Cinco anos atrás o diretor Sérgio Rossini, da Indiana Produções, teve a ideia de fazer um documentário com Evaldo Gouveia (1928 – 2020). O grande compositor e cantor de sambas-canções, boleros, marchas-ranchos e bossas fora ao estúdio do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, para gravar o vídeo da música Por Todos Esses Anos, parceria minha com o compositor maranhense Josias Sobrinho, e Rossini aproveitou a ocasião para registrar um longo depoimento com o artista.

O filme ainda não foi possível de ser feito, mas com a morte de Evaldo, em maio deste ano, Sérgio Rossini resolveu colocar um título provisório no material e, sábado passado (29/8), disponibilizou Evaldo Gouveia Relembra sua Vida e suas Canções no YouTube. Que maravilha! Evaldo como ele era, em seu estado natural, na sua simplicidade, no exercício livre do seu dom de compor e de cantar; espontâneo e instantâneo com seu companheiro violão.

O menino, neto do temido sargento Antônio Gouveia, era também um bravo, mas na arte de cantar nas radiadoras no interior. E, assim, ganhou o mundo com o seu violão, tocando uma vida de sete décadas de grandes sucessos. Nos anos 1950, como integrante do Trio Nagô, interpretava músicas de terceiros. No vídeo ele cantarola lindamente um trecho de Prece ao Vento (Fernando Luiz, Gilvan Chaves e Alcyr Pires Vermelho): “Vento que balança as palhas do coqueiro / Vento que encrespa as águas do mar…”.

Nas décadas seguintes passou a compor para a interpretação de terceiros. Era um artista aberto, que não se prendia a nichos musicais, nem tinha turma. Tecia melodias e ritmos sentimentais. Sua vasta obra foi disputada por intérpretes dos mais variados estilos musicais, identidades sexuais, cores de peles, gerações e geografias. Cantoras e cantores brasileiros de todo lugar gravaram a obra de Evaldo Gouveia. A título de ilustração, cito algumas das célebres vozes que popularizaram suas composições por todo o país.

Com sotaque carioca, Evaldo Gouveia foi gravado por Nora Ney, Alaíde Costa, Wilson Simonal, Maysa, Emílio Santiago e Joanna. De chão fluminense, Ângela Maria, e de origem niteroiense, Agnaldo Rayol e Cauby Peixoto. Os mineiros Altemar Dutra, Moacyr Franco, Agnaldo Timóteo e Ana Carolina somaram-se aos paulistas Jair Rodrigues, Dalva de Oliveira e Zizi Possi na propagação do jeito Edvaldo de sentir o que sente o coração das pessoas apaixonadas.

E ainda ouvindo as vozes gaúchas de Nélson Gonçalves e Cris Braun, da paraense Fafá de Belém, dos paranaenses Chitãozinho e Xororó, dos cearenses Marcos Lessa e Dona Zefinha e dos baianos Anísio Silva, Gal Costa e Maria Bethânia o país inteiro entoou Alguém me Disse, O Conde, Sentimental Demais, Que queres tu de mim, Brigas, O Mundo Melhor de Pixinguinha, Bloco da Solidão, Tango para Teresa, O Trovador e Garota Moderna, entre centenas de inquestionáveis sucessos.

No registro feito por Sérgio Rossini, com som de Rogério Souza, fotografia de Tota Paiva e apoio da produtora Vita Christoffel e de Liduína Lessa, hoje viúva de Evaldo, o artista fala da vergonha que tinha de divulgar o próprio trabalho e de situações que o fizeram chorar, como no momento em que viu em uma placa de entrada da cidade de sua infância os seguintes dizeres: “Iguatu – Terra de Evaldo Gouveia, Humberto Teixeira e Eleazar de Carvalho”, e quando recebeu uma ligação do cantor madrilenho Júlio Iglesias e da cantora baiana Simone, para dizer que estavam gravando uma música sua no exterior.

É gratificante ver esse admirável artista falando da emoção que sentiu com um elogio feito pelo cronista acreano Armando Nogueira, e da alegria de estar fazendo dezenas de músicas com o poeta carioca Paulo César Pinheiro. Evaldo Gouveia comenta como se preparou ouvindo rádio para não cantar errado e relata fatos pitorescos da sua intensa e longa vida feita de canções dedicadas ao amor. Tudo ao natural.

——-

Imagem do topo: Cena do registro “Evaldo Gouveia relembra sua vida e suas canções”, de Sérgio Rossini.