A ascensão política de grupos antidemocráticos e entreguistas no Brasil é uma ameaça à integridade física e à autonomia de corpos humanos. A ideologia da violência, estruturada na hierarquização racista, tem como método a transferência das riquezas do país para exploradores estrangeiros, a privatização do sistema público de saúde, a debilitação das condições de trabalho, a criminalização arbitrária e a brutalidade contra corpos de vozes dissonantes.
Vestígios dessas práticas estão refletidos no livro “Escritos de Corpus” (Editora Debulhar, 2026), obra coletiva de historiadores e pesquisadores brasileiros que instiga pensamentos sobre direitos básicos de cidadania a partir de escavações na memória dos corpos.
A ideia do corpo sedutor de uma jovem indígena sem nome é colocada no questionamento sobre o massacre do engenho Tracunhaém, no século 16, como mito falacioso de fundação da Paraíba. As pinturas, os grafismos e os adereços corporais de povos originários, na Amazônia do século 19, também são apontados como generalizações do olhar unilateral imperialista.
O corpo negro no espaço público entra na história de Nelson Triunfo, criador do primeiro grupo de dança “black” do Nordeste em 1971, que levou essa arte para as ruas paulistanas em 1983. A luta para ser sujeito ante a universalização da exclusão social levou-me a escrever neste Vida&Arte o artigo “O hip hop e a estética dos excluídos” (O POVO, 07/02/1999), em que abordo a falta de lugar no mundo para os habitantes dos guetos de onde brota o sucesso do rap.
O uso reducionista do termo “povos ciganos” por jornais cariocas da primeira metade do século 20 fomentou a inferiorização dos grupos étnicos Rom, Sinti e Calou no Rio de Janeiro. Apenas por circularem pela então zona urbana carioca, foram presos, perseguidos e deportados para Angola (1718) nos mesmos navios que aportavam no Brasil com cargas de escravizados vindos daquele país africano.
A biopolítica colonial lusitana também é tratada na coletânea, com base na trajetória do pensador angolano Mário Pinto de Andrade (1928 – 1990). Na obra, pode-se ler sobre instrumentos de controle, como o Estatuto do Indigenato (1926 – 1930), que, em nome da hierarquização racial e do domínio do território invadido, estratificou a sociedade em indígenas, civilizados e assimilados.
Tendo como referência a popularização do rádio na década de 1930, a obra analisa como foi estabelecido o controle sudestino da subjetividade nacional, reforçando a naturalização das hierarquias sociais através da música popular, principalmente do samba como símbolo federal, e do cinema de chanchada e suas comédias estigmatizantes.
As páginas de “Escritos de Corpus” trazem reflexões sobre a repressão de corpos na Ditadura Militar (1964 – 1985). A cultura beligerante e machista leva à constatação de que, bem antes, no tempo em que foi base militar estadunidense na Segunda Guerra (1939 – 1945), memorialistas potiguares falam de Natal com adjetivos femininos, mas não enxergam a mulher como cidadã histórica na cidade.
O negacionismo oficial que levou mais de 700 mil pessoas à morte no Brasil entra no debate sobre a literatura pandêmica. À época, publiquei o livro “Asfixia” (Casa Bendita, 2021), com música-tema feita em parceria com a cantora gaúcha Laura Finocchiaro, e sou testemunho do respiro proporcionado pelo ato literário frente à sufocação desse tipo de intolerância. Realmente, é temerário apostar no fim da democracia e voltar a pôr corpos em risco, como é bem lembrado por esses escritos.
Fonte:
Jornal O POVO


