O grande ponto de atenção das festas de São João para quem se interessa por cultura nordestina tem sido as discussões sobre a ocupação dos palcos por cantoras, cantores e bandas da música comercial de entretenimento que não têm ligação com forró e os super cachês que tais artistas recebem de cofres públicos municipais por shows realizados nos polos juninos espalhados por toda a região.

A questão dos pagamentos inflados, que chegam a um milhão e meio de reais por apresentação, normalmente associados a desvios de finalidade, com acusações de enriquecimento ilícito ou de formação de caixa dois para campanhas eleitorais, é grave, mas de algum modo está sendo examinada pelo Ministério Público, pelo Tribunal de Contas e por outros órgãos de proteção dos gastos públicos em alguns estados brasileiros.

Isso é fundamental, tratando-se de contratos com patamares financeiros desproporcionais ao orçamento de muitas prefeituras. Discutir sobre valor de cachê, tendo como base projeção no mercado ou qualidade artística, é muito importante, mas o aspecto mais crítico dessa pauta é a destruição de valor cultural decorrente do desaparecimento do forró e dos forrozeiros das festas juninas.

O forró é a cara dessas festas, que, por sua vez, têm a cara do Nordeste, salvo em casos como o São João maranhense, em que o destaque é o bumba-meu-boi. Trios pé-de-serra e bandas gonzaguianas vêm sendo postos de lado por órgãos oficiais de cultura, mancomunados com a indústria de eventos musicais medidos em milhões de pessoas nos logradouros públicos de cidades que disputam o título de maior festa em termos de estrutura e movimentação, mesmo enfraquecendo com isso o sentido de coletividade.

Estabeleceu-se um poderoso sistema, controlado por grupos econômicos e políticos, que se apropria dos palcos e impõe uma uniformidade de apresentações, anulando a alma da festa. O que era popular tornou-se massificação e, como tal, passou a seguir a lógica da participação numérica. As empresas de venda de shows no São João são as mesmas que promovem eventos celebrativos de aniversários de cidades, vaquejadas e réveillons.

Multidão em show de festa junina no Nordeste. Foto da web.

O desarranjo entre a festa gastronômica do milho e a farra plutocrática do milhão, ou entre a quadrilha de dança e teatro de rua e a eventual quadrilha de bandidos das esferas pública e privada, começa com as prefeituras pagando preços irreais por shows de artistas cúmplices dessa trama. Esses valores superestimados confundem a opinião pública, que tende a enxergar nos ganhadores desses cachês elevados o que há de melhor para uma boa festa junina.

Com o aval do poder público, estruturas megalômanas e a sensação de que no palco está a nata da música popular lotam as praças de pessoas excluídas da cultura, fantasiadas do que já não são. Esse gozo pacífico é o efeito do ‘mal de escala’, conceituado pelo arqueólogo anglo-canadense Ronald Wright ao estudar sociedades que se destruíram por acreditar em diferentes graus de espertezas compartilhadas em nome do sucesso grandioso.

O forró está para as festas juninas como a água está para os períodos de estiagem. São recursos da esfera do comum, que precisam ser cuidados coletivamente. Deixar que gestores públicos municipais patrocinem o confisco privado dessa manifestação cultural é compactuar com um crime contra um direito social e político que é o direito à cultura. E isso está ocorrendo com a invasão do espaço do forró por sertanejos e outros gêneros musicais que estão sufocando a mais consagrada prática coletiva nordestina.

Fonte:
Jornal O POVO