Uma minissérie documental sobre grandeza e realização, com momentos marcantes de uma das mais excepcionais personalidades do futebol mundial, o “bruxo” Ronaldinho Gaúcho, está disponível na Netflix nesses dias de eliminação da seleção eurocentrada do Brasil na Copa do Mundo da Fifa 2026. A trajetória de uma pessoa extraordinária que conseguiu ser ela mesma diante de um mundo cheio de hipocrisias e que, ao contrariar os padrões dominantes, é acusada de desperdiçar um tipo de felicidade pela qual nunca teve interesse.
Ronaldinho não pagou por ilusões para viver, apenas transformou fantasias em realidade cotidiana. Não caiu na armadilha da ‘exitoína’, como o escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940 – 2015) conceituou o vício de se submeter às pressões da idolatria a qualquer custo. É nisso que, em três episódios bons de assistir em um total de 2h e 47min, a obra agrega valor à trajetória de um craque de inigualável plasticidade no drible ritmado, que fez torcidas ferverem em todo o planeta.
Ronaldinho nasceu em um bairro periférico, populoso e com relevante população de pessoas negras de Porto Alegre, com antepassados de origem desconhecida no continente africano, em decorrência de apagamento racista. A base de sua formação foi uma família unida, com espírito comunitário, mãe investida de vínculos católicos e sincréticos afro-brasileiros, pai e irmão ligados ao Grêmio e irmã atuando na gestão das conquistas de todos.
Aprendeu a driblar descalço e sempre fez isso nos campos, obtendo passe livre para entortar adversários. Não funcionou em sua terra natal. Com 19 anos de idade, deu uma sequência de dribles desconcertantes no capitão Dunga no Gre-Nal de 1999, tendo o Grêmio vencido com um gol dele. Ao assumir o comando da seleção em 2010, o atleta colorado não convocou Ronaldinho, que havia sido peça-chave no pentacampeonato brasileiro de 2002, e o Brasil foi descartado nas quartas de final.
Por outro lado, a minissérie mostra o relato espirituoso do zagueiro francês Frank Leboeuf, que agradece ao Ronaldinho Gaúcho pela experiência de ser driblado tragicamente por ele na goleada de 3 x 0 do PSG sobre o rival Olympique de Marseille, em 2003, dentro de casa, no estádio Vélodrome, pelo campeonato francês.
Os casos sui-generis envolvendo os feitos de Ronaldinho Gaúcho no futebol são notáveis. Em sua atuação pelo Barcelona em 2005 contra os “galáticos” do Real Madrid, no estádio Santiago Bernabéu, terreiro do time madrilenho, ele foi ovacionado de pé pela torcida adversária por sua fantástica atuação naquela partida vencida pelo seu time. Em 2010, jogando pelo Milan, venceu o jogo contra o Barcelona no estádio Camp Nou, e dessa vez foi aplaudido por uma torcida agradecida pelas conquistas e alegrias dadas por ele ao clube catalão.
Depois de ganhar tudo – Copa América 1999, Copa do Mundo 2002, Copa das Confederações 2005, Melhor do Mundo 2004/05 e Bola de Ouro 2005 –, pensou em parar de jogar. Mas lhe faltava um título importante na carreira. Antes disso, porém, em sua passagem pelo Flamengo, inovou mais uma vez com um incrível gol de falta com a bola passando por debaixo da barreira do Santos na Vila Belmiro, em 2011, pelo Brasileirão.
Foi a sua atuação no Atlético Mineiro, com a conquista da Taça Libertadores da América, em 2013, que por fim o liberou para se aposentar tendo ganhado tudo o que é importante no futebol mundial. Ronaldinho não foi apenas um gênio da bola, porque os gênios nem sempre são tão sábios na operacionalização da vida como ele. A minissérie conta isso bem.
Fonte:
Jornal O POVO


