Em Catumbela, cidade angolana da província de Benguela, muitas histórias dos tempos coloniais seguem rondando a realidade desse lugar que é um importante entreposto logístico aeroportuário, ferroviário e fluvial do país. Tive acesso a uma dessas narrativas que vêm da oralidade, a qual simplesmente reconto aqui dando nomes umbundus às personagens, uma vez que seus nomes em português não são tão próprios assim.

Com o título “O destino de Nanjila”, procuro realçar a atemporalidade de algo que ocorreu por volta do ano de 1836, quando, pressionado pela revolução industrial britânica (1760 – 1850) e pela influência da economia das máquinas sobre a independência do Brasil (1822), o império português formalizou que não mais praticaria o tráfico transatlântico de escravizados; embora a escravatura tenha seguido acontecendo.

A história de Nanjila começa quando, ainda criança, ela é seduzida por um tio materno a conhecer a então vila de Catumbela, onde se realizava uma grande feira de trocas de produtos da terra, inclusive gente, por armas e tecidos estrangeiros. Para quem morava em uma aldeia distante, estar ali era a realização de um sonho.

Atenta ao movimento, mas sem entender a língua do colonizador, ela não percebeu que estava sendo vendida. Falando em umbundu, o tio orientou que ela ficasse ao lado do português com quem transacionava enquanto ia resolver outro assunto. E desapareceu. Nanjila chorou todas as lágrimas da liberdade perdida, da despedida das brincadeiras na aldeia e do prazer de ouvir histórias, para ser castigada até se submeter às vontades de um senhor.

Imagem de mulher daomeense do século XIX, atribuída ao fotógrafo francês Roland Bonaparte (1858 – 1924), praticante da antropologia racista.

Certa vez estava sozinha em casa quando bateu à porta um homem que gostava de caçar. Ndalu era um assimilado, ou seja, um angolano que, por ter conseguido riqueza, sentia-se português. Queria um copo d´água para aliviar a sede. Nanjila trouxe a quartinha e solicitou que ele estendesse o chapéu para pôr a água, pois na casa só havia um copo, e, não sendo branco, ele não poderia utilizá-lo.

Bastante raivoso, Ndalu argumentou que frequentava ambientes de negócios dos brancos e que estes o cumprimentavam pegando em suas mãos. Nanjila não cedeu, e o caçador estava com tanta sede que aceitou beber a água no próprio chapéu. Contrariado, saiu enfurecido, gritando que, se aquela desprezível escrava não sabia com quem estava falando, em breve iria saber.

Chegou em casa dispensando bajulações de serviçais e afagos de concubinas. Sentia-se humilhado. Gritava que não tinha dado uma surra em Nanjila porque ela tinha dono. Foi quando, da janela, observou a venda de uma adolescente que estava encantada com tecidos coloridos e miçangas que acabara de ganhar sem se dar conta de que estava sendo comprada. Teve, então, a ideia de adquirir Nanjila. Ofereceu um valor irrecusável por ela, que, ao ser comunicada da venda, intuiu o que estava por acontecer com a sua passividade diante do mundo.

O que mais a angustiava era o fato de não entender a razão de ser tão maltratada, quando nunca havia feito nada de mal a ninguém. Na casa do seu novo dono ela passou a noite em um cômodo insalubre. No dia seguinte foi convidada para ir a uma caçada. Seria a responsável pela água de beber. Em uma determinada altura do caminho, Ndalu parou e estendeu o chapéu pedindo que ela lhe servisse água. Nanjila informou que havia levado um copo, mas ele jogou o chapéu no chão e ordenou que ela o pegasse. Nanjila tentou fugir, mas, ao correr, levou um tiro pelas costas, deixando essa história para ser contada.

Fonte:
Jornal O POVO