Em sons cancionados e ritmados, três cantoras de três distintos contextos amazônicos agitaram o teatro da Caixa Cultural Fortaleza de quinta a domingo passado com o show “As Amazônias”. Patrícia Passos (Amapá), Aíla (Pará), Djuena Tikuna (Amazonas) e banda estão circulando pelo Brasil espalhando frescores de distintas coletividades da cultura, do bioma e do território que abriga a maior floresta tropical do planeta.

Tem banzeiro no palco, banho de chuva e banho de cheiro, como diz a composição da Dona Onete, desde as corredeiras do Rio Arari, na Ilha de Marajó. A plateia inclina os ouvidos para escutar as vozes do princípio ativo feminino amazônico e se levanta para sacudir o esqueleto entre as ondas formadas pelos agitos sonoros e performáticos de boas energias em canto de união e partilha.

Vibrações de marabaixo e batuque do Curiaú amapaense, carimbó e guitarrada paranaense e cantos indígenas Tikuna, a mais numerosa etnia amazonense, espalham vínculos com rios, lagos e matas nessas paisagens de povos originários e de tantos outros que passaram a habitar a região, construindo modos de vida, de ver, de sentir e de cantar.

Navegando por muitas luas, o cancioneiro fluvial dos beiradões, os ritmos verdes da floresta e toda a biossonoridade ancestral dizem presente nesse espetáculo transpassado por sensibilidades do feminino ribeirinho, quilombola, mazaganense, caribenho, peruano, colombiano, cearense e demais ethos de brasilidade.

O contato direto com a diversidade abundante da música amazônica levou o pesquisador paulistano Marcus Pereira (1930 – 1981) a definir o Norte como “a região mais brasileira do Brasil”. Escreveu isso na capa dos álbuns da coleção “Música Popular do Norte” (1976), depois de ter concluído o “Mapa Musical do Brasil”, com discos de música popular das diversas regiões do país.

Pereira lutou intensamente para que o povo brasileiro tivesse consciência de si mesmo. Percebia a região amazônica como “o maior cenário para as fantasias e para os sonhos” de um país bem maior do que os seus muitos e complexos problemas sociais e ambientais. Com a força feminina das Icamiabas, legendárias guerreiras amazônicas, Patrícia Bastos, Aíla e Djuena Tikuna mantêm vivo o canto em evolução dessas memórias desejantes.

Aíla, Patrícia Bastos e Djuana Tikuna e banda no show “As Amazônias”. Caixa Cultural Fortaleza. Foto: Flávio Paiva (15/05/2026).

A arte é uma forma de preservação da cultura e de como as pessoas se enxergam na natureza. Os falantes da língua Tikuna estão mais protegidos quando Djuana canta em fala materna, com entonações que alteram os sentidos das palavras. No show “As Amazônias”, ela cede a Aíla a interpretação em português de uma de suas composições, que diz assim: “Somos todos da mesma aldeia”. O público entende o sentimento de coletividade desse canto que vale para todo o planeta.

A Amazônia musical dessas três artistas une cantos e recantos do mais populoso dos estados nortistas, o Pará de Aíla, do maior estado do país em extensão territorial, o Amazonas de Djuana Tikuna, e a área de fronteira do Platô das Guianas, banhada pela bacia do Oiapoque, pela foz do Rio Amazonas e pelas águas do Oceano Atlântico e suas conexões caribenhas desde a pré-história, o Amapá de Patrícia Bastos.

Um mundo de simbolismos integra essa apresentação, que tem ainda projeções visuais de Roberta Carvalho e Priscila Tapajowara no fundo do palco. Diretamente do reino da Mãe d´Água, que da profundeza dos rios sai em busca do amor que está à tona, e do reino da Araponga-da-Amazônia, que da copa das matas ecoa procurando dizer que existe, “As Amazônias” nos chamam para escutar a região.

Fonte:
Jornal O POVO