Embalada pelos 300 anos de Fortaleza, a conversa transitava por história, memória, vivência urbana e pela minha produção literária, tendo como espiral de fala o meu livro “Fortaleza – de dunas andantes a cidade banhada de sol”, quando um estudante me perguntou:

– Qual o prêmio mais importante que você já recebeu pelos seus livros?
– Nenhum livro meu foi premiado – respondi.

Houve um silêncio na biblioteca, como se o garoto tivesse feito uma pergunta inadequada. A bem da verdade, aquele menino da escola municipal José Ramos Torres de Melo, no bairro do Mucuripe, estava me dando a oportunidade de tocar em uma questão fundamental sobre o que sou e o que faço.

Expliquei que no caminho escolhido por mim não cabem preocupações em atender aos modelos dominantes do mercado editorial e suas exigências de inspiração competitiva. Ser escritor foi um dos meios que encontrei para atuar artesanalmente na vida comunitária. E essa atuação tem dois campos bem claros: infância e cidadania orgânica.

Em uma analogia com o ato de empresariar, eu diria que estou no sentido inverso ao dos negócios focados em consumo. Ou seja, tenho algo orgânico da minha lavra que dá para vender e levo à feira, enquanto o normal no mercado é pesquisar o que está sendo demandado para criar produtos adequados às necessidades reveladas pelos consumidores.

Posicionado assim não posso esperar que meus livros sejam premiados por organizações que representam essa ordem mercadológica, embora, para se legitimarem, vez por outra elas premiem trabalhos fora do padrão que estabelecem. Sinto-me contente e agradecido por contar com editoras que ainda acreditam em obras desvinculadas dessa arraigada condição.

O fato de não ter livros premiados não quer dizer que as obras que publiquei não tenham sido enxergadas como relevantes na sociedade. Elas materializam o que e como penso e são responsáveis pelos troféus, medalhas e outras comendas que já recebi, entre os quais o Título de Cidadão de Fortaleza.

Flávio Paiva aprecia exposição de pinturas de estudantes da EM José Ramos Torres de Melo sobre os 300 anos de Fortaleza. Foto: Robyson Alves (20/05/2026).

A aceitação de uma obra literária se dá junto ao desconhecido. Neste aspecto, quando, por exemplo, encontro pessoas adultas que no tempo de criança leram o livro “Fortaleza – de dunas andantes a cidade banhada de sol”, sinto-me recebendo um prêmio significativo. E isso ocorre sempre, considerando que há mais de vinte anos esse livro é adotado na rede pública e privada de ensino da capital cearense.

Dias atrás um estudante universitário que leu meu novo livro “Ceará Negro e outros temas de África” escreveu o seguinte comentário em um post sobre o livro Fortaleza no Instagram: “Não sabia que essa obra é sua (…) Que máximo saber disso. Lembro que li esse livro na escola quando criança e hoje desbloquear essa memória e relembrar essa obra vem de um espaço nostálgico que não tem preço”.

Nestas mais de duas décadas tenho conversado ano a ano com muitos e muitos estudantes em diversos bairros de Fortaleza. Cada criança, cada educadora e cada escola que, juntamente comigo, exercita a descoberta do sentido de que a cidade fala, proposto por esse livro, me premia da forma mais sincera que um autor pode ser agraciado.

Há muitas maneiras de valorização de quem escreve. Ter livros premiados por instituições que estimulam o consumo de obras é uma delas. Mas a literatura tem uns prazeres que não se medem por interesses econômicos. Quem escreve por ser transbordante quer mesmo é o encontro com outras existências no curso do pensamento e da imaginação. Este é o prêmio mais importante!

Fonte:
Jornal O POVO