A silhueta de um peixe cruza uma estampa fluvial de estilo colorido vibrante, pontilhista, feita de cursos de rios serpenteados. Destacados sobre a forma preta recortada, os nomes da obra, “O encenador e a floresta”, e do autor, João das Neves. Quase dá para se ouvir um sussurrando ao outro que a bela capa é uma pintura do Movimento dos Artistas Huni Kuï (Mahku) em alusão ao seu mito fundador, Yube (cobra), e que lá para o final do livro essa imagem está reproduzida na íntegra, com suas bordas em grafismos (kene) de labirintos.

Singrando pelas 300 páginas desse livro da editora Relicário (Belo Horizonte, 2025), fica fácil de remar na intenção e no alcance da voz quando o pensador indígena Ailton Krenak diz no prefácio que João das Neves (1934 – 2018) “fez caminho entre os inquietos criadores de saídas”. O livro oferece três textos vinculantes do teatro com o mundo indígena do oeste amazônico, em relatos desse dramaturgo e encenador de alma grande e suas trocas de respiração e fotossíntese com a imensidão da mata.

A publicação foi organizada por Titane, Rodrigo Cohen e Maria Vanessa Dutra, esta última autora do posfácio no qual contextualiza o período de 1986 a 1991, tempo em que João atuou no Acre; um cenário tão bem cantado em “Saga da Amazônia” por Vital Farias (1943 – 2025), que havia estado lá em 1979. Fui testemunho dessa realidade em 1984, com apoio do padre Ricardo Rezende, então coordenador da CPT Araguaia-Tocantins, e escrevi textos que foram publicados em agosto de 1984 no Jornal do País (RJ) e no Cometa Itabirano (MG).

“O teatro e a floresta” é um ensaio de relevações empáticas das artes cênicas da floresta com o autor. Atracado nessas páginas surgem leituras pelo avesso, como a de que o nome dos Huni Kuï virou Kaxinawá pela força colonial de nominar povos, e o aprendizado de que “O oposto pode ser meu igual”. Em seguida, como uma balsa flutuante, o conto “Como os Kaxinawá descobriram o teatro” oferece uma leitura dialógica do olhar Huni Kuï para uma brincadeira de teatro nas ruas de Rio Branco, que resulta na experiência do contar representando, em uma troca de história com jeito de encenar.

Detalhe de pintura do MANKU (Movimento dos Artistas Huni Kuï) presente no livro “O encenador e a floresta”, de João das Neves.

“Diário de viagem ao Yurayá” são notas de João das Neves feitas durante vivências com os Huni Kuï pelo rio Jordão (Yurayá). Texto cronológico sobre deslocamentos, incidentes, encontros, clima, noites e dias, contendo desenhos feitos com caneta esferográfica azul, alguns pintados com lápis de cor, notas manuscritas e delicados ecopoemas, expressados em versos como “É tarde. E o rio / Se veste de estrelas” ou “Nos galhos secos / Brancas folhas repousam / Seu voo de garças”.

João das Neves foi diretor do CPC (Centro Popular de Cultura), órgão da UNE direcionado à potencialização política da arte popular, criado em 1962 e fechado pelo golpe militar de 1964, ano em que foi fundador do Grupo Opinião de artes cênicas de resistência, que durou por todo o período da ditadura militar. Com a retomada do processo democrático em 1984, conviveu com os Huni Kuï até 1992, seguindo em Minas Gerais com o seu teatro manifesto.

Presenciei o jeito silencioso de João das Neves em 2007 quando, juntamente com a atriz mineira Nanci Alves, estive na casa dele e da cantora Titane em Lagoa Santa. Naquele momento ele arrumava os materiais que levaria ao Vale do Jequitinhonha para imersões com artistas locais na criação do espetáculo “Maria Lira”, com dramaturgia sobre a ceramista escrita em parceria com o artista araçuaiense Luciano Silveira e encenada por ele em tons de argila, em respeito à cor da nova floresta.

Fonte:
Jornal O POVO