O bilionário Elon Musk é um inescrupuloso showman do capitalismo de plataforma, excitado com a capacidade que adquiriu de causar e, com isso, apresenta-se como uma espécie de paladino do reino dos concentradores da riqueza e da renda mundial. Mostra-se astucioso o suficiente para seduzir legiões de seguidores que se imaginam seus pares, quando não passam de incoerentes úteis no aprofundamento das desigualdades sociais.

Musk está se aproveitando do momento em que o Brasil procura se achar, depois de passar por uma desordem ultraconservadora, para travar no país uma cruzada tecnológica e dogmática de padrões medievais. Como cavaleiro pouco honrado dessa empreitada por um entreposto comercial e ideológico, ele partiu para cima do Judiciário e do Executivo, livrando apenas o Legislativo, onde tem aliados do mesmo naipe.

A desproporção dessa investida está sendo possível porque o Brasil tem insuficiência de sociedade civil. A aglutinação de forças distintas que deu início à redemocratização (1979) tendia à construção de uma sociedade civil, com o engajamento de parte expressiva da classe média e com movimentos sociais ativos. Com a troca no poder da República (2003), o governo precisou de quadros e foi exagerado na arregimentação de ativistas sociais, deixando um vazio que passou a ser ocupado por pastores oportunistas e narco-milicianos.

As improbidades cometidas e assumidas em delações premiadas por aloprados durante os mandatos seguidos da esquerda no poder afastaram muitas pessoas que, por desilusão, deixaram de lado os movimentos políticos ou passaram a apoiar partidos menores como forma de preservação de consciência crítica, ficando esse outro vazio preenchido por ganhadores de dinheiro pouco interessados em justiça social.

Elon Musk em charge do blog fanpage.it

Some-se a isso o lapso de ruptura democrática do golpe jurídico-parlamentar (2016) e a intensificação da vulgata do empreendedorismo de bico difundida pelo capitalismo inclusivo; fatos que influíram para a escalada de uma massa, mista de endinheirados e lisos, movida pela avidez da prosperidade imediata. Avidez é o substantivo da pregação desse alto patrono da antipolítica e da aceitação massiva de avanços de um sistema dogmático combinado entre negócios fora-da-lei e o mercado da falsa fé.

Assim, a figura insolente de Musk pôde colocar a sua empresa de fofocas e fake news a serviço da desestabilização de poderes constitucionais brasileiros, com a contribuição de gente do próprio país que fortalece o X (ex-Twitter) como uma espécie de bomba de fragmentação de reputações, capaz de lançar ao vento digital submunições de ódio e mentira, atingindo indiscriminadamente a população, violando a capacidade civil, as regras civilizatórias e o direito internacional.

Não é fácil para o Estado lidar com isso enquanto o governo corre atrás de unir e reconstruir o país em meio aos escombros resultantes dos descasos patrocinados pelo desgoverno anterior; destroços esses que se estendem desde o sucateamento das estruturas de educação até o encorajamento armamentista e golpista da população, o desmonte de organismos de atenção a grupos vulneráveis, a contaminação ideológica das Forças Armadas e da Polícia Federal e a antidiplomacia que fez o país passar vergonha nas relações internacionais.

Urge que se trabalhem os campos psicológicos e culturais da gente brasileira, a fim de que cidadãs e cidadãos teçam uma sociedade civil com condições de deter ameaças como a cruzada de Elon Musk contra o país. Quem atua na política partidária e acredita na democracia também precisa rever conceitos, se abrir à cidadania e colaborar para que o Brasil saia dessa situação em que as culturas de massa e de nicho se encontram paradoxalmente em diferentes perspectivas, no entanto com semelhante ideia aviltada de liberdade.

Fonte
Jornal O POVO