Ela é uma amiga de infância. Não que tivéssemos a mesma idade quando eu era menino e a faveleira (Cnidoscolus quercifolius) do quintal da casa onde nasci já era adulta. Em sua sombra, tudo acontecia, desde currais de gado de osso até estacionamento de carro de lata. Havia uma atração por aquele lugar, uma amorosidade que muitas vezes me levava a adormecer em pleno reino da imaginação.

Na nossa relação de árvore e ser humano, guardávamos um segredo essencial para as brincadeiras de esconde-esconde: ela não tem espinhos, como é comum à sua espécie na corrente de vidas do semiárido nordestino. Isso descartava a possibilidade de que outras crianças me procurassem em sua copa, uma vez que, por ter espinhos urticantes em galhos, folhas e frutos, ninguém ousa subir em um pé de favela.

Esse contato direto desfez-se quando, aos 17 anos, passei a estudar e a trabalhar em Fortaleza. Nesses cinquenta anos nunca deixei de visitá-la nas minhas idas a Independência. Mesmo assim, ela correu risco de morte, quando assassinos de árvores retiraram uma faixa da casca ao redor do seu tronco, mas ela conseguiu regenerar a conexão de nutrientes entre folhas e raízes.

Vendemos o imóvel em que ela se encontrava no centro da cidade. Solicitei aos compradores que me dessem um tempo para fazer o transplante da faveleira para a Fazenda Manchete, espaço destinado a ser um parque de cultura, educação e preservação ambiental. No dia 23/05/2026 ela foi replantada no Alto das Faveleiras, uma reserva de caatinga nativa com densa vitalidade ecossistêmica.

Flávio Paiva e a faveleira sem espinhos, sua amiga de infância. Imagem: Mardônio Fotos (23/05/2026).

Os valores científicos e históricos dessa planta estão associados ao importante papel que ela exerce na biodiversidade do semiárido, na produção de sementes para a alimentação humana e de forragem para cabras e ovelhas, e no fato de ser a árvore que nomina as comunidades urbanas periféricas brasileiras desde o massacre de Canudos (1897).

A operação de transplante ocorreu em um estado de cumplicidade sem igual. Augusto Rocha, Natasha, Alan e Goes abraçaram o compromisso, executado sob a coordenação de Rubens Loiola, seus auxiliares Francisco Feitosa e Paulo dos Santos, o operador de retroescavadeira Fábio Júnior e o motorista do caminhão Hugo dos Santos. O acesso foi facilitado por Raphael e Renato Melo, Dionísio Lopes, Haroldo Mapurunga e Lisboa Machado, e as imagens foram feitas por Germana e Mardônio Sampaio.

A movimentação irradiava gratidão. O sol brilhava sobre nós em consonância com os calores do meu sangue e da seiva dela. Não havia ninhos de pássaros em seus galhos, nem suas flores estavam sendo visitadas por abelhas naquele momento. Imperturbável em sua essencialidade, a faveleira recebeu uma poda severa em seu corpo de madeira centenária.

O caminhão seguiu carregando histórias e memórias. Cobrimos as partes podadas com uma pasta cicatrizante à base de cal. Vi suas raízes pela primeira vez, e logo naquela circunstância em que elas estavam impedidas de sustentar a árvore e de absorver água e nutrientes do chão para mantê-la viva. O que me confortava era saber que ela é suficientemente forte para ressurgir no novo endereço.

Abriu-se o buraco, colocou-se um pouco de terra levada do seu local de origem, e a faveleira foi replantada. Era um final de tarde em tons de amarelo queimado, como são belos os pores de sol do sertão. Estava ali uma escultura dedicada a rebrotar em galhos, folhas e frutos que estalam jogando longe sementes em busca de solo fértil. Dei-lhe um abraço e senti seu consentimento silencioso para me alegrar.

Fonte:
Jornal O POVO