A Copa do Mundo da FIFA 2026, realizada na América do Norte (Canadá, Estados Unidos e México), tem sido marcada pela abundância de eventos adversos. O mais vergonhoso de todos é o domínio da transmissão por casas de apostas (bets), acusadas de manipulação esportiva e de ataques à saúde pública e à economia popular com assédios viciantes de azar, principalmente aqueles conduzidos por jogadores, narradores e comentaristas.
O hábito de o patrocinador intervir descaradamente na escalação de jogadores e em resultados de partidas é um fenômeno que vem desde a copa de 1998, quando o Ronaldo Nazário, após convulsão, teria entrado em campo por força de contrato com a Nike, e os franceses venceram. Situação análoga está ocorrendo com Neymar, escalado por ser garoto-propaganda de Bet e, para jogar bem nesse setor de vendas, precisa do máximo de visibilidade.
De uma copa que junta a FIFA de Infantino e os USA de Trump, não tem muito o que se esperar. Baniram a seleção russa alegando a guerra na Ucrânia, embora o governo estadunidense seja promotor dessa e de outras guerras. Deportaram o árbitro somali Omar Artan e procuram intimidar delegações estrangeiras com interrogatórios abusivos, sem contar com a sabotagem logística e a alteração de resultados feita por árbitro de vídeo (VAR) em jogos da equipe iraniana, forçando-a a sair prematuramente do mundial.
As regras coloniais e neocoloniais de dominação e exploração seguem perturbando a mente da maioria dos desportistas que disputam essa copa de seleções, como uma ameaça existencial ancorada nas ideologias de desumanização. Nota-se isso na ansiedade inclusiva individualista de jogadores brasileiros que veem na ostentação um atestado de vencedor profissional e social.
Nem tudo é negativo nessa copa, que já não tem a diversão do drible, arte alijada pelo futebol de resultados europeu, mas ainda vale a pena ser vista em função da garra e do destaque coletivo presente em seleções do mundo não-branco. Nesse contexto, é fundamental sublinhar a perspectiva do saldo positivo de gols políticos assegurados por atletas e torcedores que estão colocando o futebol no jogo decolonial.
Para me interessar, adotei também como critério de desempate os posicionamentos do brasileiro Danilo contra a publicidade online de bets e o do francês Mbappé, que não faz publicidade para bets nem fast-food. Nas arquibancadas, quando não lhe julgam impedida, é imperdível a intervenção artística do congolês Michel Nkuka, em ato de estátua viva pela figura emblemática de Patrice Lumumba (1925 – 1961), líder anticolonialista assassinado sob os auspícios belga e estadunidense.

Presença do líder congolês Patrice Lumumba (1925 – 1961) nas arquibancadas, em arte de rua do torcedor Michel Nkuka. Foto: Carl Recine/Getty Images (23/06/2026).
Nos elencos das seleções africanas e latino-americanas que passaram da fase de grupos, chamam a minha atenção os muitos craques nascidos em outros continentes. Entre tantos, Hakimi do Marrocos é francês; Iñaki do Gana é espanhol; Mahrez da Argélia é francês; Aaron Wan do Congo é inglês; Doué da Costa do Marfim é francês; Nico Paz da Argentina é espanhol; Jamiro do Cabo Verde é holandês; Obed Vargas do México é espanhol; e John Yeboah do Equador é alemão.
Esse termômetro diaspórico dos jogadores filhos de imigrantes que preferiram atuar nas seleções dos territórios de origem de seus pais e antepassados mexe com o meu olhar. Alguns até podem fazer isso em busca de mais chance de ser escalado, mas, em princípio, noto que esse é um contrafluxo de reintegração de laços, determinado pelo aumento da valorização da força das heranças culturais e pelo pulsar do coração profundo.
Fonte:
Jornal O POVO

