Parei por um bom tempo diante do mural azul berrante pintado em uma das amplas paredes laterais do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), em Fortaleza. Com elementos praieiros, grafismos da arquitetura do próprio centro cultural e uma figura feminina sem rosto, a obra é coroada por uma engenhosa frase de efeito: “Não existe Chico sem Matilde”.
O conceito é provocador, uma vez que sacode ancestralidades e aponta para a direção da mãe do jangadeiro Chico da Matilde como a fonte mais profunda do sonho de liberdade e do senso de justiça que levou o herói cearense a tornar-se o legendário Dragão do Mar. Essa ideia-força surge no instante em que o maior equipamento de cultura do estado assume a celebração do dia 25 de março, a Data Magna do Ceará, como um dia de festa da negritude na Terra da Luz.
O semblante sem rosto de Matilde remete ao anonimato comum à participação da mulher nas lutas por transformações sociais. Especificamente no painel, com arte de M Dias Preto, execução de Brooks, Michelle Batista e Jambo, produção de Marquinhos Abu e realização do Festival Concreto e LabCidades Criativas, é evidente o campo aberto para se pensar em todas as mulheres que, mesmo sem serem notadas, foram heroínas do acontecimento pioneiro da abolição cearense em 1884, quatro anos antes do restante do Brasil.
A influência de Matilde na construção da subjetividade do filho Chico se expressa no alicerce emocional da criança órfã de pai, que acompanhou a mãe, desde a vila de pescadores de Canoa Quebrada até o porto da Fortaleza do século XIX, quando predominava a exportação de algodão e onde se embarcavam pessoas escravizadas para o agronegócio sudestino. No novo território, ela seguiu como artesã de renda de bilro e ele como ajudante de cozinha nos navios.
Matilde deu a Chico a voz do afeto que se escuta no ventre e dá segurança de vir ao mundo. A mãe de um herói valida sonhos e constrói confiança até quando faz cafuné no filho, catando piolho e conversando sobre a vida em comunidade. Não dá para saber o que ela contou ao filho sobre bicho-de-pé, nem a respeito das ondas do mar, mas disse sem dúvida que um provoca coceira e as outras exigem que se aprenda a nadar.
A proteção da dignidade é fundamental para a coragem moral e para a sabedoria do destemor, virtudes determinantes dos limites entre a apatia e o medo. Lembrei-me das cartas que o cartunista Henfil (1944 – 1988) escrevia para a mãe dele na revista “Isto É”, na passagem das décadas de 1970 e 80, em que tratava de assuntos políticos em plena ditadura militar, suportado pela frase: “Quem tem mãe não tem medo”.
Chico da Matilde, como o nome diz, teve mãe, a Mãe da Abolição. O menino que conhecia a dança dos bancos de areia e das correntezas cresceu e passou a ser o prático da Capitania dos Portos, um posto fundamental para o êxito da paralisação de jangadeiros que se negaram, em 1881, a transportar pessoas escravizadas para navios negreiros. Foi demitido do cargo, mas o ato foi fundamental para a formalização da Abolição, em 1884.
Aclamado pelo movimento abolicionista no Rio de Janeiro, ganhou o apelido de Dragão do Mar. Tempos depois, com a música “Mestre Sala dos Mares” (1975), os compositores João Bosco e Aldir Blanc retomaram essa simbologia para exaltar o feito de João Cândido na Revolta da Chibata, em 1910: “O Dragão do Mar reapareceu”. Em 2026, o reconhecimento de Matilde pelo Centro Cultural que leva o nome do seu filho coloca a mãe na coreografia das jangadas no porto de Fortaleza e dos navios na Baía da Guanabara e nos mares de uma nova história.
Fonte:
Jornal O POVO


