Com as sanções descabidas que vem recebendo do governo estadunidense, o Brasil está diante de uma grande oportunidade para despertar lideranças que pensem o país como um ator que se dá ao respeito no desenvolvimento da multipolaridade global. Em nome de seus interesses comerciais e geopolíticos, os Estados Unidos ordenam à sociedade brasileira que deixe a si mesma de lado para assegurar os lucros de suas corporações.
Em princípio, é risível eles quererem que se abra mão do PIX, simplesmente porque com esse sistema de pagamento desenvolvido pelo Banco Central suas empresas de cartões de crédito estão deixando de meter a mão no bolso do brasileiro a cada transação de maquineta. Burlesca também é a exigência para que suas empresas de mídias digitais operem no país sem obedecer às leis brasileiras.
Para impor essas e outras excrescências interventivas, ameaçam o Brasil com tarifas alfandegárias e controle externo, alegando que o país não cuida da natureza, nem das facções do tráfico de drogas e de armas. Isso é patético porque historicamente os EUA destruíram drasticamente sua cobertura florestal, são o maior mercado mundial de drogas ilícitas e a maior indústria de armas do planeta.
O Brasil fica mais vulnerável à medida que essa investida do neoimperialismo estadunidense se dá com respaldo no comportamento subserviente dos ocupantes do poder hereditário brasileiro, que não veem problema em trocar a soberania do país por privilégios particulares. É gente que entrega mesmo tudo, desde que para isso siga com poder local.
É neste ponto de insensatez que precisa ser instalado um roteador de percepções, capaz de receber os sinais gerados pela realidade do mundo multilateral em formação e distribuí-los às lideranças brasileiras que ainda não se deram conta de que abdicar da soberania do país nessas circunstâncias não mais manterá a secular lógica estrutural da entrega.
A trilha sonora desse mundo é o reggae “Plus Rien Ne M’étonne” (“Nada Mais Me Surpreende”), do cantor costa-marfinense Tiken Jah Fakoly, em forma de diálogo desumano entre as potências da guerra: “Se você me deixar a Tchetchênia / Eu te deixo a Armênia / Se você me deixar o Afeganistão / Eu te deixo o Paquistão / Se você não sair do Haiti / Eu te mando direto pra Bangui / Se você me ajudar a bombardear o Iraque / Eu te cedo o Curdistão”.
As condições estão criadas para as lideranças comprometidas com o país saírem do conforto da dependência e partirem para investimentos em nuvens soberanas e regulações firmes contra abusos externos. Se houver um mínimo de indignação, dá para fazer. Mesmo nos setores econômicos, as ameaças do tarifaço não são tão severas assim, haja vista que os EUA detêm pouco mais de 10% das exportações brasileiras.
Não faz sentido o Brasil ser coagido pelo governo estadunidense, que lança mão da ambição útil de uma família miliciana ascendente, e as pessoas que detêm diversos poderes no país fazerem vista grossa, como se a existência de um congresso voltado para negócios familiares, manipulador de verbas secretas e pouco afeito às questões de soberania fosse suficiente para dar sobrevida à dominação.
Mas, como diz Fakoly, “nada mais me surpreende”. Ao fim e ao cabo, o Brasil segue dominado por uma classe usurpadora, em posição estrutural privilegiada, que se sente detendo a permissão da corte para exercer o poder político, da riqueza, da comunicação e da influência sobre parte significativa da intelectualidade, das artes e da cultura. Soberania para quê?
Fonte:
Jornal O POVO


