A estampa eugenista da seleção argentina de futebol, consagrada neste domingo (19) vice-campeã da Copa do Mundo, desencadeou um turbilhão de críticas antirracistas ao país do craque Lionel Messi. O escancaramento da história de apagamentos ancestrais não brancos é impactante no caso da Argentina porque, até quando vai se defender, a elite alva, ou mesmo a branqueada, geralmente se coloca apenas como descendente de imigrantes europeus, desconsiderando suas origens indígenas e africanas.
Vincular as essências de um povo à estreiteza de visão da minoria privilegiada que a governa me parece injusto. Em todos os países há pessoas que não aprovam os rumos impostos pelos poderes dominantes. Na Argentina não é diferente. Que o diga Milo J, rapper de 19 anos e ascendência indígena que vem fusionando batidas eletrônicas com bombo legüero em uma música de pertencimento que fala de amor, preconceito e valorização étnica e cultural dos povos originários, afro-argentinos e mestiços.
Nascido em Morón, cidade da região metropolitana de Buenos Aires, Camilo (Milo) Joaquín (J) Villarruel combina elementos sonoros e rítmicos da música popular tradicional e contemporânea, produzindo uma comunhão atemporal de gêneros musicais do interior do país e do seu mundo urbano. Nesse processo de recodificação estética, ele faz um som cogeracional, não promovendo tributos aos que abriram caminhos antes dele, mas andando lado a lado, de braços e vozes dadas.
O conceito utilizado por Milo J no enfrentamento do colorismo de corpos e da segregação por origem é “marrom”, uma autoidentificação política informal que tem paralelo na expressão “pardo” utilizada oficialmente pelo Estado brasileiro no combate ao racismo estrutural. A cantora Mercedes Sosa (1935 – 2009) popularizou a canção “Marrón”, parceria do maestro Damián Sanchez com o poeta Jorge Sosa (1945 – 2021), que aborda a situação de marginalidade da gente argentina não-branca, com seus “espelhos de papelão”.

Milo J em show no estádio Vélez Sarsfield, zona oeste de Buenos Aires. Foto: Sofía Graña (20/12/2025) / Billboard Argentina.
Milo J não é apenas resistência, é linha de frente no enfrentamento do racismo. Agrada-me o arrojo com que ele, mesmo diante da dor da exclusão, propõe que sejam reservados momentos na luta para festejar conquistas. Ele transita em lateralidade por cânticos comunitários indígenas e por sentimentos perenes do seu legado biológico, espiritual e de lutas culturais e históricas. Com essa força, mantém suas origens na arte, atropelando o preconceito contra “Outro negrito cantor da zona Oeste” que chega para ocupar espaço.
Para romper com a blindagem do apagamento, sabe que precisa ser bom no que faz, sempre lembrando da busca de cura do ser humano envolto com o fútil e o efêmero. Inspirado na avó, que era fã de Sílvio Rodriguez, canta com o trovador cubano o valor da luz própria: “Vejo os vaga-lumes que estavam bem no fundo do seu coração”. Com a cantora Soledad Pastorutti, abre frestas para “A luz da floresta que conseguiu me fascinar” e reafirma o misto de reverência e negação que tem por Santa Luzia, o “Diabo branco dos meus dias”.
Com olhar no retrovisor do antirracismo, essa figura aparece em criações poéticas como “Duerme Negrito”, do compositor indígena Atahualpa Yupanqui (1908 – 1992), em que o ninar recorre ao perigo do colonizador, e em “Martín Fierro”, do jornalista crioulo José Hernández (1834 – 1886), revelador das injustiças cometidas pelo projeto de nação excludente traçado na Argentina no século XIX. São obras que despertam consciência de humanidade e que têm no trabalho de Milo J nova tração de continuidade.
Fonte:
Jornal O POVO

