Aproveitei o primeiro dia após Fortaleza completar 300 anos de sua fundação para revisitar a cidade a partir das composições que fiz inspirado em momentos vividos na sua existência solar e sonora. A cidade tem nessas canções o tom lírico ardente que o pintor Antônio Bandeira (1922 – 1967) chamou de “Cidade queimada de sol” e a claridade lúdica que para mim é a “Cidade banhada de sol”.
Na balada “Latitude”, parceria com Tato Fischer, sinto o coração aberto do fortalezense ao diálogo com o mundo. “Nossa Senhora da Assunção de Fortaleza / Me guiai nesse vagar / Minha voz leva tua fé acesa / Na viagem pelo mar”.
Fusionei a lenda indianista de José de Alencar (1829 – 1877) com o teatro de Bertolt Brecht (1898 – 1956) para compor “Iracema Brechtiana”, tendo como pano de fundo o turismo sexual e o tráfico de garotas em Fortaleza. “Eu não falo sua língua / não conheço seus amigos”.
Teci a trama de “Não sei nada sobre você” com Daniel Medina, um maracatu cheio de presságios, marcado por uma espécie de cegueira à José Saramago (1922 – 2010). “De onde vem essa luz / que perturba meus olhos / cansados de tantas / histórias de amor? / É você quem está aí? / Se está perto assim / diga, por favor, sim”.

Desenho de Mário Sanders para a música “Não sei nada sobre você” (2017), de Daniel Medina e Flávio Paiva.
Em “Vela”, canção-progressiva feita com Ronaldo Lopes, a existência está na travessia cotidiana de pescadores. “Vela que não é vela de acender / nem é vela de velar / Sopra o vento / pra saber / se a jangada vai pro mar”.
O baião “Rua Favorita”, composto em parceria com Sivirino de Caju e com o meu filho Lucas Paiva, ressignifica o espaço público grafitado a partir dos rabiscos a carvão de Chico da Silva (1910 – 1985). “A rua das abelhas / Polinizando, grafitando / Ligando espaços”.
O ritmo carimbozado de “Forró do Fico”, parceria com Orlângelo Leal, segue os passos do chamego que purifica a alma da cidade. “Onde tem forró eu fico / No pé do ouvido / Eu vou chegando com cautela / No chiado da chinela / O suor pingando / Meu umbigo encostando / No umbigo dela”.
Inspirado nas atitudes feministas da primeira mulher de Adão, “Lilith no Carnaval”, parceria com Wilton Matos, é uma espécie de reocupação festiva do paraíso por blocos femininos de Fortaleza. “É vento verde / É vendaval”.
O convite às crianças para zanzar por Fortaleza está em “Vamos passear pela cidade?”, parceria com Ângela Linhares. “Bate que bate chamando alegria / Vem desejar boa noite / Vem desejar bom dia”.
A primeira escola dos meus filhos ganhou de presente a canção “Casa de Criança”, cheia de afetos e significados. “Tudo vive mais / Quando você sorri / E me escuta / Tudo brilha mais / Quando você olha / E me clareia”.
Com pegada pop, fiz com Valerie Mesquita “Se você fosse um saci”, música urbana para parques, praças e jardins de Fortaleza. “Se você fosse uma flor / Será que seria uma flor amarela? / Acho que não!”
Em “O encontro do capitão Rapadura com o sol num dia quente de verão”, recorri à literatura rimada. “Era um domingo de praia / O céu cheinho de arraia / Quando o sol se revoltou”.
Compus a opereta infantil “No ritmo das batidas do relógio da Praça do Ferreira” como valorização da brincadeira ao ar livre. “Você chegou bem na hora / Agora é a hora H / Bate o relógio da praça / Que é hora de brincar”.
Por fim, na cantiga “Fortaleza – de dunas andantes a cidade banhada de sol”, revelo para a crianças que a cidade fala. “Entre mangues / De caranguejos peludos / Meninas de tranças / Meninos buchudos / E bichos de pé / Cresceu a cidade do forte / Tão forte e guerreira / Banhada de sol”.
Fonte:
Jornal O POVO

