Circulei por esses dias em um território angolano de paisagens e histórias exuberantes, onde, no século XVII, a ação política e militar de uma mulher soberana revelou impressionantes estratégias de diplomacia e de guerrilha para evitar que seu povo sucumbisse ante o tráfico transatlântico de escravizados. Saí de Luanda, a cerca de seis metros do nível do mar, e, em um percurso de 440 quilômetros, subi pelas planícies férteis das províncias de Bengo, Kwanza Norte e Malanje, onde a altitude passa dos 1100 metros.

Foi nessas áreas que a rainha N´Jinga Mbandi (1582 – 1663), a “Mãe de Angola”, tornou os reinos de N´dongo e Matamba referências africanas na resistência e no ataque ao colonialismo. Em um tempo de autoridade real masculina, ela tomou para si o legado ancestral de não permitir a submissão aos invasores portugueses e assegurou isso em quatro décadas de reinado, por meio de atuações pragmáticas, fundadas na intuição e na inteligência femininas.

Ao longo da viagem, nomes de escolas, monumentos, pequenas estátuas e pinturas murais lembram que a relação espiritual e política com a rainha ainda é forte naquela terra. Como o reino de N´Jinga tinha sedes itinerantes, determinadas pelas oscilações de guerra e acordos de paz, há muito o que ver em cada cenário e ouvir das pessoas em cada local, passando por Pungo Andongo, Kabasa ou pelas ilhas do rio Kwanza, lugares onde a rainha montou sua corte.

As Quedas de Kalandula, com mais de 400 metros de largura e 105 metros de altura, localizadas em uma zona de floresta densa por onde passa o rio Lucala, guarda segredos de como a rainha se energizava quando sentia a força daquelas águas de movimentos incessantes como os dela. Não muito distante, as Pedras Pretas do Pungo eternizam pegadas em baixo relevo, reverenciadas popularmente como de N´Jinga Mbandi, quando esta utilizava aquele conjunto de monólitos como fortaleza.

Grafite da rainha N´Jinga na vila de Cota, província de Malanje, Angola. Foto: Flávio Paiva (11/02/2026).

No trecho entre as Quedas e as Pedras, paramos na vila de Cota, antigo ponto de passagem da rainha e seus guerreiros. Em uma parede grafitada, a figura da soberana que enfrentou e fez alianças com quatro governadores fixados no litoral para a aquisição de escravizados e penetração no interior angolano: João Correia de Sousa (1621), Pedro de Sousa (1623), Fernão de Sousa (1625) e Salvador Correia de Sá (1648), este último responsável pela expulsão dos seus competidores holandeses no comércio transatlântico de escravizados, aos quais N´Jinga havia se aliado contra os portugueses.

Comprometida com interesses objetivos de comandar uma nação livre naquele contexto escravocrata, ela negociou com etnias rivais, como os Imbandala, que serviam aos colonizadores no tráfico de pessoas, por meio de casamentos políticos e mostrando quem era o inimigo comum. Para cessar a guerra que ameaçava a sobrevivência do seu reino, N´Jinga fez o seu sincretismo tático, aceitando ser batizada com o nome de Dona Anna de Sousa, mas sem renunciar a sua ancestralidade.

De volta à capital Luanda, vi com outros olhos a estátua da rainha N´Jinga no Largo Kinaxixi e os dizerem do cartaz ao lado: “A rainha voltou”. Ela havia sido colocada ali ao final da guerra civil (1976 – 2002), como retoque político nacionalista, retirada em 2014 sob a alegação de revitalização urbana e colocada no pedestal novamente em 2024, valorizando a memória histórica angolana. Em Kimbundu, o termo N´gola, que deu nome ao país, vem de rei, mas depois de N´Jinga essa palavra passou a ser comum de dois gêneros e a valer também para rainha.

Fonte:

Jornal O POVO