Um pouquinho de tempo que a gente passa em São Luís do Maranhão já dá a sensação de passear por um tantão de Brasil original. No mês de junho, então, a dose de brasilidade aumenta com ruas cheias de cores e arraiais das festas de São João por toda parte. O mundo todo parece que está botando boi ao som de matracas repinicando, ecos de pandeirões, urros de tambores-onça, estalados de maracás e os ataques estridentes das metaleiras.
Gira-girando, essa cultura enfeitada oferece abraços festeiros que entoam memórias e refrescam a alma como sorvete de cupuaçu. Tomar Guaraná Jesus, o centenário refrigerante cor-de-rosa maranhense, é quase uma alegoria. Primeiro, porque não se trata de guaraná, uma vez que o produto é composto por canela, cravo e aroma de tutti-frutti, e, segundo, pelo simples motivo de Jesus ser o nome do farmacêutico ateu que inventou a fórmula.
No Centro Histórico provei a revitalizante Flor de Vinagreira, cerveja artesanal avermelhada, feita com o mesmo tipo de hibisco utilizado na receita do tradicional arroz de cuxá. Bebida exclusiva do aconchegante restaurante do mesmo nome, onde almoçamos moqueca e mix de frutos do mar, tendo como entrada petiscos espirituosamente denominados Tiquinho Maranhense.
É prazeroso flanar entre fachadas decoradas por azulejos coloniais e por lugares encantadores como o Beco Catarina Mina, com suas lojinhas de artesanato, bares, restaurantes, um museu da dominação francesa e muitas histórias. A escadaria do século XVIII é toda em pedra de cantaria trazida de Portugal, o mesmo pavimento que à época era utilizado em palácios e igrejas.
Coberto de bandeirolas coloridas, dançando ao vento e estampando o chão com silhuetas, esse beco reflete a potência de Catarina Mina (s.d. – 1886). Nascida na Costa da Mina (Golfo da Guiné), África ocidental, região formada hoje por países como Benim, Gana, Nigéria e Togo, Catarina, que chegou ao Brasil como escravizada, obteve a carta de alforria e tornou-se uma destacada comerciante em São Luís.
No álbum “Heróis sem Monumento” (2025), a música “Catarina Mina”, do compositor mineiro Marcílio Menezes, exalta a mulher que vendia quitutes entre os sobrados da Praia Grande e que comprou a própria liberdade, andando como rainha e esbanjando alegria. No Ceará, Catarina Mina é o nome de uma grife de moda de inspiração artesanal com conectivos cruzados de artesanato e design.
Catarina Mina é o nome popular desse beco que, oficialmente, se chama Rua Djalma Dutra, em deferência a um militar carioca. Ainda são poucos os logradouros na capital maranhense que homenageiam mulheres negras. Além dela, estão à frente nesse processo de reconhecimento a romancista Maria Firmina (1822-1917) e a líder nagô Mãe Andressa (1854 – 1954).
Apesar da grande contribuição africana à formação maranhense, são poucos os espaços públicos que refletem essa participação. São Luís dedicou facilmente avenidas a holandeses, franceses e portugueses, mas para ter uma Avenida dos Africanos foi preciso muita pressão por parte do povo negro.
Na recém-inaugurada Casa da Apruma, o casarão da Associação dos Professores da UFMA, lancei meu livro “Ceará Negro e outros temas de África”, com apresentação do professor Verck Estrela e um auditório com presenças lindamente magnéticas. A livraria Poeme-se atuou junto, a Preta Nicinha e o poeta angolano Francisco Kibonda também. Depois fomos ver um boi de orquestra e o show de Josias Sobrinho em uma feira de livros no Cohama. É assim quando se viaja ao Maranhão.
Fonte:
Jornal O POVO


