproveitando a variedade de estéticas forrozeiras perdidas na interioridade cultural da cidade. A possibilidade de copresença de diversos tipos de forró na sagração das muitas vozes de Fortaleza é real; basta examinar a riqueza de seus subconjuntos. A título de ilustração, organizei uma dúzia de sotaques cearenses de forró.

1) Forró de Cego Oliveira, tendo como base a rabeca, instrumento melódico de origem persa que está na pré-história do forró; 2) Forró Pé de Serra, a tradicional festa de sanfona, zabumba e triângulo; 3) Forró de Xerém, com pegada caipira, invenção do artista que primeiro gravou uma música com a palavra forró no título, “Forró na roça”, de 1937, parceria com Manuel Queiróz; 4) Forró de Humberto Teixeira, louvação ao compositor cearense que, ao lado do cantor pernambucano Luiz Gonzaga, inventou o baião; 5) Forró de Balanceio, um recanto dedicado a essa música de aconchego fortalezense criada por Lauro Maia em parceria com Aleardo Freitas; 6) Forró Carimbozado, experiência do “Forró do Fico”, que fiz em parceria com Orlângelo Leal em reverência aos mestres da cultura popular paraense, tão presentes no ir e vir amazônico dos cearenses;

7) Forró de Messias Holanda, exaltação ao cantor da música bem humorada e de refinado duplo sentido; 8) Forró de Coco de Embolada, espaço para o desafio ao sabor de improvisos e batuque de pandeiro; 9) Forró de Xote, ambiente voltado para destaque do ritmo mais próximo do coração e do arrasta-pé cearenses; 10) Forró de Rap, aproximação desses gêneros rural e urbano em forma de crônica de cunho social; 11) Forró de Boca, canto coral performático do maestro Erwin Schrader; e 12) Forró Instrumental, num diálogo da cidade com grandes sanfoneiros de qualquer lugar do mundo. Ah, Fortaleza!!!

Fonte:
Jornal O POVO