O que acontece em lugares que ficam abandonados por morte e deslocamento dos seus habitantes é difícil de imaginar, mas esse não é um problema para a literatura. O livro “O Santo Chico Mocó”, de Antonio Menezes (Premius, 2026), mostra o que é capaz de acontecer com quem cai em desamparo e passa a se sentir dono da solidão de uma terra em que até as recordações entraram em desaparição.

Texto cheio de visualidades, onde o sagrado é cultural, e não religioso, e a escrita coloca a leitura em estado de andanças nordestinas profundas, “O Santo Chico Mocó” é uma novela-causo com esmeros e exageros que giram em torno de um protagonista de pouca fé, mas que, ao mesmo tempo, transita pela fabulação sobrenatural da cultura popular.

A obra conta os efeitos de uma peregrinação entre a localidade de Cabeça da Onça, interior de Crateús, até Canindé, quando o casal Chico Mocó e Mundica leva uma trança de cabelo do filho como ex-voto para deixar na Casa dos Milagres, na Basílica de São Francisco. O pequeno José Afonso acompanha os pais, todo vestido de marrom com o tradicional cordão de três nós na cintura, hábito que representa a pobreza franciscana.

Chico não tinha interesse por santo e Mundica era devota. Em comum mesmo, tinham um passado de sofrência. Ele nascera zambeta e, para afastar os joelhos e aproximar os tornozelos, passou a infância e a adolescência com um gancho de madeira entre as pernas, preso por tiras de couro. Ela veio ao mundo canhota, o que para o senso comum era coisa do demônio, e teve o braço esquerdo amarrado ao corpo, também com tiras de couro, para se acostumar a usar o braço direito.

Nas ruas de Canindé, Chico Mocó descobre um santeiro e é arrebatado pela estranha vontade de ter um santo com a sua própria cara e nome. O artesão nunca havia feito aquilo, mas aceita a experiência de deixar um pouco de lado a vertente sacra e entalhar um santo com traços tão personalizados. Sabe que uma parte do seu trabalho está associado ao alimento da alma, mas a outra parte precisa atender ao alimento do corpo. E aceita a encomenda.

Pintura de Hermógenes Neto, independenciano nascido paraense, para o livro do pai, Antonio Menezes.

O que parecia apenas uma irreverência toma proporções inusitadas, muito bem relatadas pelo autor, meu conterrâneo, de Independência, sertão dos Inhamuns, e conhecedor da intimidade do linguajar e dos códigos de crença interioranos, o que confere mais autenticidade ao livro. Em “O Santo Chico Mocó”, Antonio Menezes aproxima a transgressão da espirituosidade de uma situação em que só com “um santo de palavra” é possível aliviar a aflição de quem tem medo de “arruinar a cabeça”.

A quem procura literatura inspirada na vida e na influência de santos, com preceitos religiosos, rezas, orações, conselhos, tábuas de salvação e palavras de santidade, não é recomendável ler esse livro. A espiritualidade no livro de Menezes é a espontaneidade da alma popular no curso milagroso da vida, mesmo quando a Mundica oscila entre a veneração divina e as estripulias do marido, com quem chega a Deus por vias enviesadas.

Os triunfos e os castigos resultantes da existência do Santo Chico Mocó são apresentados com muita graça pelo autor. Nevoeiro que esconde o lugar do mundo, chuvas eternas e sumidouros, distopias com ondas de urubus devorados ao som de cigarras, ilusionismos de jequitiranaboias e mandíbulas de tanajuras, prosperidade e promessa de não comer mais farinha são algumas das circunstâncias dessa história que, segundo Mundica, ninguém precisa saber realmente como foi. Mas está no livro de Antonio Menezes em simplicidade inquietante.

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SERVIÇO
“O Santo Chico Mocó”, de Antonio Menezes, será lançado dia 8 de maio, às 19 horas, na livraria Leitura do Iguatemi Bosque.

Fonte:
Jornal O POVO